19. A coragem do diálogo

Porque a misericórdia “ultrapassa as fronteiras da Igreja”, o Papa Francisco pede que “o Ano Jubilar nos torne mais abertos ao diálogo”, “elimine todas as formas de fechamento e desprezo e expulse todas as formas de violência e discriminação”. Na Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho” (EG) aponta a tristeza individualista como o grande risco do mundo atual. Por isso, para vencer o individualismo estéril, cada página nos convida à saída e ao encontro fecundo. Neste sentido, o caminho frequentemente apresentado é o do diálogo sincero e verdadeiro: a nível pessoal, familiar, pastoral, com os estados, com a sociedade, com o mundo da cultura e da ciência, com os outros crentes. Estes encontros só serão fecundos quando alimentados pelo diálogo de amor de Deus com o seu povo.

Palavra de Deus

Quando chegou o dia do Pentecostes, encontravam-se todos reunidos no mesmo lugar. De repente, ressoou, vindo do céu, um som comparável ao de forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde eles se encontravam.

Viram então aparecer umas línguas, à maneira de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes inspirava que se exprimissem.

Ora, residiam em Jerusalém judeus piedosos provenientes de todas as nações que há debaixo do céu. Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu-se e ficou estupefata, pois cada um os ouvia falar na sua própria língua.

Atónitos e maravilhados, diziam: «Mas esses que estão a falar não são todos galileus? Que se passa, então, para que cada um de nós os oiça falar na nossa língua materna? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia cirenaica, colonos de Roma, judeus e prosélitos, cretenses e árabes ouvimo-los anunciar, nas nossas línguas, as maravilhas de Deus!»

Act 2, 1-11

Pentecostes, hoje

O Pentecostes é frequentemente contraposto com o episódio da Torre de Babel (cf. Gen 11, 1-9). Na passagem do Génesis, vemos a humanidade – aparentemente muito segura de si – assumir o protagonismo da sua história e lançar-se num empreendimento megalómano, fechando-se entre muros de tijolo, fundados no seu orgulho e individualismo. O resultado foi o isolamento, a confusão e a dispersão. Nos Atos dos Apóstolos, assistimos a uma comunidade pequena e humilde a ser cheia do Espírito Santo, daquele Espírito que brota do diálogo mais profundo de amor entre o Pai e o Filho, no Mistério Pascal. O resultado foi a comunhão. Não ficaram todos a falar na mesma língua. Mas a palavra era entendida por cada diferente povo, na sua língua e cultura próprias.

Na nossa missão, somos chamados a viver este Pentecostes. Mesmo que não aconteça de forma tão imediata, acontece de forma igualmente maravilhosa. Acontece quando somos capazes de deixar para trás a bagagem de preconceitos e mergulhar no coração daqueles a quem anunciamos as maravilhas de Deus. Assim, a palavra é anunciada e testemunhada de uma forma que é entendida e que diz respeito à vida de quem a escuta. Não é fácil chegar à missão e não poder pregar imediatamente. Temos de aprender línguas e entender culturas. Mas não é perda de tempo. Pelo contrário, ajuda-nos a perceber que o diálogo é parte indispensável do anúncio, e que a escuta é parte indispensável do diálogo.

Os Atos dos Apóstolos não são guiados por uma cartilha gravada em pedra, mas pelo Espírito Santo, seu verdadeiro protagonista. Assim, nos momentos de conflito ou incerteza – como foi a questão do rito mosaico entre os gentios (cf Act 15) – foi no caminho do diálogo verdadeiro que perceberam os caminhos de Deus através da inculturação do Evangelho.

Pistas de reflexão

  • No nosso grupo, como gerimos os nossos conflitos e as nossas diferenças de opinião? Costumamos invocar o Espírito Santo no início das reuniões?
  • De que forma é que a nossa linguagem e testemunho pode ser entendida mais claramente pela sociedade (não apenas o círculo mais próximo do nosso grupo ou da nossa igreja)?

Escutar e falar com o coração

Há alguns anos, os bispos da Ásia convidaram as suas comunidades a refletir sobre os desafios do relativismo e fundamentalismo para a juventude de hoje. As duas doutrinas parecem opostas, mas convergem num ponto comum: ambas afastam a possibilidade de diálogo. E o perigo está precisamente aí.

No Evangelho de João, Jesus define-se de forma incontornável: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por Mim” (Jo 14, 6). Mas, no mesmo Evangelho, apresenta-se através de diálogos abertos, em encontros altamente improváveis, como nos casos de Nicodemos (cf. Jo 3, 1-21) ou da Samaritana (cf. Jo 4, 1-41).

Escutei uma vez alguém dizer: “nós, cristãos, dizemos que Jesus é a resposta. Está bem. Mas qual é a pergunta!?”. A evangelização e cuidado pastoral, despidos de diálogo, são estéreis. A própria liturgia é, como diz o Papa, um diálogo de amor de Deus com o seu povo: “Aquele que prega deve conhecer o coração da sua comunidade para identificar onde está vivo e ardente o desejo de Deus e também onde é que este diálogo de amor foi sufocado ou não pôde dar fruto” (EG 137).

“A Igreja é chamada a ser servidora dum diálogo difícil” (EG 74), nomeadamente nos meios urbanos, entre gerações e nas relações com os não-cristãos. Não se trata de caminhar para um sincretismo conciliador ou abertura diplomática que diga sim a tudo para evitar problemas. “A verdadeira abertura implica conservar-se firme nas próprias convicções mais profundas, com uma identidade clara e feliz, mas disponível para compreender as do outro e sabendo que o diálogo pode enriquecer a ambos… Longe de se contraporem, a evangelização e o diálogo inter-religioso apoiam-se e alimentam-se reciprocamente” (EG 251).

Pistas de reflexão

  • Quando falo de Deus aos outros, que valor dou à escuta? É um monólogo ou um diálogo?
  • Como me relaciono com os não-cristãos? Sigo o caminho do fundamentalismo, indiferença ou diálogo?

Compromisso

O diálogo e a unidade verdadeiros são obra do Espírito Santo. Ele nos ensina o caminho de seguimento de Cristo e possibilita que cada pessoa entre em diálogo com Deus e com os seres humanos. Pelo Espírito, podemos chamar a Deus de Pai. Conscientes desta nossa identidade, olhamos em volta, mesmo para aquele que pensa de maneira diferente, e não vemos uma ameaça mas um irmão. Quanto mais a nossa relação com Deus for um diálogo de misericórdia, assim será também a nossa Missão.

P. Victor Silva