13. Obras de Misericórdia – Corporais

Ser misericordioso e viver a misericórdia concretiza-se no mandamento do amor apresentado por Jesus Cristo. Este amor só pode ser concreto e visível, efectivo e não simplesmente afectivo, operante e prático, e não só íntimo e inexpressivo. A Carta de Tiago é muito clara ao recordar que a fé sem obras está «completamente morta»: «De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras? Acaso essa fé poderá salvá-lo?»

Palavra de Deus

Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há-de sentar-se no seu trono de glória. Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os cabritos.

O Rei dirá, então, aos da sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo.’

Mt 25, 31-36

A Misericórdia em Ação

O Antigo Testamento já tinha enumerado algumas das obras visíveis da caridade, que constituem atos de libertação do pobre e do necessitado: «repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus» (Is 58, 7).

O Novo Testamento encontra, na página do Juízo Universal de Mateus (Mt 25, 31-46), uma exemplificação e uma lista de seis gestos de caridade que, se forem feitos a um pobre, a um pequeno, são feitos, de facto, ao próprio Jesus Cristo.

A elaboração doutrinal duma «lista» das obras de misericórdia, que hoje conhecemos como expressões da unidade profunda entre a fé e a caridade, longe de querer esgotar as possibilidades da misericórdia, deve ser acolhida como um desafio à criatividade do crente no concreto da história, para que a caridade não seja apenas um gesto «bom», mas também «profético».

1ª - Dar de comer a quem tem fome

“Dai-nos hoje o nosso pão de cada dia” (Mt 6,11)

Pedir o pão a Deus implica assumir a responsabilidade por quem não tem pão. Deus dá o pão ao homem através do homem: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mc. 6, 37). Comer é mais do que encher a barriga: preparar a mesa, preparar o alimento, comer com os outros…partilhar a mesa da criação inteira… Jesus sentiu a mordedela da fome (Mt. 4, 2; Mc. 11, 2), foi servido à mesa e comeu o alimento que outros prepararam para ele. A alimentação é um direito universal (artigo 25 da Declaração dos Direitos Humanos).

“Em muitos países pobres, continua — com risco de aumentar — uma insegurança extrema de vida, que deriva da carência de alimentação: a fome ceifa ainda inúmeras vítimas entre os muitos Lázaros, a quem não é permitido — como esperara Paulo VI — sentar-se à mesa do rico avarento.” (Bento XVI, Encíclica social Caritas in Veritate - A Caridade na verdade)

Dar de comer aos famintos é um imperativo ético para toda a Igreja, que é resposta aos ensinamentos de solidariedade e partilha do seu Fundador, o Senhor Jesus.

Além disso, eliminar a fome no mundo tornou-se, na era da globalização, também um objetivo a alcançar para preservar a paz e a subsistência da terra.

2ª - Dar de beber a quem tem sede

“E quem der de beber a um destes pequeninos, ainda que seja somente um copo de água fresca, por ser meu discípulo, em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa” (Mt.10,42)

“Um problema particularmente sério é o da qualidade da água disponível para os pobres, que diariamente ceifa muitas vidas. Entre os pobres, são frequentes as doenças relacionadas com a água, incluindo as causadas por micro-organismos e substâncias químicas. A diarreia e a cólera, devidas a serviços de higiene e reservas de água inadequados, constituem um factor significativo de sofrimento e mortalidade infantil”. (Francisco, Encíclica Laudato Si nº 29)

3ª - Dar pousada aos peregrinos

Nos tempos antigos dar pousada aos viajantes era um assunto de vida ou de morte, pelas dificuldades e riscos das caminhadas e viagens. Hoje já não é assim. Mas, de todo o modo, poderia acontecer recebermos alguém em nossa casa, não por pura hospitalidade de amizade ou família, mas por alguma verdadeira necessidade. É o desafio do verdadeiro acolhimento do outro.

4ª - Vestir os nus

Esta obra de misericórdia dirige-se a aliviar outra necessidade básica: o vestuário. Muitas vezes é-nos proporcionada com as recolhas de roupa que se fazem nas paróquias e noutros centros. Ao entregar a nossa roupa é bom pensar que podemos dar o que nos sobra ou já não nos serve, mas também podemos dar do que ainda nos é útil, o que tem muito mais valor. Como não recordar tantas Instituições que procuram dar agasalho a quem dele precisa.

