17. Ir às periferias e às margens

 

O Papa Francisco na sua mensagem para o dia mundial das missões, recorda-nos que o Espírito Santo, como o principal motor da missão, continua hoje a sussurrar aos nossos corações: “vem” e “vai”. Dentro deste apelo, podemos questionar-nos: aonde ir e ao encontro de quem?

Palavra de Deus

O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor.

Lc 4, 18-19

Para chegar à outra margem é preciso fazer-se ao largo

Para abraçar o projeto de salvação e libertação da humanidade, Jesus deixa a direita do Pai e vem ao encontro dos homens. Para cumprir essa missão, o Verbo encarna, aceitando viver a nossa fragilidade e as nossas dores. A sua missão é o espelho da misericórdia de Deus que socorre, cura e revivifica a humanidade ferida pelo pecado e pelo desamor. De olhos nos olhos, falando de coração a coração, Jesus vai respondendo às misérias humanas, como o verdadeiro Messias. Ele não fica no Seu trono, esperando que os marginalizados e os pobres de Israel saiam ao Seu encontro, pelo contrário, Ele vai pelas estradas e pelos montes, pelas cidades e pelas aldeias, às periferias da sociedade judaica.

Mas, Jesus vai ainda mais longe, Ele encoraja os seus discípulos a fazerem-se ao largo, a irem para a outra margem. Um desafio que nos é colocado também hoje, pois, partir em direção à outra margem, atravessando o mar, significa partir e avançar ao encontro do outro, daquele que mesmo sendo-me desconhecido é o meu próximo, é ter misericórdia com o irmão que o Senhor colocou no meu caminho. Esta travessia é passar as fronteiras que separam a humanidade, fronteiras que deixaram de ser geográficas, para passarem a ser as fronteiras das divergências culturais e religiosas, do sofrimento e da marginalidade social. Mas esta travessia não é serena, nela encontraremos muitas tempestades, ventos fortes e ondas poderosas que abanarão a nossa barca e muitas vezes nos levarão a duvidar do caminho escolhido (Cf Lc 8). O importante é saber que na nossa barca vai Cristo e que se formos fieis ao apelo feito pelo Senhor, tudo podemos suplantar. Somos chamados a ser instrumento e testemunhas da misericórdia divina, no meio de alguma incompreensão, medo, preconceito, egoísmo e indiferença. Perante estes obstáculos, nós devemos responder com fé, coragem, criatividade, alegria e generosidade.

Pistas de reflexão

  • Que dificuldades me levam a duvidar e a não ultrapassar as fronteiras que me impedem de chegar aos irmãos?
  • Que podemos propor e fazer para ajudar a nossa comunidade a fazer-se ao largo?

Coração que sente é um coração que sabe amar

Sair ao encontro das periferias, é sair ao encontro de Cristo. Como foi descrito por Mateus, Jesus afirma aos justos:” Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes” (Mt 25, 40). Jesus exorta-nos a sair da nossa indiferença e ter atitudes de misericórdia para com os irmãos mais pequenos, que se encontram em situações dramáticas de necessidade e de marginalização - os que têm fome, os que têm sede, os peregrinos, os que não têm que vestir, os que estão doentes, os que estão na prisão – aqueles com o qual Cristo se identifica e manifesta amor e solidariedade. Cristo alerta-nos a todos para o perigo de viver na incoerência do amor, ou seja, dizer que se ama a Deus e esquecemo-nos dos irmãos. Pois, como diz a primeira carta de João, quem disser “«Eu amo a Deus», mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso” (1 Jo 4, 20).

Para realmente amar é preciso conhecer, para conhecer é preciso relacionar, aproximar, sair de si e ir ter com o irmão que sofre. Sejamos nós também como o bom samaritano (Lc 10, 29-37), que não hesita em dar o que é seu, para cobrir os custos de ter ajudado o irmão. A misericórdia não tem medo de se aproximar dos “leprosos” dos nossos tempos, ela não receia a contaminação, o que a move é o bem do outro. Perante a misericórdia não há rótulos, apenas homens, que merecem o melhor de nós mesmos. É a estes excluídos e marginalizados, que Deus olha com maior carinho e nos envia como mensageiros dessa misericórdia humanizante, que restaura o caído, liberta o oprimido, que cura e perdoa o coração ferido pelo pecado e dá esperança ao pobre. O mundo não ouve, mas esses marginalizados gritam silenciosamente e a sua voz chega ao coração de Deus e aos ouvidos de todos aqueles que abraçam o Seu amor.

Pistas de reflexão

  • Vivo de pés bem assentes na terra, atentos à realidade que me rodeia e preocupado em construir, desde já, um mundo de justiça, de fraternidade, de liberdade e de paz?
  • Sinto o dever de ser a “luz” que se acende na noite do mundo e o “sal” que dá sabor ao insípido de vidas esquecidas, num testemunho do amor e da misericórdia de Deus?

Compromisso

Ir às periferias e às margens, inicia-se com uma experiência contemplativa, por meio da “oração de intimidade”, mergulhando no Amor que brota do coração de Deus. Se essa experiencia for genuína, sentimos a necessidade de irradiar este amor entre os irmãos. Comprometamo-nos a tornar possível esse encontro entre o nosso coração e o coração de Deus, pela Eucaristia, na oração, na contemplação e a traduzir esse encontro em gestos efetivos para com os nossos irmãos mais excluídos e marginalizados. Aqueles que o mundo marginaliza, não podem ser excluídos do nosso coração nem da nossa oração.

António Mosso