7. Desafios de um novo Jubileu

Com o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, o Papa Francisco concentra toda a atenção sobre o Deus Misericordioso, que convida todos os homens e mulheres para a Ele se voltar. Neste encontro com Deus, inspirado profundamente numa virtude da misericórdia, a Igreja Católica dá ao Jubileu Hebraico um significado mais espiritual que consiste num perdão geral, numa indulgência aberta a todos, bem como a possibilidade de reavivar o relacionamento com Deus e com o próximo. Assim, o Ano Santo é uma oportunidade para aprofundar a fé e vivê-la com um compromisso renovado e renovador de testemunho cristão.

Ano jubilar

A tradição do ano jubilar está radicada no Antigo Testamento. O Livro do Levítico exortava aos Israelitas a contar sete semanas de anos, isto é, sete vezes sete anos, de forma que a duração destas sete semanas de anos correspondesse a quarenta e nove anos... O quinquagésimo ano seria o ano do jubileu. No decurso deste ano, cada um recebia a sua propriedade sem prejudicar o seu próximo; os escravos eram libertados; qualquer terra vendida era devolvida aos seus proprietários originais e os devedores eram perdoados das suas dívidas (cf. Lev 25, 8-17).

O objetivo era salvaguardar a dignidade e a liberdade humana. Isso significava tão só que o domínio é do Senhor. Tudo isso impedia que alguma pessoa fosse à propriedade de outra e que a terra fosse, efetivamente, vendida, mas dada até ao próximo ano jubilar. Tal observância significava, em termos práticos, que tudo a Deus pertencia: as pessoas e os seus haveres.

O Evangelho de Lucas relata que Jesus iniciou o seu ministério público com a leitura de uma passagem de Isaías na sinagoga de Nazaré, em que o profeta diz que foi enviado pelo Senhor “para anunciar a Boa-Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos, a mandar em liberdade os oprimidos e a proclamar um ano da graça favorável da parte do Senhor”, (4,19).

Um ano jubilar é, portanto, um ano especial declarado pela Igreja para receber a bênção, o perdão de Deus e a remissão dos pecados. A Igreja Católica tem proclamado ano do jubileu cada 25 ou 50 anos, desde o ano 1300 e tem também celebrado ano do jubileu especial, como este, de vez em quando, conhecido como anos de jubileu extraordinários.

A novidade e o porquê deste Jubileu

A Igreja é sempre chamada a oferecer sinais mais evidentes da presença e proximidade de Deus, especialmente nos momentos de grandes mudanças históricas e ideológicas como o nosso. Este é um momento para a Igreja redescobrir o sentido da missão que lhe foi confiada pelo Senhor no dia de Páscoa: ser um sinal e instrumento da misericórdia do Pai (Jo 20, 21-23). Por esta razão, o Ano Santo deve manter vivo o desejo de saber acolher os numerosos sinais de ternura que Deus oferece ao mundo inteiro e, acima de tudo, para aqueles que sofrem, que estão sós e abandonados, sem esperança de perdão ou de amor do Pai. Na homilia durante a missa de anuncio de ano da graça, o Papa Francisco afirmou que esperava que esse ano de misericordia fosse um tempo em que os católicos encontrassem a alegria de redescobrir e tornar fecunda a misericórdia de Deus, no consolo a cada homem e cada mulher do nosso tempo.

Talvez, a maior novidade é a afirmação que o Santo Padre faz em relembrar-nos que a justiça de Deus passa pela sua misericórdia. Aquele tipo de misericórdia com que ‘Jesus olhou Mateus com amor misericordioso e escolheu-o: miserando atque eligendo’. (MV, nº8)

Contudo, a misericórdia de Deus é gratuita, mas não barata.

O novo Jubileu desafia-nos a:

  • Ter um amor entranhado que move e um amor platónico não interesseiro.
  • Possuir um coração pequeno e pobre que se encaixa em tudo que é sítio e situação.
  • Abeirar-se das situações com um coração que não fica de fora.
  • Fazer da misericórdia o fim e a fonte dos nossos comportamentos para com os outros e não nos limitarmos a sermos educados, diligentes e corretos com as pessoas.
  • Aceitar o perdão. Quando Deus nos perdoa, devemos aceitá-lo e, em seguida, segundo o Evangelho, devemos sair para fazer o mesmo. Não chega dizer “Amém, assim seja!” mas saiamos e perdoemos outras pessoas (Mt 18, 21-35). É este o maior desafio.

Pistas de reflexão

  • Como encarnar o espirito de Jubileu para a vida quotidiana?
  • Como aceitar o facto de sermos perdoados?

Compromisso

Tornemos a nós mesmos sinal eficaz de agir do Pai (MV, nº3).

Vivamos a misericórdia de Deus não como uma ideia abstrata mas uma realidade concreta (MV, nº6).

Deixemos de lado o ressentimento, a raiva, a violência, e a vingança (MV, nº9).

Viabilizemos a misericórdia onde a Igreja estiver presente: nas paróquias, comunidades, associações e movimentos (MV, nº12).

Comprometamo-nos a fazer a experiência de abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais e não nos deixemos cair na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espirito e impede de descobrir a novidade (MV, nº15).

Favorecer o encontro com outras nobres tradições religiões (MV, nº23).

Não podemos ser filhos de um Pai que é rico em misericórdia sem praticar a misericórdia.

P. Simon Ayogu