Rio Tejo, em Santarém, cidade onde os Espiritanos iniciaram a sua presença em Portugal, em 1867.

A nossa presença em Portugal

O apelo de África

O contexto internacional facilitou a aventura missionária europeia nos continentes africano, asiático e americano na segunda metade do século XIX: as explorações geográficas pelo interior dos continentes; a expansão colonial na sequência da Conferência de Berlim de 1885; o progresso tecnológico e o desenvolvimento dos meios de transporte, especialmente marítimo; a abertura de alguns países asiáticos à Europa; a abolição da escravatura. A estes fatores, acrescente-se a maior consciência missionária da Igreja, a que a Congregação da Propaganda Fide e os Papas da época dão voz (Cf Adélio Torres Neiva,o.c., pp 16-17). É neste movimento missionário norte-sul que caracterizou a Igreja da Europa do século XIX que se insere a participação dos Espiritanos após a fusão das duas Congregações. E é nesse contexto que os espiritanos chegam a Portugal.

Em 1865 a Sagrada Congregação da Propaganda confiou aos espiritanos, que já estavam no Senegal e Gabão, a Missão do Congo que incluía parte do território de Angola. Estes enviaram logo no ano seguinte um primeiro grupo de três missionários que aportaram a Angola, em Ambriz, a 14 de março. Nesse mesmo ano de 1866 outro espiritano, o padre Duparquet, chegou a Moçâmedes, seguindo orientações do Bispo de Angola e Congo. A primeira missão construída pelos espiritanos em território angolano foi erigida em Lândana, Cabinda, tendo a respetiva equipa missionária, formada pelos padres Duparquet e Carrie e o Irmão Fortunato Engel aí chegado em 1873.

Estes primeiros missionários enviados para o território de Angola depressa perceberam que seria difícil evangelizar sem um entendimento com as autoridades portuguesas. De facto, tanto o governo como o parlamento de Portugal não viam com bons olhos a presença de missionários estrangeiros naquele território. Assim, o Conselho Geral da Congregação do Espírito Santo decidiu em 31 de agosto de 1867 criar uma comunidade em Portugal para formar missionários a enviar para Angola. O local escolhido foi a cidade de Santarém, por aí estar o seminário patriarcal onde os futuros missionários seriam formados. A primeira comunidade abriu as portas a 3 de novembro de 1867, numa modesta casa na rua de S. Lázaro, e era constituída pelos padres Charles Duparquet e António Carrie e os estudantes Alexandre Ruilhe e Dissan. Eram todos franceses. No ano seguinte o padre Duparquet regressou a Angola e foi substituído pelo padre José Eigenmann, suíço, que seria o grande dinamizador da instauração dos espiritanos em Portugal. Embora estas datas marquem o nascimento da Congregação no nosso país, sabemos que já antes o padre Libermann acalentara o sonho de aqui estabelecer a Congregação para evangelizar a então África portuguesa. A evangelização do continente africano era o grande sonho e foi a grande obra do padre Francisco Libermann. “O meu coração é dos africanos”, chegou a escrever.

A Casa Mãe em Portugal

A presença em Santarém foi breve, apenas três anos. A comunidade mudou-se para Gibraltar, onde apenas ficou um ano, e estabeleceu-se em 1872 em Braga, no Colégio de S. Geraldo. Este colégio admitia duas categorias de alunos: os externos, alunos mais velhos que frequentavam as aulas no Liceu ou no Seminário, e os internos, que frequentavam aulas em casa para se prepararem para os exames de instrução primária. Pouco depois mudou o nome para Colégio do Espírito Santo, com 12 alunos. A fama do colégio cresceu rapidamente, e em 1875 “os alunos eram já 127 o que era um número recorde para os colégios de Portugal. Foi preciso adaptar salas e encontrar espaços para esta população sempre crescente. Para este sucesso contribuíram vários fatores: a fama que o colégio adquiriu com o bom resultado dos exames, a disciplina, o bom espírito que aí reinava a piedade que o caracterizava e, como fruto de tudo isso, a alegria notável dos alunos e afeição que tinham ao colégio” (P. Adélio Torres Neiva, o.c., p. 64). Este sucesso é ainda mais notável dado o ambiente anti-eclesial de parte da população e imprensa da época. O colégio ocuparia ainda outras instalações até se fixar definitivamente em 1878 num edifício construído de raiz na “Quinta S. Vicente”, freguesia de S. Victor. O novo colégio foi crescendo nos anos seguintes, acompanhando a procura de alunos. As novas instalações começaram por acolher 80 alunos e no último ano, 1909-1910, tinha 365, e aí trabalhavam 20 padres e 16 irmãos espiritanos.

