Sempre simpatizei com ela, confesso. Por interesse, acrescento. Aquelas duas frases do evangelho, que só Lucas soube guardar, trazem-nos o retrato em corpo inteiro de uma parte da humanidade. Não sei se a melhor, mas certamente a que faz com que a outra parte não passe muito mal. “Senhor, não te preocupa que a minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar” (Lc 10,40). Marta, amiga de Jesus e minha também, que tenho encontrado em todos os lugares por onde tenho passado, reclama das canseiras próprias e do descanso alheio. E com razão, que me perdoe Nosso Senhor e a sua santa resposta: “Marta, Marta, andas perturbada e inquieta com muitas coisas; mas uma só é necessária”. (Lc 10,41-42). Tem razão o Senhor, mas a minha gratidão a Marta é imensa. “Senhor, se tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido” (Jo 11,21), reclamará Marta outra vez mais tarde, para confirmar que o seu não era defeito de um dia mas feitio de uma vida.
Marta, diz quem estudou, vem do aramaico e significa Patroa. Confirmo, não a partir do estudo, mas da vida. Patroa, Dona, que é como quem diz Mandona, acrescento eu que gosto de usar a abundância da língua portuguesa. A experiência confirma e a necessidade agradece. As Martas que tenho encontrado pela vida, é certo que resmungam, reclamam, refilam e o mais que quiserem; mas organizam, trabalham e resolvem. Sem elas a vida seria bem mais difícil e o fracasso bem mais certo. Falo por mim, quanto a vós não sei.
A Igreja Ortodoxa incluiu-a entre as mulheres Miróforas (=portadoras de mirra), isto é, que foram ao sepulcro na madrugada do primeiro dia da semana levar perfumes e receberam do anjo a notícia da Ressurreição de Cristo. Mesmo na dor, atarefadas a servir enquanto os discípulos desatinam e se fecham em casa. A Igreja Católica reconhece-a como Santa e celebra-a a 29 de julho. Data curiosa, já que é tempo habitual de férias para muita gente, mas desconfio que não para elas, as Martas que, mesmo reclamando, nos ensinam o amor do serviço.
A experiência confirma e a necessidade agradece. As Martas que tenho encontrado pela vida, é certo que resmungam, reclamam, refilam e o mais que quiserem; mas organizam, trabalham e resolvem. Sem elas a vida seria bem mais difícil e o fracasso bem mais certo. Falo por mim, quanto a vós não sei.
“Crónica” é uma rubrica mensal do jornal “Ação Missionária“, pelo P. Aristides Neiva