O P. John Fogarty, Superior Geral dos Missionários do Espírito Santo, fez questão de estar presente na Peregrinação da Fátima da Família Espiritana, neste ano em que a Congregação celebra 150 anos de presença em Portugal.

Publicamos aqui a sua homilia, na Missa de Sábado, dia 1 de julho, na Basílica da Santíssima Trindade.

Homilia do P. John Fogarty, Superior Geral

É para mim uma honra e um privilégio participar nesta cerimónia que assinala a celebração dos cento e cinquenta anos da fundação da presença e missão espiritanas, aqui em Portugal.

Em certo sentido, as raízes da Província recuam ainda antes da chegada dos primeiros espiritanos a Portugal. Ainda em vida, o P. Libermann já tinha planeado estudar a possibilidade de abrir uma casa em Portugal, mas, por razões políticas, não foi possível realizar o seu sonho até 1867. Nesse ano, o grande missionário, P. Duparquet, abriu o seu primeiro seminário menor em Santarém e lançou as sementes de uma futura Província florescente, que se desenvolveu dando uma imensa contribuição à missão espiritana na evangelização em África e noutros lugares, e também à própria congregação, ao nível da liderança, dos estudos académicos (linguística e etnologia, por exemplo) e ao nível da criatividade apostólica. 

Como habitualmente, a Peregrinação da Família Espiritana começou com a saudação a Nossa Senhora, na Capelinha das Aparições, pelas 17h00. Dali, todos seguiram para a Basília da Santíssima Trindade, para a Eucaristia, presidida pelo P. John Fogarty, Superior Geral.

Honramos hoje a memória de muitas pessoas – padres, irmãos e leigos- que são parte de uma história notável vivida ao longo destes cento e cinquenta anos. Muitos de vós, aqui antes de mim, recordam neste dia os nomes e rostos dos membros da Província que muito inspiraram as nossas vidas; outros se perderam na memória do tempo, mas não foram menos importantes na construção desta história. É uma história maravilhosa, escrita por pessoas simples e comuns: uma história de visão e de coragem, de dedicação e oblação, frequentemente em tempos muito desafiantes: uma história de notável capacidade de adaptação a circunstâncias em transformação, primeiro quando a revolução de 1910 forçou ao abandono das obras da Província e ao exílio dos seus membros e, mais tarde, em 1974, quando as mudanças políticas em Angola, que era a primeira missão da Província, levaram à partida forçada de muitos dos seus membros e, em última análise, à restruturação missionária do Projeto da Província.

É uma história inspiradora de solidariedade com pessoas sofredoras em tempos de guerra, até ao ponto de dar a própria vida em sacrifício, como a deram vários membros desta Província de Portugal.

É uma história notável de criatividade na colaboração com leigos e na animação missionária aqui na Igreja portuguesa, que é uma animação missionária única na Congregação.

É uma história de alcance e serviço às comunidades de imigrantes em Portugal, nos Estados Unidos e no Canadá, tal como de abertura e hospitalidade generosa a outras circunscrições espiritanas nestes últimos tempos, particularmente na área da formação e de preparação para a missão.

É uma história notável de criatividade na colaboração com leigos e na animação missionária aqui na Igreja portuguesa, que é uma animação missionária única na Congregação.

P. John Fogarty

A imagem que vocês escolheram para o ano jubilar, da árvore da Gingko-Biloba, expressa bem a resiliência da Província, a sua capacidade de aguentar em circunstâncias difíceis e desafiantes, as suas raízes profundas, a sua vitalidade, a sua visão de paz cheia de esperança e inclusividade num mundo dividido.

P. John Fogarty

A imagem que vocês escolheram para o ano jubilar, da árvore da Gingko-Biloba, expressa bem a resiliência da Província, a sua capacidade de aguentar em circunstâncias difíceis e desafiantes, as suas raízes profundas, a sua vitalidade, a sua visão de paz cheia de esperança e inclusividade num mundo dividido. 

O aniversário da fundação da Província de Portugal é um dos acontecimentos deste género que acontecem em diferentes áreas do mundo espiritano durante o mandato deste Conselho Geral. Entre estes acontecimentos incluem-se os aniversários do estabelecimento da Igreja Católica na ilha de Zanzibar; da abertura do Colégio de Santa Maria, na Trinidad; da fundação do Colégio de Rockwell, na Irlanda; da chegada dos Espiritanos à Serra Leoa, à Tanzânia e a Angola. Estes vários aniversários são reflexo de um período de extraordinária diversificação e expansão internacional da Congregação, através das decisões corajosas e imaginativas que, depois da morte de Francisco Libermann, foram tomadas com recursos muito limitados pelo P. Schwindenhammer, seu sucessor dotado e controverso.