Apesar de o início da Congregação em Portugal ter ocorrido em Santarém, o Colégio do Espírito Santo, em Braga, é considerado a Casa Mãe dos espiritanos portugueses. É a partir daqui que vão nascer em Sintra a Escola Agrícola para formação de Irmãos Auxiliares para as missões (1887) e o Seminário de Filosofia e Teologia (1890), que seria mais tarde transferido para Carnide (1908); em Ermesinde o Seminário da Formiga (1894); em Lisboa a Procuradoria das Missões (1892) que depois de passar por várias instalações se estabeleceu definitivamente na Rua de Santo Amaro (1905), próxima da basílica da Estrela, onde ainda hoje se encontra; o Instituto Fisher nos Açores (1892-1907); o Colégio Santa Maria, no Porto (1886-1910); e a comunidade que prestava assistência religiosa ao Asilo de Campo Maior, no Alentejo (1894-1907).

Em 1910, com a implantação do regime republicano em Portugal e sequente perseguição religiosa, as casas espiritanas de formação foram encerradas, os colégios de Braga e do Porto confiscados, os espiritanos estrangeiros expulsos e a maior parte dos portugueses exilados para França e Bélgica, para onde seguiram também alguns seminaristas já avançados na sua formação. Nas instalações do Colégio do Espírito Santo em Braga foi instalado pelo Estado o Liceu Nacional Sá de Miranda.

Recomeçar após a implantação da República

Uma nova fase dos espiritanos em Portugal tem início em 1919. O ambiente político e legal tornara-se mais favorável e o Conselho Geral da Congregação enviou para Portugal o padre Moisés Alves de Pinho, que estava exilado em França. A sua missão era estabelecer de novo a Congregação em Portugal, devendo começar por abrir comunidades aonde regressassem os espiritanos que com a revolução se tinham dispersado pelas paróquias e pelas suas famílias, e ainda os que estavam nas casas da Congregação no estrangeiro. Já não se abrem colégios, mas apenas casas de formação de futuros missionários, padres e irmãos. Logo em 1919 abriu uma comunidade em Braga, na Quinta do Charqueiro, que depois de passar por vários locais se instalou em 1927 na quinta do Fraião, onde será instalada uma obra de formação dos Irmãos. Em 1921 uma outra comunidade foi aberta em Godim, Régua, como seminário Maior, para aí acolher os seminaristas portugueses que estavam nas casas da Congregação em França. Este seminário seria transferido para Viana do Castelo em 1922. Em 1927 inaugura-se um novo seminário em Godim, que acolhe os primeiros anos dos estudos liceais. Um ano depois é fundada uma comunidade no Porto, na Rua Nova do Regado, destinada a acolher vocações tardias. Em 1930 foram ordenados em Viana do Castelo os primeiros sacerdotes desta nova fase da Congregação em Portugal. Na Guarda-Gare foi inaugurado em 1932 um seminário para os dois primeiros anos do liceu que funcionou até 1941. Em 1934 surgia no Fraião o Noviciado. “Bastou, portanto, pouco mais de meia dúzia de anos, para a Província não só se organizar, como atingir um desenvolvimento superior ao que jamais tivera”. (P. Adélio Torres Neiva, o.c., p. 263).

Nos anos seguintes continuou o trabalho de edificação e ampliação de estruturas, sobretudo vocacionadas para formação de missionários. Na quinta do Fraião vai ser construído, em diversas etapas, o novo seminário que até 1992 recebeu diversas fases de formação de missionários, quer de padres quer de Irmãos. Em 1948 é comprada a Quinta da Torre da Aguilha, em Carcavelos, que passa a acolher os estudantes de Teologia a partir de 1952, vindos do seminário de Viana do Castelo. Em Viana passaram a funcionar os dois primeiros anos do liceu, a partir de 1956 e até 1984. O novo e imponente edifício da Torre da Aguilha foi inaugurado em 1957. Em 1962 foi inaugurado o novo edifício do Seminário da Silva que acolheu o noviciado e a partir de 1973 também o 3º ciclo do ensino secundário (10º-12º anos). Em Lisboa, a casa da Procuradoria foi progressivamente ampliada e melhorada para acolher também os serviços de administração central, animação missionária e da imprensa missionária. Mais recentemente, também o Centro Padre Alves Correia (CEPAC).

