32º Domingo do Tempo Comum
Na parte final do ano litúrgico, a liturgia da Palavra aborda sempre temáticas específicas, que no catecismo antigo eram designadas como “novíssimos”.
Embora elas só aconteçam de facto no fim da vida (morte, juízo, inferno ou paraíso), a verdade é que elas não só nos acompanham ao longo da existência, mas podem – e devem – fornecer-lhe as coordenadas, já que são elas a dar o sentido à nossa vida.
É o que hoje acontece, com a abordagem do tema da ressurreição: é por acreditarem nela que os sete irmãos da primeira leitura, um após outro, reafirmam perante a autoridade a sua resolução de permanecerem firmes e fiéis, mesmo que o preço a pagar seja o dos seus corpos e das suas vidas, pois estão convictos de que “o Rei do universo ressuscitar-nos-á para a vida eterna”.
E não é por outra razão que S. Paulo recomenda aos cristãos da Comunidade de Tessalónica que se “tornem firmes em toda a espécie de boas obras e palavras”: é que o Senhor, pelo dom da fé na ressurreição, concedeu-nos “eterna consolação e feliz esperança”. Por isso, na sua oração em favor dos seus cristãos, pede que seja o Senhor a dirigir- -lhes os corações “para que amem a Deus e aguardem a Cristo com perseverança”.
É esta fé que os Saduceus recusavam, aferrados aos livros do Pentateuco, onde, à primeira vista não se fala de ressurreição. Por isso, Cristo, partindo do próprio caso extremo que lhe apresentam, nos deixa o seu ensinamento: a vida depois da morte não é simples prolongamento ou fotocópia desta vida, mas uma vida em plenitude, pois os que dela beneficiam “são filhos da ressurreição, são filhos de Deus”.
E aos seus opositores, argumentando a partir do seu próprio ‘terreno’, mostra como no episódio da sarça ardente está já contida uma referência bem forte ao tema da ressurreição, quando Moisés chama ao Senhor ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’, para concluir que “não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos”.
Para nós, cristão, o grande argumento é a própria ressurreição de Cristo, que em cada domingo celebramos e da qual Nossa Senhora já está plenamente beneficiada, pois foi glorificada “no seu corpo e na sua alma”.
Na recitação do Credo, afirmamos: “espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir”. Mas será que vivemos para a ressurreição? Será que já vamos trilhando caminhos de ressurreição, pautando por ela as nossas atitudes, palavras, valores e comportamentos, ou deixamos isso para o fim da vida, vivendo na prática como se não houvesse ressurreição? Em que medida é que os ‘Novíssimos’ já condicionam e influenciam a nossa vida no seu dia-a-dia?
Trata-se de questões verdadeiramente vitais, que convém não procurarmos evitar!