Vivos mortos e mortos vivos

Era mesmo inevitável que, nesta caminhada para a ressurreição, fôssemos confrontados com a morte, ou, melhor, com as mortes!

Ressurreição de Lázaro (Vie de Jésus Mafa)

5º Domingo da Quaresma 

A caminhada quaresmal que a Palavra de Deus nos propõe como preparação para a Páscoa é constituída por etapas e por graus. Paralelamente às etapas que os Catecúmenos vão fazendo e vamos acompanhando, também nós os cristãos somos convidados a refazer a nossa caminhada batismal, assente na renovação e aprofundamento da nossa Fé.

É sobretudo nos textos do evangelho de S. João que esta caminhada progressiva se torna mais palpável. Ao Cristo, fonte de água viva, pois Ele é o verdadeiro poço de Jacob (3º Domingo), seguiu-se Cristo, Luz do mundo e a verdadeira Siloé (4º Domingo), em cuja “luz vemos a luz” da bondade, da justiça e da verdade. Neste 5º Domingo, somos desafiados, com Marta, a acreditar em Cristo, fonte de vida: “Se acreditares, verás a glória de Deus”, que até é capaz de transformar a morte em vida!

Era mesmo inevitável que, nesta caminhada para a ressurreição, fôssemos confrontados com a morte, ou, melhor, com as mortes! De facto, há vidas que, devido às circunstâncias - quer externas, quer internas - que as envolvem são mais morte que vida. Por isso falamos em vivos mortos, representados pelos judeus no cativeiro de Babibónia, a quem o regresso à pátria e à liberdade é anunciado em linguagem e imagens de ressurreição, já que as suas esperanças há muito se tinham esfumado. Mas Deus, através do profeta Ezequiel, garante-lhes não só o regresso, mas também um espírito novo, para que outro cativeiro jamais venha a acontecer.

Por sua vez, S. Paulo compara a mortos aqueles que se deixam dominar pelas suas inclinações e apetites, enquanto que aqueles que procuram deixar-se conduzir pelo Espírito de Cristo, embora experimentem as forças de morte no seu corpo mortal, conseguem pela força do Espírito caminhar para a vida em plenitude, vivendo segundo o Espírito. De facto, para aqueles que, tendo recebido (pelo Batismo) o Espírito de Deus, procuram viver animados por Ele, a ressurreição já vai acontecendo no dia-a-dia das suas vidas, pois até as pequenas (ou grandes) ‘mortes’ que diariamente acontecem, se vão transformando em fonte de ressurreição “pelo Espírito que habita em nós”.

No texto evangélico o retorno à vida - vulgar e impropriamente designado como ‘ressureição’ - de Lázaro é usado para desafiar a fé de Marta - e a nossa - em Cristo, senhor da vida e da morte, mesmo perante a evidência da morte: “sepultado há já quatro dias e a cheirar mal”. Na verdade, não é Deus que é fraco ou perdeu a força de fazer milagres: é a estreiteza da nossa fé que não Lhe dá espaço nem vez para Ele poder agir!

É que, como disse Cristo aos saduceus, o nosso Deus é “Deus de vivos e não de mortos”! Trabalhemos então a nossa fé, para que possamos ver já no dia-a-dia da nossa vida “as glórias de Deus” e, um dia, o próprio Deus da glória e da vida!

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