‘Eu, Ennio Morricone, morri. Anuncio-o assim a todos’. Foi assim que o grande músico e compositor italiano deu ao mundo a notícia da sua morte. Depois de uma queda, aos 91 anos, Morricone percebeu que caminhava para o fim dos seus dias e decidiu escrever uma carta para ser publicada após a morte. Homem de fé profunda e de um grande respeito pela família, gravou palavras de enorme gratidão aos quatro filhos, aos netos e, sobretudo à esposa: ‘a ti, Maria, renovo o amor extraordinário que nos manteve unidos. Para ti vai o mais doloroso adeus’. Até na hora da despedida, Ennio foi uma mestre de criatividade e humanidade. E o mundo da música e do cinema parou a 7 de julho para lhe prestar homenagem.
Nasceu, viveu e morreu em Roma, mas a sua vida tem o tamanho do mundo. Foi um dos maiores músicos e compositores contemporâneos. O Presidente Italiano definiu-o como ‘um músico que deixou uma marca profunda na história do séc. XX’. Sim, compôs mais de 500 obras musicais para bandas sonoras de filmes ou para orquestra. Ganhou mais de 40 grandes prémios, desde um Óscar Honorário de Hollywood até Grammy’s, Globos de Ouro e Baftas… A chave do sucesso da sua vida está, segundo críticos, na aliança entre a música erudita e a música popular. Por isso, ninguém estranhou que os media lhe tivessem dado tanto espaço e se multiplicassem homenagens no mundo inteiro.
Entre as bandas sonoras que marcaram a vida de Morricone está a do filme ‘A Missão’, realizado em 1986 para falar da Missão dos jesuítas no meio dos índios latino americanos. Recordo-me da recensão publicada na revista Encontro pelo P. Torres Neiva com o título: ‘Quem é capaz de conter a fúria do Iguaçu?’. Quem viu ‘A Missão’ recorda-se que as grandes quedas de água estão presentes e barulhentas todo o filme. Mas não sai dos ouvidos nem do coração a música, seja ela tocada pela flauta do jovem jesuíta junto às cataratas, ou pela orquestra dos índios na hora da destruição total da Missão.
Morricone não escondeu nunca a sua fé profunda nem a admiração pelos jesuítas. Disse numa entrevista que apenas se lembra de ter chorado duas vezes em público: quando viu o filme ‘A Missão’ e quando saudou, juntamente com a esposa, o Papa Francisco.Em 2016, realizou o Concerto dos Pobres no Vaticano e recebeu, em 2019, a Medalha de Ouro do Pontificado do Papa Francisco.