Uma ponte para amar… por isso vai…

Por Marlene e João Paulo

Somos oito jovens oriundos de diversas regiões de Portugal que aceitámos o desafio de partir em missão durante o mês de Agosto, para a Paróquia de Nossa Senhora de Conceição em Queimados, Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, Brasil. Fomos recebidos como filhos pródigos pelos Padre Luís Oliveira Martins, Laurindo e João Serra, Espiritanos que, à décadas, doam a sua vida ao povo brasileiro. A paróquia tem aproximadamente 40 000 habitantes, em que a maioria luta para ter uma vida mais digna e para isso são “obrigados” a deslocarem-se até à grande metrópole do Rio de Janeiro para poderem ganhar o pão de cada dia. O DNA da Baixada Fluminense é a pobreza.

Retiro na Aparecida
Na comunidade espiritana, com os padres Luís e Laurindo

Durante o mês, cada um colocou os seus dons ao serviço deste povo, vivendo o nosso lema: “Discípulos Missionários, caminhando na Alegria”. Podemos dizer que esta missão ficou marcada pelo testemunho alegre de sermos cristãos, apesar das nossas diferenças. E foi sempre Cristo que seguiu à nossa frente a desafiar-nos: “Por isso vai…”

Reportagem da RTP

Por isso vai… firmemente

Estando na fila para embarcarmos no avião rumo ao Brasil, houve um senhor, residente no Rio de Janeiro, que ao ver-nos todos vestidos de t-shirt amarela, nos perguntou se nós íamos passear turisticamente para o Rio. Negámos e dissemos que partíamos em missão para Queimados. O homem, admirado, disse: “Mas ninguém vai para Queimados!” Esta é a grande imagem que muitas pessoas têm desta periferia.

Apesar do nosso conhecimento sobre esta cidade, ainda continuávamos com receios da realidade social. A Baixada Fluminense é considerada uma periferia perigosa marcada pela violência, tráfico de droga, assaltos e assassinatos. Com a ocupação das favelas no Rio de Janeiro pela polícia, com a finalidade de acabarem com o tráfico de droga, muitos traficantes fugiram para esta Baixada, aumentando o número da violência que está de mãos dadas com os problemas da droga.

Percorrendo Queimados, encontrámos muros altos que protegem desta triste realidade. Mas porquê muros tão altos e com arames farpados? Fomos apercebendo que eram necessários. Esta Baixada refugia pessoas que possuem um cadastro carregado de irregularidades. Um cadastro que começa desde a juventude, em que muitas crianças, adolescentes e jovens estão envolvidos no mundo da criminalidade e drogas. 

Queimados

Por isso vai… caminhando

Num mês é impossível cicatrizar todas as feridas desta Baixada. Fomos sentindo que, mais do que fazer actividades, éramos testemunhas da alegria de sermos jovens cristãos. Como jovens missionários fomos caminhando pelas ruas desta paróquia para que todos sentissem que estávamos lá para servi-los, testemunhando que a nossa alegria vem de Cristo e que, por isso, deixámos tudo para simplesmente estar com o povo. Este foi o nosso desafio: estar e amar cada um com quem nos cruzámos pelo caminho.

Esta foi a nossa grande experiência! No dia da nossa apresentação à comunidade fomos acolhidos com imensos abraços, sorrisos, gestos de carinho e de muita fraternidade. Tudo isto fez com que nos sentíssemos em casa e, ao mesmo tempo, nos impulsionou para que nos déssemos totalmente a eles. Com a mesma afectividade, fomos acolhidos nas diversas comunidades por onde passámos. 

Visitas ao domicílio

Durante uma semana, participámos na Semana da Família onde se pretendia que as comunidades cristãs se reunissem para reflectir sobre a importância da família para a vida pessoal, social e cristã. Caminhámos com as famílias, visitando os doentes das comunidades e participando num roteiro de sete encontros preparados pelos bispos do Brasil. Ao caminhar com as comunidades, apercebemo-nos que as famílias possuem diversos desafios que necessitam de ser encarados com entusiasmo, porque estas são a esperança de um mundo melhor.

A falta da família faz com que muitos procurem refúgio e segurança noutros caminhos entre os quais a droga, a violência, o tráfico ou a criminalidade. Um caminho que prejudica muitas crianças, adolescentes e jovens correndo o risco de serem eliminados na flor da idade. Um dos momentos importantes da nossa Ponte foi a visita à Casa do Menor, fundada pelo Pe. Renato Chieira, onde acolhe muitos jovens que quiseram fugir desta tão triste realidade. É uma obra onde se pretende transmitir e transformar as suas vidas através do amor, concedendo uma vida melhor e mais digna. De uma forma bem visível, ajudou a perceber as palavras do Papa Francisco, na sua última mensagem para o Dia Mundial das Missões: “a missão é uma paixão por Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, uma paixão pelas pessoas”. Ao olhar a dedicação, o amor, o clima tão familiar que habita nesta Casa do Menor revela que realmente só o serviço total por amor é que consegue abrir portas para um futuro melhor. 