O seu mandato viu setenta e nove novas fundações, trinta e três das quais aconteceram na Europa ou nos Estados Unidos, vinte e cinco foram nas Antilhas e outras ex-colónias, e as restantes em África. Várias destas novas fundações foram seminários, colégios ou escolas agrícolas, e muitas se dedicaram à educação e formação de jovens desfavorecidos na sociedade do tempo.

É muito importante que comemoremos e celebremos estes e outros marcos da história espiritana. “Recordai as maravilhas que fez o Senhor”, diz-nos o salmista (Sl 105, 5). O papel do Espírito Santo é recordar-nos tudo o que o Senhor fez através da nossa história humana, é ajudar-nos a descobrir a presença e ação de Deus dando forma ao Seu plano de amor através da construção da nossa história humana, através das vidas e obras de homens e mulheres comuns, apesar dos seus limites e até dos seus erros.

Muitas parábolas do Evangelho, que são na nossa vida pessoal memórias da nossa experiência da compaixão, do amor e do perdão de Deus, levam-nos a ser, também nós, compassivos e portadores de perdão e amor relativamente aos nossos irmãos e irmãs. A fé e a memória estão intimamente ligadas. O esquecimento está com frequência na raiz dos nossos fracassos: “nunca esqueçam a bondade do Senhor” (Sl 103, 2).

A fé e a memória estão intimamente ligadas. O esquecimento está com frequência na raiz dos nossos fracassos: “nunca esqueçam a bondade do Senhor” (Sl 103, 2)

P. John Fogarty

Recordando as memórias do passado e as histórias daqueles que nos precederam, tocamos de novo as nossas mais profundas motivações, como religiosos missionários, com aquilo que mais profundamente nos une aos nossos irmãos e irmãs na Família espiritana, o chamamento e o carisma que partilhamos. Damo-nos conta do quanto devemos tanto coletivamente como individualmente àqueles que nos precederam, à sua inspiração, à sua visão e à sua coragem. Uma vez mais somos recordados que Deus realmente pode fazer maravilhas através das vidas de homens e mulheres comuns que têm consciência das suas próprias limitações, mas se abrem ao poder do Espírito Santo. Descobrimos que a fragilidade humana e até os erros não são necessariamente um obstáculo à graça de Deus ou à efetivação do nosso testemunho. Tal como o Papa Francisco fez notar há algum tempo, “um religioso que se assume como fraco e pecador não nega o testemunho que é chamado a dar, antes o fortalece, e isso é bom para todos”.

A memória não diz apenas respeito ao passado. O modo como recordamos o passado determina largamente como vivemos no presente e como construímos o futuro. “As memórias do amor tornam possíveis todas as nossas concretizações. Elas dão-nos a confiança para assumir riscos e para autossuperar-nos”, disse um filantropo americano no momento em que ofereceu a sua grande fortuna a várias instituições de educação. Segundo as palavras do Papa Francisco: “A tradição e a memória do passado têm que nos ajudar a ter coragem de abrir novas áreas a Deus”. Horamos a memória daqueles que nos precederam, não apenas mantendo as obras e estruturas que eles iniciaram, mas respondendo criativamente às necessidades de evangelização dos nossos tempos, tal como eles fizeram no seu tempo.

A memória não diz apenas respeito ao passado. O modo como recordamos o passado determina largamente como vivemos no presente e como construímos o futuro.

P. John Fogarty

Entronização da Palavra

O Evangelho de hoje, que conclui o discurso missionário de Mateus, lembra-nos dois elementos essenciais no nosso chamamento missionário, a nós que procuramos abrir-nos a novas áreas aqui em Portugal e no vasto mundo contemporâneo. Em primeiro lugar, Jesus convida-nos a tomar a nossa cruz e a segui-lo. A expressão aparece cinco vezes nos evangelhos e é portanto um elemento importante no ensinamento de Jesus. Que significa levar a nossa cruz como missionários, todos os dias?

Há muita gente no nosso mundo de hoje que aceita os seus sofrimentos ou infortúnios com um espírito de fé; acertadamente veem isso como a sua cruz na vida, um modo de participarem no sofrimento redentor de Cristo.