Após a instauração da República a Província Portuguesa foi dirigida pelos seguintes Superiores Provinciais: P. Moisés Alves de Pinho (1919-1932); P. Clemente Pereira da Silva (1932-1943); P. José Pereira de Oliveira (1943-1949); P. Agostinho Lopes de Moura (1949-1953); P. Olavo Teixeira Martins (1953-1959); P. Firmino Cardoso Pinto (1959-1965); P. Amadeu Martins (1965-70); P. José Gonçalves de Araújo (1970-1976); P. Casimiro Pinto de Oliveira (1976-1982); P. Manuel Durães Barbosa (1982-1988); P. José Castro de Oliveira (1988-1994); P. Eduardo Miranda Ferreira (1884-2003); P. José Manuel Sabença (2003-2012); P. António M. Santos de Sousa Neves (2012-).

Ide pelo mundo inteiro, proclamai o evangelho a toda a criatura

Marcos 16, 15

A aventura da missão

Angola

Como referido atrás, as diferentes obras e estruturas erguidas em Portugal tinham um objetivo claro: formar missionários, padres e irmãos, e enviá-los para a missão evangelizadora fora do país.

Angola será, durante várias décadas, a prioridade da Província Portuguesa, embora o fosse também de toda a Congregação. O padre Torres Neiva, na obra já citada, escreve em 2004 que “dos 1028 missionários espiritanos que passaram por Angola, 502 eram portugueses”. O padre José Maria Antunes elaborou em 1894 um plano de evangelização de Angola, que partindo das quatro missões já existentes à data (Lândana, Malanje, Caconda e Huila) previa erigir progressivamente novas missões para o interior do território, numa distância máxima de 20 léguas umas das outras. Esse plano será parcialmente posto em prática, a tal ponto que nos primeiros cem anos de presença em Angola os espiritanos fundaram 88 missões. Em 1966, trabalhavam aí 202 padres e 50 Irmãos.

A evangelização de Angola foi sem dúvida a grande obra missionária da Província Portuguesa nestes 150 anos de existência. Para aí partiram a maior parte dos missionários, aí se investiu mais pessoal e recursos, aí se formou mais clero local, se ergueram as maiores estruturas, e aí ficaram também mais mártires. A atividade missionária consistia na evangelização das populações, mas também num notável trabalho no campo educativo, sanitário e científico. São construídas as grandes estruturas religiosas, como igrejas, seminários e residências, que servirão também como base das futuras dioceses e paróquias à medida que vão sendo criadas. Mas também hospitais, escolas, internatos, oficinas. Outras obras emblemáticas para a Igreja em Angola são também iniciativa de espiritanos: o jornal “O Apostolado” fundado em 1935, a rádio Ecclesia que iniciou as suas emissões em 1954, a Casa dos Rapazes de Luanda em 1942 e a Casa dos Rapazes de Nova Lisboa em 1955. Ao mesmo tempo, foi realizado um considerável trabalho no campo científico, especialmente linguístico e etnográfico, de que falaremos adiante.

Em 1977, dois anos após a independência, foi criada a Província Espiritana de Angola. Muitos espiritanos tinham deixado Angola, obras e missões tinham sido confiscadas pelo governo, a ideologia marxista é difundida. Portanto, o contexto político e social é outro, mas a missão espiritana continua. É sobretudo em contexto de guerra civil que os espiritanos são agora chamados a dar testemunho da sua fé e solidariedade ao povo que os acolhe. A insegurança, o abandono e destruição de estruturas, a incerteza quanto ao futuro, a emergência humanitária e sanitária, farão parte da sua missão. Talvez das mais belas páginas da missionação em Angola foram escritas nestes novos contextos por espiritanos portugueses, angolanos, franceses, holandeses, irlandeses. Hoje, a Província Espiritana de Angola de forma sólida assume a sua missão evangelizadora no país e forma novos missionários que envia para outros países. 

Em Angola trabalham atualmente o Irmão Acácio (Luanda) e os padres Agostinho Loureiro (Chinguar), Joaquim Ferreira (Golungo Alto), Américo Alves (Lukapa), Manuel Viana Kalandula) e o jovem professo em estágio João Paulo Freitas (Kalandula).

