1. Anunciar a Alegria do Evangelho

O Papa Francisco faz-nos contínuas visitas guiadas às periferias da nossa história, apontando novos caminhos à Missão: quer pastores que ‘cheirem’ às suas ovelhas; quer cristãos preocupados com as periferias e as margens; não quer sorrisos de hospedeiras de bordo; não aprova os cristãos de pastelaria nem os que dizem o credo como papagaios; quer que celebremos com mais entusiasmo a Fé do que um golo do nosso clube de futebol! Quer-nos discípulos missionários.

Palavra de Deus

Levantou-se, então, um doutor da Lei e perguntou-lhe, para o experimentar: «Mestre, que hei-de fazer para possuir a vida eterna?» Disse-lhe Jesus: «Que está escrito na Lei? Como lês?»

O outro respondeu: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.» Disse-lhe Jesus: «Respondeste bem; faz isso e viverás.»

Mas ele, querendo justificar a pergunta feita, disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?» Tomando a palavra, Jesus respondeu:

«Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante.

Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: ‘Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.’ Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?»

Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele.» Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo.»

(Lc 10, 25-37)

Primeirear

A ‘Alegria do Evangelho’ traduz bem o sentido pastoral do Papa Francisco e veio acrescentar festa à Missão. É mesmo um documento missionário (publicado em 2013), a juntar-se ao ’Ad Gentes’ do Vaticano II (1965), à ‘Evangelii Nuntiandi’ (1975) de Paulo VI e à ‘Redemptoris Missio’ (1990) de João Paulo II. Dá gosto ler de fio e pavio pois, em cada virar de página, Francisco vem surpreender-nos com mais uma imagem, uma ideia, uma denúncia, uma proposta.

‘Primeirear’, ou seja, ‘tomar a iniciativa’ deve ser uma das imagens de marca dos missionários hoje (nº24). Nós somos convidados por Francisco (e, antes dele, por Cristo) a sermos ‘Igreja em saída’, na rua, a partilhar a sorte, a má sorte de todos, sobretudo dos pobres, mesmo sujando as mãos (nº20).

Se me permitem uma síntese rápida desta ‘obra-prima da Missão’, começaria pelo fim. Francisco faz apelo a uma Espiritualidade profunda que nos permita ler o coração de Deus. Volto ao início, onde o Papa pede um estilo de vida simples e uma humildade que nos ajude a concluir que somos frágeis e falhamos. Por isso, torna-se urgente cuidar da nossa conversão permanente, a ‘reforma’ que tem que ser sempre numa perspetiva missionária. Francisco fala de uma Igreja em saída, com as portas abertas, sempre em direção às periferias (EG, nº46) onde há que cuidar daqueles a quem os sistemas económicos, políticos e sociais matam. Temos de cuidar dos pobres, ‘ressuscitando-os’ para a vida social e eclesial, pois ‘há um sinal que nunca deve faltar: a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e lança fora’ (EG, nº195).

Pistas de reflexão

  • O que pode ser hoje, no mundo, na Igreja e no nosso Movimento, ‘primeirear’?
  • Somos já uma ‘Igreja em saída’? Por onde temos que continuar a fazer caminho?

As periferias e margens

Ao percorrer, uma por uma, as páginas desta ‘Exortação Apostólica’ somos confrontados com a humildade de um Papa que se sente frágil, sem palavras que fechem a reflexão. Apresenta-se como um que caminha com todos, sempre à procura dos sinais inspiradores do Espírito Santo e com uma atenção redobrada aos pequenos e aos pobres. Sim, ele quer uma Igreja pobre e para os pobres, uma família onde todos tenham lugar, vez e voz, uma Comunidade sempre em conversão (reforma), um ‘governo’ da Igreja mais descentralizado e com mais lugar para a mulher, o jovem e os leigos em geral.

Francisco aposta ainda em temas grandes como a inclusão social dos pobres, o compromisso pela paz e pelo diálogo social. Insiste na dimensão espiritual da nossa vida e da nossa Missão...

Gostava mesmo muito de salientar que parte significativa da Exortação é um apelo ao diálogo, à solidariedade, à partilha, à justiça, à paz, ao respeito pelos direitos humanos e pela ecologia (Sobre o grande tema da relação entre os humanos e a natureza, temos que aprofundar a encíclica publicada pelo Papa Francisco a 18 de Junho de 2014). Francisco quer ‘evangelizadores que se abrem sem medo à ação do Espírito Santo’ (EG, nº259).

E, sobretudo, o Papa quer cristãos otimistas, felizes e abertos ao futuro, não ‘múmias de museu’ (EG, nº83), mas ‘discípulos missionários’ (EG, nº120).

Pistas de reflexão

  • Como identificamos hoje as periferias e as margens?
  • Encontramos razões para sermos otimistas, enquanto discípulos missionários?

Compromisso

Não nos deixemos roubar o entusiasmo missionário! (nº80).

Não deixemos que nos roubem a alegria da evangelização! (nº83).

Não deixemos que nos roubem a esperança! (nº86); Não deixemos que nos roubem a comunidade! (nº92); Não deixemos que nos roubem o Evangelho! (nº97); Não deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno! (nº101); Não deixemos que nos roubem a força missionária! (nº109).

Ousemos ser ‘discípulos missionários’ nos terrenos que os nossos pés pisarem, nas relações que formos construindo, nas comunidades / grupos de que fazemos parte.

P. Tony Neves