Sob a proteção do Coração Imaculado de Maria

Vivemos   também   sob   a  protecção  do  Coração Imaculado de  Maria, repleto por este  mesmo  Espírito «da plenitude da santidade e do apostolado» 

Regra de Vida Espiritana, 6

 

 

Nossa Senhora das Vitórias

“Virgem Mãe,
aceitai a oferta que vos faço de mim!
Dai-me ao Espírito Santo.
Quero consagrar-me inteiramente a Ele
e ao vosso Coração.
Dou-vos a minha alma
para que ela vos pertença
como uma criança pertence à sua mãe.
Desejo amar-vos toda a minha vida
com um amor terno e filial.
Abro o meu coração
e abandono-me ao divino Espírito,
para que Ele o encha, o possua e nele aja
como soberano Mestre e Senhor!”.

Francisco Libermann

O Coração de Maria e as origens dos Espiritanos

A Sociedade do sagrado Coração de Maria nasceu à sombra da Arquiconfraria de Nossa Senhora das Vitórias, de Paris,  fundada pelo P. Desgenettes, grande amigo de Libermann.  A 9 de Fevereiro de 1844, quatro anos após a fundação do primeiro noviciado, em La Neuville, Libermann escreve  a Desgenettes, a seu pedido uma carta em que lhe conta os primeiros passos desta Congregação e o papel que o Coração de Maria e a Arquiconfraria de Nossa Senhora das Vitórias tiveram nesta fundação É um dos testemunhos mais impressionantes saidos da pena de Libermann.

La Neuville de Fevereiro de 1884

Querido amigo e venerável Padre

Logo que o sr. B...me fez conhecer que Você estava interessado em um informações sobre a Obra dos Negros, lancei mãos à obra, mas vi-me obrigado a interrompê-la várias vezes, pelo que não o pude fazer tão depressa como desejava.

Vou dizer-lhe como as coisas se passaram com toda a simplicidade e confiança, como um filho para com seu pai.

Não tenho dúvidas que a nossa pequenina Obra dos Negros deve à poderosa protecção do santíssimo Coração de Maria a sua existência e todos os progressos que ela fez desde o pouco tempo que foi fundada. Todos os piedosos confrades, que comigo a começaram e a continuaram, disso estão intimamente convencidos e os nossos corações estão profundamente reconhecidos para com a gloriosa Rainha do Céu.

Desde os seus primeiros anos, que a Arquiconfraria da Senhora das Vitórias intercedia por esta pequena obra, junto do Imaculado Coração desta nossa boa Mãe. Os principais protagonistas que a começariam não estavam ainda decididos; os obstáculos  que se interpunham pareciam insuperáveis mas as fervorosas orações da santa liga do Imaculado Coração de Maria conseguiram o que parecia impossível;  de facto, desde a origem  desta difícil empresa, toda a nossa confiança repousava  nas bondades  do Coração da nossa boa e santa Mãe. Apesar das dificuldades que humanamente pareciam superar em muito a nossa fraqueza, tivemos sempre uma grande confiança que as coisas acabariam bem. Por um lado, eu sentia uma  uma profunda tristeza  e nem sequer ousava falar a alguém do nosso projecto, pois ele ma parecia uma loucura, â luz ordinária da razão e como tal deveria parecer a toda a pessoa de juizo; por outro lado, sentia em mim um impulso forte e um sentimento de confiança muito grande  no Santíssimo Coração de Maria. As poucas pessoas a quem falei do nosso projecto me repreenderam e me procuraram dissuadir desse propósito; e apesar disso, eu não podia  impedir-me de ir para a frente, tanto este sentimento de confiança me impedia de escutar  o que me diziam para me dissuadir.

Mas, apesar deste impulso interior, eu queria conhecer a divina vontade  sobre o fundo desta obra e empregar para isso os meios mais adequados para me assegurar  segundo a ordem de Deus na sua Igreja. Foi por isso, que  no princípio do ano de 1840, me pus a caminho de Roma, onde Nosso Senhor  pôs as suas luzes  para o governo de toda a Igreja Apresentei-me sem certificado, sem  cartas de recomendação e não procurei nenhuma protecção  para fazer valer as minhas intenções nem para solicitar a respectiva aprovação. Eu vinha para conhecer a vontade divina e acima de tudo, tinha receio de, fazer valer a minha.