Cabo Verde

Se Angola foi o destino do número mais significativo de espiritanos nestes 150 anos, Cabo Verde vem logo a seguir. O início da presença espiritana naquele arquipélago é de 1941, quando foi nomeado bispo o espiritano D. Faustino Moreira dos Santos, que estava há muitos anos a trabalhar em Angola. Faz-se acompanhar para Cabo Verde de três padres espiritanos: José Neiva Araújo, Lúcio dos Anjos e Lindorfo Quintas. O bispo e o padre José Neiva Araújo, seu secretário, ficam na ilha de S. Nicolau, sede do bispado, enquanto os outros dois seguem para a llha de Santiago onde assumem seis paróquias: S.Nicolau Tolentino (S.Domingos), S.Salvador do Mundo (Picos), S. Lourenço dos Orgãos, Sto Amaro Abade (Tarrafal), S. João Baptista (Cidade Velha) e Nossa Senhora da Luz (Milho Branco). No ano seguinte chega a esta ilha um segundo grupo, formado pelos padres Henrique Alves e Frederico Duff. Em 1943 os espiritanos adquirem uma residência na cidade da Praia, que será o centro coordenador da atividade dos espiritanos, assumem a paróquia de Nossa Senhora da Graça e a da Ilha do Maio. Nesse mesmo ano o bispo transfere a sede do bispado da Ribeira Brava, na ilha de S. Nicolau, para a cidade da Praia. Oficialmente, o Distrito Espiritano de Cabo Verde foi criado em 17 de Setembro de 1946. Em 1950 os espiritanos eram já os responsáveis de todas as 11 paróquias da Ilha de Santiago e da Ilha do Maio. Nos anos seguintes novos missionários chegarão: espiritanos de Portugal e da Suíça, mas também Salesianos, Capuchinhos e padres diocesanos, incluindo padres goeses, bem como Irmãs do Espírito Santo e Irmãs do Amor de Deus, o que permitiu prestar assistência religiosa a todas as Ilhas. Em 1962 foi ordenado o primeiro sacerdote espiritano cabo-verdiano, o padre Paulino Évora, que depois de alguns anos a trabalhar em Angola será nomeado Bispo de Cabo Verde em 1975. Os espiritanos assumiram também as paróquias da Ilha da Boavista entre 1975 e 1989, e a da Ilha de Santo Antão entre 2001 e 2004. Desde o início que os missionários estiveram ao serviço da Igreja Local, assumindo paróquias, a formação de leigos, mas também a educação e a atenção do despertar e acompanhamento vocacional. Hoje, vários espiritanos naturais de Cabo Verde são missionários noutros países, incluindo Portugal.

Em Cabo Verde trabalham os seguintes espiritanos portugueses: P. José Fagundes Pires, P. Custódio Campos, P. Alberto Meireles, P. Raul Lima, P. Carlos Gouveia e P. Gil Losa.

Espanha

Logo desde o início da presença da Congregação em Portugal estabeleceram-se contactos com Espanha, chegando aí a funcionar um pequeno seminário entre 1913 e 1920. Mas foi em 1950 que foi confiada aos espiritanos portugueses a missão de fundarem a Congregação em Espanha. Logo no ano seguinte foi inaugurada a primeira comunidade em Madrid, com três espiritanos (Padres Isalino Alves e Teixeira Maio e o Irmão Trindade), que começaram a divulgar a Congregação. Com a chegada do padre José Maria Felgueiras, dois anos depois, inicia-se o trabalho vocacional e de animação missionária que permitem a abertura de um seminário menor espiritano em 1955, em Paredes de Nava (Palência). Nos anos seguintes, é forte o investimento da Província Portuguesa em Espanha, enviando dezenas de confrades e abrindo novas comunidades e casas de formação. O primeiro espiritano de Espanha é o Irmão Xavier que professa em 1956, e três anos depois é ordenado o primeiro sacerdote, Buenaventura Mur. A Província de Espanha foi criada em 1969, separando-se da de Portugal, tendo como primeiro Superior Provincial o padre Joaquim Ramos Seixas.

Brasil

Os primeiros espiritanos portugueses que foram para o Brasil chegaram a Tefé, na Amazónia, em 1910. Eram dois Irmãos, Dionísio de Carvalho e Agostinho Caetano, que faziam parte do grupo que acompanhou o recém-nomeado Prefeito Apostólico de Tefé, Monsenhor Barrat. No ano seguinte chega outro Irmão, Boaventura Azevedo, e em 1918 o padre Manuel Dias da Silva. Todos integrados no grupo de espiritanos franceses que na época assumiam a evangelização daquela região amazónica.