“Temos que completar o que falta ao sofrimento de Cristo”, diz S. Paulo. Para aqueles que são vítimas inocentes de violência ou sofrimento injusto, a cruz é um símbolo imenso de esperança. Representa a vitória do amor sobre o mal, a mensagem de que é o amor, e não o mal, que têm a última palavra.  Isso introduz uma narrativa sobre a solidariedade de Deus com os sofredores de todos os tempos e lembra-nos a nós, mais afortunados, que só o amor pode vencer o mal e que contrariar a injustiça com a violência nunca quebrará o ciclo do mal. Todos conhecemos pessoas que, identificando-se com os sofrimentos de Jesus, descobriram uma paz interior e até alegria que irradiaram à sua volta. É verdadeiramente um privilégio conhecer tais pessoas; elas ajudam-nos a colocar os nossos pequenos problemas em perspetiva e ser profundamente agradecidos pelas muitas bênçãos que recebemos de Deus. São missionários no sentido profundo da palavra porque trazem sentido e esperança aos outros, num mundo que com frequência perdeu a orientação e as razões de viver.

No entanto, é importante também recordar que no mundo do império romano, que é o mundo em que Jesus e os primeiros discípulos viveram, a cruz não era um símbolo dos sofrimentos da vida assumidos com paciência, mas era um símbolo de morte, um tipo muito específico de morte. A crucifixão não era uma pena de morte normal, não podia ser aplicada a cidadãos romanos. Era a punição reservada aos escravos que tinham desafiado os seus senhores, ou gente que se tinha revoltado contra a autoridade romana. Jesus morreu numa cruz porque recusou aceitar qualquer autoridade que não fosse a autoridade de Deus, qualquer outro Reino que não fosse o Reino de Deus. Ele desafiou toda a autoridade que destituía homens e mulheres da dignidade que lhes é conferida por Deus. Ele pregou e deu a sua vida por um Reino de Justiça, de amor e de paz, um mundo onde todos se sentissem em casa independentemente da sua origem, da sua raça, da sua cor de pele, da sua origem social e do seu nível de educação. Para participar na cruz de Jesus, portanto, não se trata apenas de aceitar ou resignar-se à vida como ela é; trata-se antes de erguer-se e clamar por um mundo mais humano e mais igual, e estar pronto para sofrer as consequências. Jesus convidou-nos não apenas a “arrastar” a nossa cruz, mas a “abraçá-la”, assumindo uma decisão consciente de segui-Lo no ato de desafiar tudo aquilo que priva as pessoas da plenitude das suas vidas e da sua dignidade, dada por Deus. Ser um seguidor de Cristo significa estar preparado para denunciar o mal sob todas as formas, contra o egoísmo, a cobiça, contra a injustiça, contra a manipulação e exploração dos outros, lutando contra a presença desses males nas nossas próprias vidas. “Jesus estará em agonia até ao fim do mundo; não podemos dormir até esse momento”, disse o famoso filósofo, Pascal.

Em segundo lugar, Jesus convida-nos a perder a nossa vida, para a podermos encontrar, a pô-lo a Ele e ao Seu Evangelho à frente das relações familiares, à frente da aceitação social e à frente do nosso conforto e segurança pessoais. É um convite a situar os interesses e as necessidades dos outros antes dos nossos próprios interesses e necessidades, quer sejam eles pessoais, familiares, comunitários, tribais ou nacionais. Vivemos hoje num mundo muito egoísta, onde as pessoas estão cegas ou indiferentes às necessidades dos outros: um mundo focado no eu, no “número um”, como dizem os americanos – na salvaguarda do meu tempo e do meu espaço pessoais, na proteção da nossa vizinhança ou das nossas fronteiras nacionais, excluindo o estrangeiro que vem buscando refúgio, abrigo ou até aceitação.

A imagem que somos chamados a imitar é a de Jesus na cruz, com os braços abertos para os outros, mesmo no meio das nossas próprias dificuldades e lutas. Tal como o casal da primeira leitura de hoje, temos que estar disponíveis para suspender a nossa privacidade e a tranquilidade das nossas vidas para chegar aos outros e cuidar deles. Se fizermos isso, iremos descobrir que isto leva ao enriquecimento mútuo e que, no final, recebemos muito mais do que recebemos. As leituras lembram-nos que há afinal poucas coisas importantes –uma cama, um candeeiro, uma mesa, um copo de água… As palavras do Papa Francisco, tal como o exemplo inspirador de muitos espiritanos que nos antecederam, recordam-nos que “a vida cresce sendo oferecida e enfraquece pelo isolamento e pelo conforto. Na verdade, aqueles que mais usufruem da vida são aqueles que deixam a segurança de lado e se entusiasmam pela missão de comunicar a vida aos outros… isto é certamente o que a missão significa”.