Visitas ao domicílio
Casa do Menor

Por isso vai… Sem Fronteiras

Partir sem fronteiras é ter a certeza que não podemos deixar as amarras nos prenderem nos desafios. Partimos em direcção às escolas Leopoldo

Machado e Metodista. O ensino em Queimados revelou-se totalmente diferente! O nosso desafio nas escolas era de consciencializar os adolescentes/jovens, crianças e adultos para as temáticas da «Sexualidade e Afectividade», da «Violência e Drogas», da «Cultura e Preconceito» e da «Educação para a Cidadania». Estas temáticas não eram tratadas em ambas as escolas, pois existe um certo receio em as abordar. Sentimo-nos responsáveis por alertar aquela juventude para as problemáticas que de facto acontecem nesta Baixada. Regressámos com a esperança de que as nossas palavras tenham sido uma semente que dê frutos.

Na escola Leopoldo Machado
Na escola metodista

Os encontros pastorais foram momentos de enriquecimento mútuo mostrando que existem diferentes formas de sermos discípulos missionários. Nesses encontros, partindo da nossa experiência paroquial, salientamos que devemos estar ao serviço das necessidades da Paróquia. Mostrando, assim, que muitas vezes é mais fácil ser missionário fora do nosso berço, esquecendo que a nossa missão começa com quem está próximo de nós.  

As crianças chegavam e a alegria era contagiante. E nós não poderíamos ficar atrás! No ATL, tivemos a oportunidade de fazer diversos trabalhos manuais, mostrando que podemos reutilizar o material que usamos diariamente. Foram momentos de grande proximidade entre nós e as crianças, que de uma forma bastante simples quiseram mostrar todo o apreço na hora de despedida. Os tempos de Reforço Escolar foram momentos de colocarmos ao serviço junto dos alunos as nossas competências. Apesar das dificuldades na aprendizagem sobretudo no Inglês, no Português e na Matemática, sentia-se que tinham vontade de superar essas mesmas dificuldades e adquirem maiores conhecimentos. Os Rastreios na área da saúde foram preparados para que os interessados pudessem rever a sua saúde, recebendo também alguns conselhos para que tivessem uma vida mais saudável.  

Por isso vai… Para amar!

Fomos gerados no amor de Deus e fomos enviados a manifestá-lo aos outros. Os medos, os receios e as dúvidas existiram, mas nós como “Discípulos Missionários caminhando na Alegria” tivemos que os deixar de lado para comprometermo-nos na missão. Levámos na nossa bagagem o amor. Agora que regressámos, temos a certeza que tudo foi feito por amor. Estamos seguros de que a nossa missão era, mesmo, partir para Queimados. A missão, a partir do amor de Deus, iniciou-se no nosso grupo onde vivemos como uma família reflectindo-se nos serviços que fizemos na Paróquia. Foi uma semente lançada a partir do amor, tendo a consciência de que esse amor é um dom de Deus. Desta forma, podemos comprovar as palavras de Dom Luciano Bergamin, bispo de Nova Iguaçu: “O Rio sacia os olhos, a Baixada sacia a alma!”. E nós ficámos saciados e famintos por uma nova missão! Por isso vai… 

Hugo Ventura

Sempre gostei de viver em família, seja ela pequena ou numerosa!

Mais do que um conjunto de pessoas amigas que viveram na mesma casa e se aventuraram a partir em missão, fomos (somos) família. Num país onde há tantos conflitos, onde muitas crianças nascem em famílias desestruturadas, onde os professores são heróis lançados para o mundo da educação, onde se mata a qualquer preço, este foi um grande e silencioso testemunho. Entre nós ninguém, avô, pai ou mãe, mas todos Filhos de Deus. Obrigado família!

Jessica Sousa

Ir em Ponte sempre foi um sonho... Ser no Brasil nunca passou pela minha cabeça.

Já alguém dizia que são as pessoas que fazem o local onde estamos num verdadeiro lar! As pessoas que estavam connosco todos os dias é que fizeram com que eu não me quisesse vir embora. Os olhares, as palavras e até abraços fizeram com que eu viesse mais humana.

Ir para o Brasil foi uma redescoberta de mim mesma como ser humano, tal como eu dizia nas aulas de educação para a cidadania “ser pessoa não basta! Ser apenas pessoa é andar na sociedade sem fazer nada, sem ter um propósito de vida. Temos de ser Seres Humanos, pois esses pensam com a cabeça e sentem como coração!”

A realidade que encontrei foi muito aquilo que já estava à espera, um povo pobre, com sérios problemas de segurança, tráfico de droga, saneamento básico, pouco interesse para a escola e para a cultura geral, mas a alegria que trazem todos os dias foi o que me surpreendeu, pois é essa alegria de viver que faz como que elas vivam os dias intensamente!

Beta Ferreira

Fomos recebidos por um povo sedento de algum sinal, alguma esperança, só assim consigo explicar os abraços calorosos com que nos inundaram desde o dia 1 até ao dia 30, quando nos despedimos.