Só em 1975 é que outro grupo de portugueses chega ao Brasil, desta vez ao Estado do Rio de Janeiro. A presença de espiritanos no Brasil, nessa data, já era numerosa (os espiritanos chegaram a Belém do Pará em 1886), e em diferentes regiões do país. Estruturada em 5 Distritos Espiritanos, essa presença compreendia sobretudo missionários irlandeses, holandeses, alemães e brasileiros. Em 1976 havia cerca de 200 espiritanos em todo o Brasil. Por esta altura, alguns espiritanos portugueses saídos de Angola por ocasião da independência do país vão trabalhar nas Dioceses de Jales (Estado de S. Paulo) e Nova Iguaçu (Estado do Rio de Janeiro). Em 1979 é oficialmente criado o Distrito Espiritano do Brasil Sudeste, composto por portugueses, que se manterá até 2002, data em que é extinto e os seus membros integrados na entretanto criada Província Espiritana do Brasil. O primeiro Superior deste grupo foi o padre Francisco Fernandes Correia, a quem se deve a coordenação e criação de estruturas que permitiram esta aventura missionária dos espiritanos portugueses naquela região do Brasil. Além de várias paróquias nas dioceses de Nova Iguaçu, Itaguaí, Rio de Janeiro, Niterói, Jales, Bragança Paulista, S. José do Rio Preto e Baurú, este Grupo espiritano assumiu várias obras de caráter social e várias capelanias hospitalares.

Foi ainda a partir deste Grupo que se deu início à segunda fase da presença de espiritanos portugueses na Amazónia. Em 1986 chegou a Tefé o padre Domingos da Rocha Ferreira, em 1987 o padre António Farias, e essa presença foi continuada nos anos seguintes com o envio de missionários a partir de Portugal, mantendo-se até hoje. Aí estão os Padres Firmino Cachada, José Gaspar, Domingos Ferreira e António Farias. Inseridos na Província do Brasil estão atualmente os espiritanos portugueses Padres Victor Ferros, Manuel da Silva Martins, João Serra, Laurindo Marques e Luís de Oliveira Martins.

Guiné-Bissau

A Congregação assumiu a responsabilidade de evangelizar o povo Manjaco, no interior da Guiné-Bissau, em 1978. A primeira comunidade foi formada por dois padres franceses e um português, o padre José Costa, que aí chegou no início de 1980, e ainda um jovem voluntário. Instalaram-se em Bajob, a 150 quilómetros da capital Bissau. O contexto era de primeira evangelização, com tudo por fazer: aprender a língua, estudar a cultura, construir capelas, elaborar catecismos. Dois anos depois o P. José Costa é chamado para trabalhar em Portugal, mas regressa à Guiné-Bissau em 1986, acompanhado pelo padre João David. Os dois vão iniciar uma nova missão em território manjaco, Caió, que nos anos seguintes terá pessoal missionário assegurado pela Província portuguesa que para aí envia diversos confrades. Também os Jovens sem Fronteiras vão estabelecer uma colaboração regular com esta missão, em que se incluiu a construção de uma escola, em 1988. Em 1990, os espiritanos portugueses assumiram também a paróquia de Nossa Senhora da Ajuda, em Bissau. Atualmente não há espiritanos portugueses na Guiné Bissau, mas foi das experiências mais ilustrativas e inspiradoras do carisma espiritano.

Moçambique

A decisão da Congregação de responder ao apelo de alguns bispos de Moçambique é de 1995. Em 1996 são enviadas duas equipas internacionais, que vão assumir a missão de Inhazóia (diocese de Chimoio) e de Netia (diocese de Nacala). Em cada uma há um espiritano português (padres Domingos Vitorino e Pedro Fernandes, respetivamente). A Província portuguesa ficará ligada particularmente à missão de Netia, numa primeira fase, para onde são enviados ao longo dos anos diversos padres e estagiários.

