Vocação à santidade

A verdadeira santidade tem pouco a ver com uma espiritualidade angelizante ou espiritualizante, traduzida em "almas puras": ela transforma o nosso ser, em todas as suas dimensões, em morada da Santíssima Trindade: "o templo de Deus é santo, e vós sois esse templo".

"Ajuda-me a amar o inimigo" (Desenho de Patxi Fano)

7º Domingo do Tempo Comum 

A santidade, melhor dito: a vocação à santidade, é um dos temas que atravessa todo o Antigo Testamento (cf. livro doLevítico), é a espinha dorsal do Novo (Cristo, Pedro, Paulo) e acompanha a Igreja ao longo dos tempos, como se encarregou de nos recordar recentemente o Concílio Vaticano II: “Todos, na Igreja, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: ‘Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação’... É, pois, bem claro que todos os fiéis, seja qual for o seu estado ou classe, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade” (LG 39-40).

E este chamamento nem sequer é apresentado como um convite ou uma proposta para os que desejarem alcançar a perfeição, mas como uma ordem, uma exigência para quem aceita percorrer os caminhos da salvação: “sede santos” (Levítico), “sede perfeitos” (Jesus Cristo), “sede santos em todas as vossas ações” (Pedro), “como eleitos de Deus, santos e queridos, revestivos…”(S. Paulo).

Convém, no entanto, purificar o conceito de santidade, tantas vezes ainda identificada e reduzida a uma prática assídua aos atos religiosos ou confundida com a quantidade de orações rezadas ou, até, bichanadas, quando a verdadeira santidade envolve todo o nosso ser e toda a nossa vida, nas 24 horas de cada dia. A verdadeira santidade tem pouco a ver com uma espiritualidade angelizante ou espiritualizante, traduzida em "almas puras": ela transforma o nosso ser, em todas as suas dimensões, em morada da Santíssima Trindade: "o templo de Deus é santo, e vós sois esse templo".

Por isso, para além da continuidade acima referida, Cristo introduz um salto qualitativo no conteúdo da santidade, elevando-a do minimalismo do ‘não matarás’, ‘não roubarás’, ‘não cobiçarás o alheio’, ‘não levantarás falso testemunho’, duma justiça bem controlada (“olho por olho”, “dente por dente”) e de um clubismo fem fechado (“amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo”) aos píncaros do “amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem”!

É que, agora, a medida já não é “sede santos porque o vosso Deus é santo”, mas “sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”! É esta medida que nos fará passar do “que mal tem isto?” ou “toda a gente assim faz” para a preocupação em sabermos em cada momento e em cada circunstância o que mais agrada a Deus! 

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