Muitas vezes, os meus amigos me repreendiam  a inacção em que eu permanecia. Mas eu tinha ainda outra razão para agir dessa maneira. O meu projecto parecia  contrariar de tal maneira as regras ordinárias da prudência, que eu estava de antemão convencido, que todos aqueles a quem eu pedisse qualquer espécie de apoio mo recusariam. Eu tinha já dificuldades que chegassem, não queria arranjar outras ainda. Não restava portanto, senão a confiança em Maria para me apoiar. Passei dois meses sem tomar qualquer iniciativa, procurando sobretudo inteirar-me do processo a seguir para introduzir o projecto; o que não era coisa fácil , pois as pessoas a quem me dirigi, acolheram-me mal, julgando a minha ideia uma quimera. A falta de recomendações também  contribuiu um pouco para isso.

Ao fim de dois meses, fiz um memorial no qual  tracei as linhas principais  do nosso projecto e enviei-o a Mons. Cadolini, então secretário da Propaganda, e actualmente cardeal. Depois retirei-me para a minha solidão e esperei que Deus se manifestasse. Eu não tinha ordens sagradas; o meu estado de saude parecia impedir-me para sempre de as receber e eu apresentava-me como devendo ficar à frente  de uma obra eminentemente sacerdotal! Assim, como poderia a Propaganda  debruçar-se sobre o meu projecto e ser-lhe favorável? Deste modo,  eu não tinha nenhuma esperança humana  de ter uma resposta ao meu memorial, sobretudo depois de terem passado  dois ou tres meses sem ter ouvido mais nada a seu respeito.  De resto, eu não tomava qualquer espécie de iniciativa para fazer avançar as coisas; se  a obra entrasse nos desígnios de Deus, ela falaria por si mesma.

O Coração de Maria  dá o nome à Congregação

A minha confiança estava sobretudo no Santíssimo Coração de Maria e nas orações  numerosas e fervorosas  da Arquiconfraria. Daí, a perfeita tranquilidade  da minha alma e no meu coração  uma inquebrantável confiança que Deus  aprovaria a obra  e a faria vingar, apesar  das aparências contrárias. Esta confiança era tal, que no momento em que tudo parecia perdido, lancei-me seriamente  a traçar o plano da nossa obra, os passos a dar na sua execução, o espírito em que deveríamos viver. Neste trabalho aconteceu-me uma coisa singular, em que a intervenção do santíssimo Coração da nossa boa Mãe foi manifesta e que me causa ainda agora uma grande consolação

Só Tisserand era de opinião  que devíamos consagrar a nossa obra  ao Santíssimo Coração de Maria. Levavasseur e eu,  não pensávamos que uma obra apostólica devesse ser consagrada ao Coração Imaculado de Maria, a pesar de termos toda a confiança neste santo Coração.

Eu pensava  que a Sociedade  deveria  encontrar na sua consagração todas as suas devoções e um modelo perfeito das virtudes fundamentais do apostolado; e não sei porquê nunca me veio à ideia  que pudéssemos encontrar tudo isso no  Santíssimo e Imaculado Coração de Maria.

A minha ideia para esta dedicação era outra. Eu estava com muita dificuldade  em traçar o plano em questão, mas nenhuma ideia me vinha à cabeça; eu estava na mais completa obscuridade. Depois fiz a visita às sete igrejas  e visitei ainda outras igrejas  dedicadas à Santíssima Virgem e então,  sem saber porquê, decidi-me consagrar a obra ao Santíssimo Coração de Maria. Regressei a casa e lancei-me mais uma vez à obra , para recomeçar o plano em questão. Ora aconteceu que então tudo me pareceu claro, que dum só golpe vi todo o conjunto da obra  e todos os desenvolvimentos com todos os pormenores. No decorrer do trabalho e à medida que me detinha na explanação dos pormenores, por vezes surgiam-me dificuldades e eu ficava sem ver claro; então ia fazer  uma visita a uma das igrejas da minha devoção ( Santa Maria Maior, Santa Maria In Trasntevere, a Madona del parto na igreja de Santo Agostinho e a Madona della Pace) e tinha a certeza que no regresso não tinha senão que retomar a pena; as dificuldades  desvaneciam-se  e o que era incerto tornava-se claro; nunca isto falhou.