Em 2004, em acordo com o bispo, estando esta missão já bem estruturada e com comunidades devidamente organizadas, foi entregue ao clero diocesano e os espiritanos mudaram-se para uma nova missão, que entretanto tinham construído, em Itoculo. Esta era uma região onde nunca existira qualquer missão, com muitas comunidades em início de evangelização, com poucas estruturas na área da saúde e educação, e portanto mais dentro do carisma espiritano. A partir desta missão de Itoculo dá-se uma colaboração regular com a família espiritana em Portugal: é construída uma residência para acolher missionários leigos, uma escola e uma biblioteca, com a ajuda dos Jovens sem Fronteiras, Solsef e Liam. Essa missão tem acolhido estagiários, voluntários e Pontes missionárias de Jovens Sem Fronteiras. É uma das missões mais testemunhantes da missão espiritana: vida comunitária, inserção na igreja local, formação de lideranças e partilha da missão e espiritualidade com os leigos. Na Missão de Itoculo está o padre Raul Viana.

Outras geografias

Se os países indicados atrás são particularmente significativos para a história dos espiritanos portugueses, eles não esgotam a geografia da missão a partir de Portugal.

Na América Latina, dois espiritanos são enviados para o Paraguai em 1976 integrados em duas equipas internacionais: os padres João Souto e Albino Vitor Martins de Oliveira. Este foi colocado em Choré, diocese de Lima, numa região rural de campesinos e pequenas comunidades, onde permaneceu cerca de 25 anos. Continua no Paraguai, mas agora em Assunção. Também no Paraguai está o padre José Costa, como mestre de Noviços da Região da América Latina.

No México está atualmente o padre João David desde 2011, mas a presença de espiritanos portugueses remonta a 1995, quando o padre António Laranjeira, então a trabalhar no Brasil, foi para lá, para a formação dos estudantes de Filosofia e Teologia onde permaneceu 3 anos. Em 2003 foi nomeado o padre Tiago Barbosa, que aí trabalhou até 2014. Em Porto Rico também esteve o padre António Laranjeira, como Mestre de Noviços entre 1982 e 1988. Na Bolívia está a trabalhar o padre Márcio Asseiro desde 2013.

Na África do Sul trabalhou o padre Alberto dos Anjos Coelho entre 1983 e 1995, integrado numa equipa internacional. Trabalhou em Bethlehem no acompanhamento dos emigrantes portugueses, depois no Lesotho e por fim na formação espiritana. Em 1992 foi enviado o padre José Manuel Sabença que aí permaneceu até 1997. Dedicou-se sobretudo à pastoral nos bairros pobres periféricos de Durban, habitados por trabalhadores vindos do interior para a cidade, embora continuando a acompanhar a comunidade portuguesa e assumindo também o ministério paroquial.

Em S. Tomé e Príncipe existiu uma pequena comunidade a partir de 1985, quando foi nomeado Bispo do país o espiritano D. Abílio Ribas, então a trabalhar em Angola. Atualmente não há qualquer presença espiritana na ilha. Na Guiné Conakry trabalhou o Irmão Carmo Gomes entre 2000 e 2006.

A presença de espiritanos portugueses na Ásia limitou-se a Taiwan, para onde foi enviado o padre Victor Silva em 2003, integrado no Grupo Internacional das Filipinas-Taiwan. Regressou a Portugal em 2014.

A contribuição científica dos missionários

Vários espiritanos se dedicaram ao ministério junto dos imigrantes de expressão portuguesa. Para além do caso da África do Sul, já referido, os Estados Unidos da América têm uma longa tradição de presença espiritana portuguesa. O primeiro foi o padre Manuel Joaquim Barros, em 1910, que depois se incardinou na diocese de Providence. Mas foi sobretudo a partir de 1977 que de forma estável e continuada os espiritanos portugueses asseguraram o ministério pastoral junto das comunidades cabo-verdiana e portuguesa, com os padres José Maria de Sousa, António Figueira Pinto, Arlindo Amaro e Joaquim Pereira Francisco. Nos últimos anos apenas a Paróquia do Imaculado Coração de Maria, em Central Falls, diocese de Providence, era assegurada pelo padre Arlindo Amaro, que regressou a Portugal em 2016, passando essa paróquia para os cuidados dos espiritanos de Cabo Verde. Foi também em 1977 que se iniciou o trabalho junto de comunidades portuguesas no Canadá: primeiro na diocese de Toronto, depois também em Hamilton. Também na Alemanha trabalharam vários espiritanos junto dos emigrantes portugueses a partir de 1971.

A contribuição científica dos missionários

Muitos espiritanos aliaram a sua missão evangelizadora à investigação científica, especialmente na área da linguística e da etnografia. Foi sobretudo em Angola que esse trabalho foi feito, apesar de encontrarmos noutras regiões alguns exemplos igualmente dignos de nota.