Não salvámos ninguém. A vida continua lá sem a nossa presença, do mesmo modo que existia quando chegámos. A nossa maior missão foi ser exemplo: de quem é chamado e diz sim, de quem enfrenta os desafios, de quem tem fé, de quem se realiza… A minha maior alegria diária era sair de casa e perceber que muitos dos que por nós passavam nos reconheciam: “Os missionários portugueses…”

Sabemos que deixámos muito pouco, mas viemos cheios! Do carinho que recebemos sem merecermos, e de uma vontade imensa de fazer muito mais, em Portugal, em Africa… quem sabe em Queimados… Onde o Espirito Santo nos enviar.

João Paulo Freitas

A minha experiência em Queimados ajudou-me a perceber o valor da alegria, apesar de todo o sofrimento que carregam os rostos de cada pessoa desta periferia do Rio de Janeiro. É uma população que geme as dores da droga, da violência, da criminalidade, do esquecimento… na verdade, são muitas as famílias que choram por verem seus familiares a viverem nesta triste realidade. É um povo que, apesar de tudo, não perdeu a alegria do valor da vida e que estão preocupados quanto ao futuro. Querem um futuro melhor para os seus, mas falta gente que lhes abra as portas de um futuro melhor. Um futuro onde todos tenham igualdade de uma vida digna e bela, sem medo de sair às ruas e deparar pelo mundo injusto.

Adriana Gonçalves

Uns dias antes de entrar no avião, estava com bastantes receios. Receio, pelo perigo e insegurança do sítio para onde íamos e por não conseguirmos realizar os nossos objetivos e ajudar de alguma forma aquelas pessoas. Mas assim que aterrei em solo Brasileiro, os meus medos deixaram de existir, estava feliz e cheia de vontade servir a missão que Deus me tinha confiado. Partimos 8 conhecidos e tornamo-nos numa família. Foi um mês de emoções e vivencias muito diferentes e intensas. Aprendi muito e vivi muito. Darmo-nos aos outros nem sempre é fácil, mas reaprendi que a melhor prenda que se pode dar a alguém, é nossa presença e o nosso tempo. Deixámos muitos rostos em queimados, mas sei que os verei sempre no meu pensamento e no meu coração.

Marlene Veríssimo

Parti para Queimados com um grupo que veio a tornar-se uma família neste mês de missão e realmente a família é a nossa base, e nada teria corrido tão bem senão fosse a nossa união. Com eles aprendi que partir em missão pode-se resumir na palavra “estar”. Nós estivemos com aquele povo caloroso do abraço apertado, estivemos com todas as famílias que nos receberam e nos trataram como membros da sua comunidade, nós estivemos com aquelas crianças e jovens que, por culpa do mundo da droga e da violência, foram acolhidas nas casas-lar da Casa do Menor São Miguel Arcanjo em Nova Iguaçu, nós estivemos com a juventude de Queimados e estivemos em tantos outros momentos e lugares. Mas este “estar” foi um estar com amor, um estar com alegria, um estar de coração aberto para acolher o próximo, um estar em família e um estar em plena união com Deus. Trago a certeza de que a minha missão no mês de Agosto era estar em Queimados com este grupo e que a missão transcende os meus planos, quem traça os planos é Deus. O que lá deixei foi uma pequena semente, e o que trouxe com certeza foi a vontade de continuar a minha missão onde Deus me enviar. Missão é partir e voltar… e continuar a ser “Discípulo Missionário caminhando na Alegria!”.

Luís Rafael Azevedo

Arriscar partir? Porquê?

Sim! Porque fui com um grupo de 8 amigos e regressei com uma família…
Sim! Porque superei as minhas ideias pré-concebidas…
Sim! Porque em cada abraço senti o quanto era importante estar ali…
Sim! Porque coloquei os meus dons ao serviço…
Podia dar muitas outras razões que justificassem porque é que valeu a pena lançar-me nesta aventura… mas para os mais curiosos deixo uma resposta universal e que sintetiza o que estou a sentir…
Sim! “Porque sim!”

Sei que provavelmente devem estar a pensar “porque sim! Não é resposta!!!”
Mas afinal: Deus fez-nos um desafio… e a resposta foi SIM!

Adriana Cavaco

Foi como um sonho que me candidatei, soube que ia e iniciei este caminho. Mas num dos anos mais difíceis da minha vida, a construção desta ponte não foi um sonho, aprendi e abdiquei de muito. Tive medo de não conseguir fazer algo que fizesse a diferença. Lá, soube que não ia fazer o que esperava. Após muita angústia, percebi que o melhor que podemos fazer é dar o nosso tempo e atenção de forma verdadeira e simples. E foi assim que voltei, sem vontade de voltar, com 7 irmãos na alegria, com um pouco de todas as pessoas que se deram a mim, mas com esperança de ter deixado um pouco de mim em todas as que me dei.