O Coração de Maria e a aprovação da Congregação

Durante este tempo, o Cardeal Prefeito da Propaganda escreveu para França para saber informações a meu respeito ao mesmo tempo que me chegavam alguns certificados que padres piedosos me tinham aconselhado  a apresentar. O meu memorial foi examinado pela Congregação  da Propaganda e ao fim de tres meses , o cardeal Fransoni, sabendo que eu estava em Roma,  escreveu-me uma carta a animar-me. Em substância dizia-me que  a Sagrada Congregação, reservando-se embora a aprovação  oficial do meu projecto para mais tarde, o tinha achado, logo desde a primeira leitura,  bom e útil para a glõria de Deus e a salvação das almas; ele louvava o meu zelo e exortava-se a vencer as dificuldades  e a perseverar nas minha s intenções. Sua Eminência acrescentava  que rezava a deus Todo Poderoso que me desse saude bastante  para eu poder ser promovido ao sacerdócio e dedicar-me inteiramente a esta obra.

A oração de um tão grande santo foi ouvida; a minha saude  restabeleceu-se  e no ano seguinte fui ordenado padre.

No enanto,  apesar de a minha saude ter melhorado, havia grandes dificuladadess para a minha ordenação e eu tinha uma extrema repugnância  em eu próprio fazer démarches nesse sentido. Abstive-me portanto disso, mas Maria fê-lo por mim. Neste entrementes aconteceu que eu fui em peregrinação a Nossa Senhora do Loreto para lhe falar das incertezas da minha obra.  Ora aconteceu que precisamente durante este tempo, falou-se em meu favor a  um dos nossos mais dignos bispos de França e este insígne prelado ofereceu-se para me ordenar. Quando regressei a Roma, encontrei uma carta que me dava conta desta notícia. Voltei para França e foi, efectivamente, das mãos  deste piedosos bispo que recebi as primeiras ordens. Depois o bispo de Amiens me ordenou padre.

O Coração de Maria e as primeiras dificuldades

Começamos a nossa obra sob a protecção de Sua Reverendíssima que nos cumulou de tantos benefícios. Foi então que mais uma vez a protecção do Imaculado Coração de Maria se fez sentir. Èramos apenas tres que nos tínhamos reunido  em La Neuville, perto de Amiens e aconteceu que pessoas  muito piedosas, muito bem pensantes, muito zelosas pela glória de Deus, procuraram  baralhar tudo, lançando sizánia no nosso meio, com palavras ditas com boa intenção  a um dos principais fundadores da Obra. Estas palavras, repetidas  muitas vezes,  deixaram uma tal impressão  na alma do meu piedoso  confrade, que durante os primeiros dois meses,  ele nem sequer duvidava da tentação. Eu estava profundamente preocupado, sem poder remediar o caso.

Tres dias antes  da festa da Apresentação , tive a ideia de recomendar o caso ao Santíssimo Coração de Maria; passei este tempo em oração e  chegado o dia da festa, operou-se como que uma revolução no coração do confrade. Veio ter comigo, abriu-me a sua alma com toda a confiança e disse que a Santìssima Virgem  lhe tinha obtido  uma mudança completa das suas disposições a meu respeito. Fiel à sua resolução de combater  estas tentações com todas as suas forças, sempre que sentia  este sentimento de desunião, recorria ao Imaculado Coração de Maria e era logo ouvido.

Estes combates duraram até ao princípio de Fevereiro. Pelos fins de Janeiro, ele foi a Paris para fazer a consagração ao Santíssimo Coração de Maria, junto do altar de Nossa Senhora das Vitórias. Ele queria obter a cura desta perniciosa tentação, que o opunha contra mim. Passou toda a noite que precedia a festa da Purificação diante do altar  do Imaculado Coração de Maria  e ficou completamente curado. Escreveu-me a dizer  que a sua atitude para comigo tinha mudado totalmente; e desde então reina entre nós uma perfeita união

O Coração de Maria e a primeira missão dos Espiritanos.

Pouco mais ou menos nesta mesma época , obtivemos uma outra graça do Coração Imaculado de Maria: como é sabido tinha sido a missão do Haiti, juntamente com Bourbon, que nos tínhamos proposto ao princípio, como objectivo da nossa associação.

Como tinha sido Maria que nos reuniu, esta boa Mãe  quis-nos fazer sentir que era do seu Coração Imaculado  que nós poderíamos obter tudo e foi por isso que as nossas duas grandes missões, a do Haiti e a da Guiné, nos foram confiadas por Nossa Senhora das Vitórias. Você conhece esta história melhor  que eu, pois que foi de si que a Santa Mãe de Deus se serviu.