Linguística. “São cerca de 110 os livros relacionados com a linguística, publicados pelos missionários espiritanos em Angola: gramáticas, dicionários e vocabulários, métodos linguísticos e manuais de conversação, livros de leitura, educação cívica e moral, livros escolares, catecismos, manuais de oração e cantos, evangelhos, e histórias sagradas, etc. Destes livros, cerca de dois terços são escolares, os restantes são de caráter religioso. As línguas mais estudadas são: fiote, quioco, quicongo, quimbundo, mbundo, ganguela, cwanhama, cuangar, diírico e muíla. Entre os nomes mais representativos sobressaem os PP. Dekindt, Bonnefoux, Lang, Lecomte, Wieder, José Sutter, Le Guennec, Mons. Luís Keilling, Albino Alves Manso, António Silva, Francisco Valente, Carlos Estermann. De entre todos merecem ser destacados o P. Albino Alves Manso, com o seu “Dicionário Etimológico Bundo-Português”; o “Dicionário Português-Nhaneca” do P. António Silva e a “Gramática Mbundu” do P. Francisco Valente”. (P. Adélio Torres Neiva, o.c., p. 763). 

Etnografia. O nome maior é o do P. Carlos Estermann, que publicou em 3 volumes “Etnografia do sudoeste de Angola”, além de outras obras como “Album de Penteados do Sudoeste de Angola”, “Cinquenta contos bantos do sudoeste de Angola”, etc. Ainda em Angola, destaque para as obras do P. Francisco Valente, José Martins Vaz e Joaquim Martins.

Botânica. O P. José Maria Antunes fez um trabalho notável no campo da Botânica no distrito da Huila. As suas coleções foram depositadas e estudadas no herbário de Coimbra, Museu Britânico, Museu da História Natural de Paris. Foi sócio de Número da Sociedade de Geografia de Lisboa. Em sua homenagem foi dado o seu nome a várias plantas por ele recolhidas, como Pterocarpus Antunessi, Acacia Antunessi e Albizzia Antunesiana. Os padres Duparquet, Bonnefoux e Eugénio Dekindt são igualmente referência no campo científico da botânica do sul de Angola.

História. Há dezenas de obras publicadas por espiritanos no âmbito da História. Alguns nomes, porém, merecem destaque pela metodologia e rigor científico da sua investigação. O padre António Brásio, membro da Academia Portuguesa de História, deixou mais de 500 artigos publicados e uma dezena de obras. Realce para a “Monumenta Missionária Africana”, em duas séries: a primeira com 15 volumes recolhendo documentos de 1570 a 1965; a segunda série com 7 volumes recolhendo documentos de 1342 a 1499. A obra “Spiritana Monumenta Histórica” é composta por 5 volumes reunindo documentos relativos à Congregação do Espírito Santo, sobretudo dos séculos XIX e XX.

O padre Adélio Torres Neiva, formado em história pela Universidade de Coimbra e membro honorário da Academia Portuguesa de História, deixou igualmente uma obra notável, no campo da espiritualidade e da história. Nesta área, destaque para a “História da Província Portuguesa (1867-2004)”.

Os padres Afonso da Cunha Duarte e o seu irmão José da Cunha Duarte têm publicada uma vasta obra de investigação sobre a história e a identidade cultural do Algarve, bem como sobre a história e tradições do cristianismo naquela diocese. Os dois trabalham em S. Brás de Alportel desde a década de 80.

Os mártires

Ao longo destes 150 anos muitos missionários deram a sua vida pela causa do Evangelho. Mortes provocadas por catástrofes naturais, acidentes, doenças desconhecidas, dificuldades de adaptação ao clima, ataques de animais, guerras, hostilidade política. Noutros casos, expulsões, calúnias e incompreensões. É uma lista longa e difícil de fazer, aquela que testemunha o gastar-se ao serviço do Evangelho. Angola é naturalmente o território onde mais espiritanos portugueses entregaram a sua vida pelo Reino, como se pode verificar visitando os cemitérios das Missões de Lândana, Malanje ou Huíla. 

Vamos recordar brevemente os missionários espiritanos que foram assassinados no cumprimento da sua missão em Angola.

