História e Personagens

No princípio

Cláudio Poullart des Places nasceu em Rennes (França) a 26 de Fevereiro de 1679 no seio da alta sociedade bretã. Tinha o mundo a seus pés; mas no fim de um retiro mudou por completo o rumo da sua vida: deixou a toga de advogado e decidiu ser padre diocesano para o serviço dos pobres. À porta da Faculdade de Teologia (o Colégio Luís o Grande, em Paris) encontra um estudante pobre, sem meios; começa a ajudá-lo. Em breve são já um pequeno grupo esses estudantes que tudo esperam dele. Instala-se com eles num alojamento precário perto da Sorbone; a 27 de Maio de 1703, dia de Pentecostes, esta primeira comunidade fraterna de formação consagra-se ao Espírito Santo, tendo Maria por guia.

Passado um ano Cláudio está exausto sob o peso do trabalho e das responsabilidades. Na oração descobre então que precisa de confiar mais no amor do Senhor e partilhar as suas canseiras com outros colaboradores. Nasce, assim, a Sociedade do Espírito Santo ao serviço do Seminário do Espírito Santo, no qual se oferece a estudantes de poucos recursos uma formação sólida, adequada e exigente. Ordenado padre em Dezembro de 1707, Cláudio termina, nem dois anos passados, a sua peregrinação silenciosa de servidor dos pobres; morre a 2 de Outubro de 1709, com 30 anos, de uma epidemia que alastrou em Paris. Foi sepultado na vala comum do clero pobre junto à Igreja de Saint-Etienne-du-Mont. A Sociedade do Espírito Santo contava já então 70 jovens.

Ao longo do século XVIII, o Seminário do Espírito Santo formou cerca 1200 padres, a maior parte para o serviço das paróquias e capelanias carenciadas das dioceses de França; mas já por volta de 1730 tinha uma forte vertente missionária com padres aí formados a serem mandados para o Canadá e para o Extremo Oriente, por intermédio das Missões Estrangeiras de Paris. Pouco antes da Revolução Francesa assume o encargo espiritual de Saint Pierre e Miquelon, da Guiana e de Saint Louis do Senegal. Como muitas outras, a Sociedade foi suprimida em 1792, no calor da Revolução. Restaurada em 1816, vê ser-lhe confiada a missão de prover às necessidades pastorais das colónias francesas.

Um casamento que deu frutos

Em 1848, ao integrar a Sociedade do Coração Imaculado de Maria, fundada por Francisco Libermann para o serviço das populações negras, a sua vertente missionária acentua-se ainda mais. Libermann não era apenas um dos maiores mestres de espiritualidade do seu tempo; tinha também qualidades extraordinárias de organizador e administrador, sendo a pessoa certa para essa época de abolição da escravatura e de abertura da África ao Evangelho. Com ele os carismas destas duas famílias – o serviço dos mais pobres e marginalizados e o primeiro anúncio do Evangelho – tornaram-se a nota distintiva da Congregação resultante da fusão das duas sociedades.

Francisco Libermann, nasceu em 1802 na Alsácia (França) no seio de uma família judia de Saverne. Converteu-se ao cristianismo e recebeu o batismo na véspera do natal de 1826 contra a vontade do pai que queria fazer dele rabino e seu sucessor. Um ano depois é admitido ao Seminário de S. Sulpício e pouco antes de ser admitido ao subdiaconado, foi atingido pela epilepsia, uma doença que o impediu de avançar às ordens sacras. Mas como tinha uma influência positiva nos seminaristas, foi autorizado a permanecer no seminário sulpiciano de Issy. Em 1837 foi convidado para assistente do Mestre de noviços dos Eudistas em Rennes. Aí permanece até 1839 até que dois colegas o convidaram para colaborar e orientar um projeto que sonhavam: a «Obra dos Negros» para a evangelização dos escravos das colónias francesas.

Libermann aceitou o desafio partindo para Roma a pedir a necessária autorização da Santa Sé. Aí escreveu a «Regra Provisória» desta futura sociedade. O projeto foi aprovado e, curado da sua doença, Libermann foi ordenado sacerdote em 1841. O noviciado da nova congregação abriu nesse mesmo ano e em 1843 partia a primeira leva de missionários.

A partir desta data os Espiritanos fundam muitas missões ao longo da costa Ocidental de África; pouco depois chegam à costa Oriental; e das missões costeiras avançam para o interior do continente. A partir de 1841 abrem-se também missões nas ilhas Maurícia e Reunião e em 1898 no Norte de Madagáscar. Em 1880 os Espiritanos já estão radicados em Angola. No fim do século passado eram poucos os países a sul do Sahará onde eles não tivessem tido um papel importante na evangelização. Nos Estados Unidos iniciaram o trabalho missionário em 1872; para a Amazónia foram em 1898. Duas tentativas na Austrália (1846 e 1889) saldaram-se num fracasso: será necessário esperar até 1970, ano em que chegaram também à Papua Nova Guiné. Em anos mais recentes assumiram compromissos em Moçambique, no Paraguai e na Bolívia. Na Ásia, a primeira fundação no Paquistão foi seguida de outras, mais recentes, em Taiwan e nas Filipinas.