Aconteceu porém, que a situação  do Haiti se complicou e nós vivemos um momento muito crítico. Tínhamos então cinco missionários prontos para partir e não tínhamos missão para lhes dar. . Foi então que eu me dirigi a Paris para recomendar a Obra ao Santíssimo Coração de Maria e ao mesmo tempo ver em que ponto estavam as coisas. Encontrei tudo em tal estado que não havia nenhuma esperança  de encontrar uma missão antes de dezoito meses ou dois anos. Ainda me lembro de ter descido consigo  os degraus de Nossa Senhora das Vitórias e de lhe ter dito: “- Padre, estamos com um problema-- Porquê? Me perguntou você. - Falta-nos terra.- Como assim? Não têm dinheiro?- não, não é isso; a Santíssima Virgem nunca nos faltou com ele; mas não sabemos para onde ir, pois todas as portas se fecham”. O senhor procurou consolar-me, mas eu não tinha necessidade disso,  pois apesar do desalento em que me encontrava, com cinco missionários impacientes por estarem fechados tanto tempo e a quem este atrasos  infinitos poderiam fazer desanimar, eu estava em paz.  É  verdade  que a minha única segurança  era que o meu espírito confiava sempre no Coração de Maria ; por isso no meu interior  em conservava uma grande calma  e uma inteira confiança. Lembro-me até de lhe ter dito, no canto da sua lareira, que estava certo de que em breve  teríamos uma missão, que eu estava  demasiado  calmo e que não podia explicar esta tranquilidade, senão porque o Coração de Maria  nos preparava uma missão.

Deixei Paris esse mesmo dia. No dia seguinte, Monsenhor Barron,  vigário apostólico da Guiné, veio também ele rezar a Maria, no altar  do Coração Imaculado de Maria, em Nossa Senhora das Vitórias. Foi então que ele lhe falou do seu vasto vicariado e da falta de padres que ele tinha. Coisa estranha, que eu não sei explicar naturalmente, você não se lembrou  de falar do nosso problema. E na véspera você tinha ficado tão preocupado com a nossa situação! Uma segunda oportunidade de nos ajudar , a nós, filhos do Coração de Maria, se apresentou e você tornou-se a esquecer. Eu só vejo nisto uma explicação: Maria queria  mostrar-nos  que tudo nos vem do seu Coração Imaculado. De facto, depois da sua conversa com o piedoso Vigário Apostólico da Guiné e depois de o ter deixado com o seu problema, você foi para o altar  do Imaculado Coração ; e foi aí que você teve  como que uma inspiração súbita e interior, que lhe dizia  que essa missão seria para nós; depois você falou  disso a Mons. Barron e no dia seguinte à minha chegada a Amiens foi preciso voltar a Paris, onde eu enviei o P.Schwindenhammer , para regular  este assunto, que Maria tinha já começado para nós.

Sem Maria, nós não existiríamos

Aqui ficam algumas graças especiais, com que o admirável Coração de Maria nos cumulou.. Mas não seria necessário lembrar estes casos especiais para reconhecer  as bondades do Coração de Maria para connosco;  basta lembrar  com que recursos nós começamos e como em tão pouco tempo chegamos a um tal ponto que se diria que existimos já há dez anos.  Tínhamos tudo contra nós e nada em nosso favor.

Para começar não éramos mais que tres, sem nenhuns recursos e ao fim de dois anos, tínhamos já uma casa  e um jardim para o nosso noviciado e além disso com que sustentar uma quinzena de missionários.  Neste momento  temos doze missionários, já colocados em diversas missões: Maurícia, Bourbon, Haiti, e Guiné; treze estão prontos para partir, além de quatro irmãos; na casa do noviciado, sete seminaristas e tres irmãos, além do miudo negro, cuja história o senhor conhece e que nos foi enviado por Maria, pois que foi durante uma peregrinação a Nossa Senhora do Livramento que um dos nossos o descobriu.

Um tão significativo número de outros que estão para vir está já anunciado para o futuro E a verdade é que não temos feito nada para chamar as pessoas. É uma regra que eu me pus na condução  das coisas:  a de esperar em tudo os momentos da Providência. Estou certo que, com a ajuda das orações do Imaculado Coração de Maria, tudo correrá bem.

(Carta 317. LS. IV )