O Irmão Lúcio Rothan e o Padre Isidoro Delpuech foram mortos no dia 6 de junho de 1885 na Missão dos Kuanhamas de S. Miguel de Cauva. A morte dos dois jovens missionários (o Irmão Lúcio tinha 22 anos e o Padre Isidoro 30) pôs fim à primeira tentativa de evangelização em terras kuanhamas. O terceiro elemento da equipa, o Irmão Geraldo, conseguiu sobreviver. Aludindo a esta missão mártir, Monsenhor Keilling escreveu que “o presépio confundiu-se com o calvário.” O calvário vai continuar em Matadiva, onde o Irmão Dionísio Duaret foi assassinado com um tiro em 2 de dezembro de 1903. A evangelização daquela região do sul de Angola recomeçará mais tarde com a fundação da Missão da Omupanda. 

Em 6 de maio de 1892 o Irmão Ângelo Alves (19 anos) e o Irmão Carlos Podão (29 anos) saem de Benguela aproveitando a viagem de um carro bóer e dirigem-se para Caconda. Durante a viagem o irmão Carlos, com febre, afasta-se do carro para procurar água e não foi mais encontrado. Supõe-se que tenha sido morto por alguma fera. O irmão Carlos chegou à missão de Caconda, mas pouco tempo depois, a 4 de agosto, foi morto por um leão nas imediações da missão.

Depois da independência de Angola, no contexto da guerra civil, instabilidade militar e deslocação massiva de populações, o risco de vida passou a fazer parte do quotidiano da maior parte dos missionários que aí permaneceram. 

O Padre Martinho Thjissen e o Irmão Afonso Rodrigues foram assassinados por um militar no dia 16 de março de 1976 na Missão de Caconda. O terceiro elemento da comunidade, o padre Marques de Sousa, que também estava presente e testemunhou o ataque, sobreviveu.

O Padre Adélio Ribeiro Lopes foi raptado na Missão da Bela Vista a 13 de julho de 1976. O contexto era de guerra civil, com a guerrilha muito ativa na região e muita insegurança. O padre Adélio decide permanecer na Missão, para não abandonar o povo. Não se sabe o lugar e data exata da sua morte, mas supõe-se que tenha sido morto no mês de agosto desse mesmo ano. Tinha 46 anos. 

O espiritano francês Padre Jean Etienne Wosniak foi morto num ataque da guerrilha em 26 de maio de 1985 quando se deslocava para a missão de kwabaNzoji e o espiritano holandês Padre Nicolau Lighart foi morto em 24 de fevereiro de1987.

Na missão do Munhino foi assassinado o Padre José da Silva Pereira na noite de 5 para 6 de abril de 1978. O seu corpo foi encontrado sem vida na manhã seguinte. O Missionário tinha 71 anos e estava em Angola há 44 anos.

Em Luanda, o Padre Abílio da Fonseca Guerra, que era pároco do Prenda, foi raptado na tarde do dia 24 de abril de 1992, quando se preparava para entrar na residência dos espiritanos. O seu corpo assassinado foi encontrado no dia seguinte abandonado numa estrada nos arredores da cidade. Dois meses antes tinha sofrido uma tentativa de assalto quando se encontrava na igreja. Tinha 70 anos, 47 dos quais de missão em Angola. A sua vida missionária foi pautada pela dedicação total ao Evangelho e a defesa dos mais fracos.

O Padre José Afonso Moreira foi assassinado com uma rajada de metralhadora na sua missão do Bailundo, em Angola, na noite do dia 08 de fevereiro de 2006. Tinha 80 anos e estava na missão do Bailundo desde 1963. Aí viveu as diferentes guerras de Angola: a guerra entre o exército português e os Movimentos de Libertação, e depois da independência as diversas fases da guerra civil. A sua missão situava-se numa área particularmente sensível no conflito da guerra civil, mas o padre Moreira nunca abandonou o seu povo, suportando longos períodos de isolamento e privações. Acolheu milhares de refugiados ao longo dos anos, e procurou manter sempre a funcionar a escola e posto médico da missão. Um antigo militar, que por diversas vezes ameaçara o padre Moreira, foi acusado do crime e condenado a 20 anos de prisão.

Hoje os Missionários espiritanos em Portugal continuam a missão a que foram chamados, fazendo memória de gratidão pelo testemunho dos que nos precederam e olhando com fé e confiança para o futuro. Como estabelece a Regra de Vida Espiritana, “participamos, em Igreja, na missão de Cristo, proclamando a salvação que é dom de Deus, libertação de tudo quanto oprime o homem, alegria de conhecer o Senhor e de ser por Ele conhecido em comunhão com Ele e com todos os homens” (nº 11)