5ª - Assistir os doentes

Trata-se de uma verdadeira atenção para com os doentes e idosos, tanto no aspecto físico, como em lhes proporcionar um pouco de companhia.

O melhor exemplo da Sagrada Escritura é o da parábola do Bom Samaritano que curou o ferido e, ao não poder continuar a cuidar dele diretamente, confiou os cuidados que necessitava a outro em troca de pagamento (Lc 10, 30-37).

Hoje, a pastoral da saúde, na assistência aos doentes é uma verdadeira pastoral da misericórdia.

6ª - Enterrar os mortos

Cristo não tinha lugar onde repousar. Foi um amigo, José de Arimateia, que lhe cedeu o seu túmulo. Mas, não apenas isso, teve a valentia para se apresentar ante Pilatos e pedir-lhe o corpo de Jesus. Nicodemos também participou e ajudou a sepultá-lo. (Jo 19, 38-42)

Enterrar os mortos parece um mandamento supérfluo, porque, de facto, todos são enterrados. Mas, por exemplo, em tempo de guerra, pode ser um mandamento muito exigente. Por que é importante dar sepultura digna ao corpo humano? Porque o corpo humano foi morada do Espírito Santo. Somos templos do Espírito Santo (1 Cor 6, 19).

Pistas de reflexão

  • Como é que eu posso viver mais em pleno as obras de misericórdia corporais?
  • Na família, na paróquia e no grupo, o que poderemos fazer de concreto para dar resposta ao exercício da nossa caridade no cuidado ao irmão?

Pedir perdão

«Deus não se cansa de estender a mão.» É uma das frases preferida do Papa. Convida-nos a mediatar a oração do Pai-Nosso, com a firme certeza que Deus perdoa sempre mas cansamo-nos de lhe pedir perdão. Todavia, o Papa ressalva um pormenor muito importante: «Pedir perdão é outra coisa, é diferente de pedir desculpa. Eu erro? Mas me desculpe, errei… Pequei! Não tem nada a ver uma coisa com outra. O pecado não é um simples erro. O pecado é idolatria, é adorar o ídolo, o ídolo do orgulho, da vaidade, do dinheiro, do “eu mesmo, do bem-estar… Tantos ídolos que nós temos. E, por isso, Azarias não pede desculpas: pede perdão”. Recorda o Papa que diante da visão duma justiça como mera observância da lei, que julga dividindo as pessoas em justos e pecadores, Jesus procura mostrar o grande dom da misericórdia que busca os pecadores para lhes oferecer o perdão e a salvação. O pedido do perdão deve ser feito com sinceridade, e concedido de coração a quem ofendeu. Na parábola do «servo sem compaixão» o senhor deixou-se tocar pela compaixão diante das súplicas de um dos seus servos e perdoa-lhe uma grande dívida.

Quais os caminhos para pedir perdão? O Papa retoma num primeiro momento as próprias palavra de Cristo: «Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e ser-vos-á dado: uma boa medida, cheia, recalcada, transbordante será lançada no vosso regaço. A medida que usardes com os outros será usada convosco».

No segundo momento apresenta a importância do sacramento da reconciliação com o apelo especial aos pastores. Afirma o Papa: «a palavra do perdão possa chegar a todos e a chamada para experimentar a misericórdia não deixe ninguém indiferente». E continua: «Seja-lhes pedido que celebrem o sacramento da Reconciliação para o povo, para que o tempo de graça, concedido neste Ano Jubilar, permita a tantos filhos afastados encontrar de novo o caminho para a casa paterna. Os pastores, especialmente durante o tempo forte da Quaresma, sejam solícitos em convidar os fiéis a aproximar-se do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e encontrar graça».

Compromisso

Nas obras de misericórdia corporais não precisamos de filosofar ou dissertar com teorias. Precisamos sim de ação e de compromisso por um mundo melhor. Por vezes são gestos simples que manifestamos a grandeza do nosso coração. Temos de ter a ousadia necessária para concretizar estas obras corporais nos nossos próximos, sobretudo nos irmãos mais pobres, afastados e carentes do essencial.

P. Nuno Miguel Rodrigues