Em segundo lugar, Jesus convida-nos a perder a nossa vida, para a podermos encontrar, a pô-lo a Ele e ao Seu Evangelho à frente das relações familiares, à frente da aceitação social e à frente do nosso conforto e segurança pessoais. É um convite a situar os interesses e as necessidades dos outros antes dos nossos próprios interesses e necessidades, quer sejam eles pessoais, familiares, comunitários, tribais ou nacionais. Vivemos hoje num mundo muito egoísta, onde as pessoas estão cegas ou indiferentes às necessidades dos outros: um mundo focado no eu, no “número um”, como dizem os americanos – na salvaguarda do meu tempo e do meu espaço pessoais, na proteção da nossa vizinhança ou das nossas fronteiras nacionais, excluindo o estrangeiro que vem buscando refúgio, abrigo ou até aceitação.

A imagem que somos chamados a imitar é a de Jesus na cruz, com os braços abertos para os outros, mesmo no meio das nossas próprias dificuldades e lutas. Tal como o casal da primeira leitura de hoje, temos que estar disponíveis para suspender a nossa privacidade e a tranquilidade das nossas vidas para chegar aos outros e cuidar deles. Se fizermos isso, iremos descobrir que isto leva ao enriquecimento mútuo e que, no final, recebemos muito mais do que recebemos. As leituras lembram-nos que há afinal poucas coisas importantes –uma cama, um candeeiro, uma mesa, um copo de água… As palavras do Papa Francisco, tal como o exemplo inspirador de muitos espiritanos que nos antecederam, recordam-nos que “a vida cresce sendo oferecida e enfraquece pelo isolamento e pelo conforto. Na verdade, aqueles que mais usufruem da vida são aqueles que deixam a segurança de lado e se entusiasmam pela missão de comunicar a vida aos outros… isto é certamente o que a missão significa”.

A vida cresce sendo oferecida e enfraquece pelo isolamento e pelo conforto. Na verdade, aqueles que mais usufruem da vida são aqueles que deixam a segurança de lado e se entusiasmam pela missão de comunicar a vida aos outros… isto é certamente o que a missão significa

Papa Francisco

Depois do jantar, a Família voltou a juntar-se para a recitação do terço e a procissão de velas no recinto.

Finalmente, a nossa tradição espiritana e o facto de estarmos a celebrar este acontecimento no centésimo aniversário das aparições de Fátima, convidam-nos a colocar o futuro da nossa caminhada missionária como indivíduos e como província sob o patrocínio de Maria cujo coração apostólico foi tão integralmente oferecido à Missão do Seu Filho. A vida de Maria foi uma peregrinação de fé, lutando para perceber a vontade de Deus nos acontecimentos frequentemente confusos da sua vida diária, mas foi uma caminhada de fé na qual ela nunca soçobrou, por muito obscuro que o caminho pudesse parecer. O nosso “sim” a Deus no nosso batismo e na nossa profissão levar-nos-á, como a Maria, por diferentes viagens, algumas das quais nunca poderíamos ter previsto. Também nós, como Maria, temos que lutar para perceber a vontade de Deus nas nossas vidas, por vezes no meio de sofrimento e incerteza. Tal como no caso de Maria, temos que renovar o nosso “sim” diário a Deus, o nosso compromisso com a missão de Jesus, para assumir cada dia pequenas decisões concretas, esquecendo-nos de nós mesmos e tocando os outros. Maria não apenas percorreu o caminho antes de nós, mas acompanha-nos na nossa viagem. Ela nos dá força para ponderar e estimar a Palavra do Seu Filho nos nossos corações, ela nos dá coragem para prosseguir quando o caminho está longe de ser claro, e estamos certos de que nos encontraremos com ela para partilhar a vitória de Jesus sobre a morte, se, como ela, formos fiéis até ao fim.

Que a comemoração do acontecimento que celebramos hoje aprofunde a nossa consciência da nossa vocação como espiritanos, para tocar e partilhar as vidas daqueles que estão nas periferias da sociedade contemporânea, dando-lhes esperança e dignidade. Que nos possa dar, tal como deu aos que nos precederam, a coragem de abrir “novas áreas para Deus”, nos nossos corações, nas nossas comunidades e na nossa congregação.

P. John Fogarty

Que a comemoração do acontecimento que celebramos hoje aprofunde a nossa consciência da nossa vocação como espiritanos, para tocar e partilhar as vidas daqueles que estão nas periferias da sociedade contemporânea, dando-lhes esperança e dignidade.

P. John Fogarty