Este verão começou quente. E, quando o clima subtropical de Roma começou a dar ares da sua desgraça, decidi responder a um pequeno desejo que me acompanha há quase 25 anos. Na minha viagem para Taiwan, alguns meses depois da minha ordenação sacerdotal, fui folheando uma biografia ainda não publicada de José Freinademetz – que o papa João Paulo II havia de canonizar mais tarde naquele mesmo ano – chamada “O tirolês que amou os chineses”. E, mesmo antes de chegar até aos chineses amados pelo tirolês, fui ganhando vontade de conhecer a terra do tirolês que amou os chineses. E, nos finais de junho, meti a mochila às costas e rumei até aos Alpes Dolomíticos, no extremo norte do território que é hoje a Itália.
Na primeira paragem para trocar de comboio, em Boszano, capital da província, percebi que a língua dominante era o alemão, recordando-nos que, até ao final da primeira guerra mundial, aquele território estava sob domínio austríaco. No interior da catedral da cidade, chamou-me particularmente a atenção uma pintura do Sagrado Coração de Jesus. Voltaria a encontrar reproduções dessa pintura espalhadas um pouco por todo o lado, nas paragens do autocarro, recordando-nos que estávamos no mês do Sagrado Coração de Jesus. Foi ficando clara uma das devoções marcantes da região, já desde o tempo de José Freinademetz.
Depois de algumas mudanças de comboio e autocarro, lá cheguei à casa natal de José, em Oies, no coração das montanhas, onde fui acolhido pela simpática comunidade de missionários verbitas. Os cumes das montanhas mais altas ainda estavam cobertos de neve. No topo da colina onde se encontra a casa de José, encontrei um outro santuário: a Igreja da Santa Cruz. Percebi que é uma outra devoção forte na região, a par do Coração de Jesus. As duas, na verdade, estão intimamente ligadas. Naturalmente, decidi peregrinar até lá. Apesar de haver um teleférico daqueles que levam os praticantes de esqui até lá cima, a peregrinação foi feita a pé, durante umas boas horas. Imagino que o José também o tenha feito muitas vezes. Lá em cima, o horizonte tornou-se ainda mais largo e belo. “Façamos aqui três tendas!” – diria qualquer pessoa de bom senso, desejando perpetuar o momento. Mas José decidiu desmontar a tenda e pôr-se a caminho para a China. E não mais voltou. Para ser missionário não basta bom senso… é preciso ter uma espécie de sexto sentido, sobrenatural, que nos permite olhar a vida e o mundo de uma forma mais larga. E esse sentido cultiva-se mesmo ali, junto da Santa Cruz, junto do Coração de Jesus escancarado.
No final da Eucaristia, celebrada na casa-natal de São José Freinaddmetz, não resisti a registar, com a ajuda de uma jovem da comunidade local, a oração do Pai-Nosso em Ladino, a língua materna de José, e em Mandarim, a língua que do povo para onde foi enviado.
Ali ao lado, uma placa com uma citação de Ujöp Freinademetz, recordava-nos uma verdade mais profunda que estas “chinesises”: “Le lingaz dl amur é le su lingaz che düc capësc” (Mesmo em ladino, dá para perceber o seu sentido: A linguagem do amor é a única língua que todos compreendem).
No regresso a casa, ainda deu para uma breve paragem para visitar Verona. Famosa pela escolha de William Shakespeare para palco do seu famoso romance trágico “Romeu e Julieta”. Mas, para além dos corações destes dois jovens que povoam o imaginário literário, descobri outros corações a palpitar de um amor sem fronteiras. Em Verona, visitei a Casa Mãe dos Missionários Combonianos, palmilhando também os passos do Daniel Comboni, também canonizado naquele mesmo ano, juntamente com José Freinademetz e Arnaldo Janssen. É outra história e outras latitudes. Mas a fonte é a mesma.
Victor Silva















