3. Missão e Vida Consagrada

O Papa Francisco propôs o Ano da Vida Consagrada, à Igreja inteira, a partir de um certo número de expetativas e dentro do contexto da Exortação Apostólica «A Alegria do Evangelho». Desde logo, ele lembra o que já uma vez dissera: «Onde estão os religiosos, há alegria». Esta é uma forma de dizer que a primeira missão da Vida Consagrada é o testemunho da alegria. A vocação à Vida Consagrada significa ser chamado a experimentar e mostrar que Deus é capaz de preencher o nosso coração e fazer-nos felizes sem necessidade de procurar noutro lugar a nossa felicidade; significa que a autêntica fraternidade vivida nas comunidades de consagrados/as alimenta a sua alegria; significa que a entrega total ao serviço da Igreja, das famílias, dos jovens, dos idosos, dos pobres realiza os consagrados/as como pessoas e dá plenitude às suas vidas. E o Papa exorta assim os consagrados/as: “Que entre nós não se vejam rostos tristes, pessoas desgostosas e insatisfeitas, porque «um seguimento triste é um triste seguimento”.

Palavra de Deus

Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, com medo das autoridades judaicas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!» Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o peito. Os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor. E Ele voltou a dizer-lhes: «A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.» 

Jo 20, 19-21

A Igreja cresce por atração e não por proselitismo

Enviados pelo Ressuscitado. Aterrados pela execução de Jesus, os discípulos refugiam-se numa casa conhecida. No grupo há um vazio que ninguém pode colmatar. Falta-lhes Jesus. São obscuros os traços que descrevem a situação dos discípulos sem Jesus: «está a anoitecer» em Jerusalém e no coração dos discípulos; com as «portas fechadas», isto é, são uma comunidade sem missão, fechada em si mesma; cheios de «medo das autoridades dos judeus», e, por isso, uma comunidade paralisada pelo medo.

E Jesus toma a iniciativa: entra em casa até com as portas fechadas: «entrou e ficou no meio deles»; traz a paz perdida: «a Paz esteja convosco»; ao verem as chagas de Jesus «ficaram contentes»; órfãos e sem mestre, agora têm o Ressuscitado. Ele exalou o seu alento (não impôs as mãos como aos doentes) e disse: «Como o Pai Me enviou, também Eu vos envio… Recebei o Espírito Santo». 

«Despertadores» do mundo. A radicalidade evangélica não é própria só dos religiosos: é pedida a todos. Mas os religiosos seguem o Senhor de uma maneira especial, de modo profético. Esta é a prioridade que se lhes requer: «ser profetas que testemunham como viveu Jesus nesta terra. Um religioso não deve jamais renunciar à profecia». Mosteiros, comunidades, centros de espiritualidade, escolas, hospitais, centros de acolhimento, missões longínquas… e todos aqueles lugares que a caridade e a criatividade carismática fizeram nascer – e ainda farão nascer -, devem tornar-se cada vez mais o fermento para uma sociedade inspirada no Evangelho, a «cidade sobre o monte» que manifesta a verdade e a força das palavras de Jesus.

Pistas de reflexão

  • A Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa. Qual nos parece que deve ser o contributo da Vida Consagrada nesta missão da Igreja?
  • Das Ordens ou Congregações Religiosas que conhecemos que `dons` de Missão e Misericórdia são oferecidos ao mundo e à Igreja?

Sair, com coragem, das próprias fronteiras

«Sair de si para ir às periferias existenciais». «Ide pelo mundo inteiro» foi a última palavra que Jesus dirigiu aos seus e que continua hoje a dirigir a todos nós (cf. Mc 16, 15). 

A missão dos discípulos de Jesus é a mesma que Ele recebeu de Seu Pai. Jesus não lhes diz a quem hão-de ir, o que hão-de anunciar, ou como hão de atuar. Serão no mundo o que Ele foi mas, naturalmente com criatividade, atentos aos sinais dos tempos e respondendo às necessidades dos homens e mulheres de hoje. Por isso necessitamos do Espírito do Ressuscitado.

A humanidade inteira aguarda: pessoas que perderam toda a esperança, famílias em dificuldade, crianças abandonadas, jovens a quem está vedado qualquer futuro, doentes e idosos abandonados, ricos saciados de bens mas com o vazio no coração, homens e mulheres à procura do sentido da vida, sedentos do divino...

«Peritos em comunhão». Ninguém constrói o futuro isolando-se, nem contando apenas com as próprias forças, mas reconhecendo-se na verdade de uma comunhão que sempre se abre ao encontro, ao diálogo, à escuta, à ajuda mútua e nos preserva da doença da autorreferencialidade.

Pistas de reflexão

  • A inventiva do Espírito Santo gerou, na Vida Consagrada, modos de vida e obras que foram e são manifestações da misericórdia de Deus. Que situações, estão a pedir hoje uma nova intervenção/missão dos/das consagrados/as?
  • A Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho que, por meio dela, deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa. Qual nos parece que deve ser o contributo da Vida Consagrada nesta tarefa da Igreja?

Compromisso

Diante de tantos «profetas da desgraça» queremos permanecer homens e mulheres de esperança: uma esperança que não se baseia nos nossos «carros e cavalos», isto é, nas nossas forças, nos nossos números, mas nAquele em quem colocámos a nossa confiança. NEle, ninguém nos roubará a nossa esperança. 

Neste Ano Santo extraordinário da Misericórdia queremos nós mesmos fazer a experiência de abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, que muitas vezes o mundo contemporâneo cria de forma dramática.

Queremos sentir-nos em particular comunhão com os/as consagrados/as, particularmente com os missionários/as, para que dêem um testemunho alegre da fé, exerçam a profecia, experimentem a excelência na comunhão fraterna, realizem o êxodo para as periferias existenciais e estejam atentos/as aos apelos do mundo de hoje.

P. Eduardo Miranda