Vidas alheias?

Passar do alheamento reinante a uma atitude de atenção, de proximidade, de solidariedade e de comunhão é o percurso para que a Palavra de Deus deste Domingo nos desafia.

Ilustração: Patxi Fano

23º Domingo do Tempo Comum

Perante a mensagem das leituras deste Domingo, torna-se difícil compreender como é que, ainda nos nossos dias, o ‘meter-se na vida alheia’ seja um dos pecados mais frequentemente confessados, tal como o contrário (‘não me meto na vida de ninguém’) seja apontado como modelo de (bom) comportamento cristão! 

Embora haja uma explicação para este tipo de espiritualidade, o mais importante é que nos convertamos à Palavra de Deus, que hoje nos apresenta exatamente o caminho oposto: “quem ama o próximo cumpre a lei, pois a caridade é o pleno cumprimento da lei” - diz-nos S. Paulo.

Aliás, o caminho em direção aos outros já vem do Antigo Testamento, como atesta o profeta Ezequiel, ao fazer de cada um de nós ‘sentinela’ atenta e vigilante para alertar e avisar os irmãos, disso dependendo até a nossa própria salvação.

Todavia, o texto evangélico vai mais longe ainda, ao indicar uma estratégia com várias etapas, todas elas tendentes à recuperação do próximo: “vai ter com ele a sós; toma contigo duas ou três pessoas; comunica o caso à igreja”! Por isso, maior pecado do que “falar (mal) da vida alheia” é admitir que haja vidas que nos possam ser indiferentes ou estranhas, que possamos considerar ‘alheias’!

Este é também um dos temas em que o papa Francisco mais tem insistido. Em Fátima, lançou uma ‘mobilização’ geral contra a indiferença “que nos gela o coração e agrava a miopia do coração”. Já antes, na mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1916, tinha denunciado que “a primeira forma de indiferença na sociedade humana é a indiferença para com Deus, da qual deriva também a indiferença para com o próximo e a criação. Trata-se de um dos graves efeitos dum falso humanismo e do materialismo prático, combinados com um pensamento relativista e niilista. O homem pensa que é o autor de si mesmo, da sua vida e da sociedade; sente-se auto-suficiente e visa não só ocupar o lugar de Deus, mas prescindir completamente d’Ele; consequentemente, pensa que não deve nada a ninguém, exceto a si mesmo, e pretende ter apenas direitos”.

Segundo ele, “a indiferença para com o próximo assume diferentes fisionomias. Há quem esteja bem informado, ouça o rádio, leia os jornais ou veja programas de televisão, mas fá-lo de maneira entorpecida, quase numa condição de rendição: estas pessoas conhecem vagamente os dramas que afligem a humanidade, mas não se sentem envolvidas, não vivem a compaixão. Este é o comportamento de quem sabe, mas mantém o olhar, o pensamento e a ação voltados para si mesmo”.

Também noutra ocaisão tinha denunciado o cúmulo desta indiferença: “à mesa, em família, quantas vezes se come, se vê TV ou se escreve mensagens no telemóvel. Todos são indiferentes a este encontro. Até no fulcro da sociedade, que é a família, não existe encontro!” 

Daí esta sua constatação: “Estamos acostumados com a cultura da indiferença e temos que trabalhar e pedir a graça de fazer a cultura do encontro, do encontro fecundo que restitui a todas as pessoas a própria dignidade de filhos de Deus”. E o seu apelo: “que isto nos ajude a trabalhar por esta cultura do encontro, tão simplesmente como o fez Jesus. Não olhar apenas, mas ver; não ouvir apenas, mas escutar; não só cruzar com os outros, mas parar. Não dizer apenas ‘que pena, pobres pessoas’, mas deixar-se levar pela compaixão. E depois, aproximar-se, tocar e dizer do modo mais espontâneo no momento, na linguagem do coração: ‘Não chore. E dar pelo menos uma gota de vida”. 

Passar do alheamento reinante a uma atitude de atenção, de proximidade, de solidariedade e de comunhão é o percurso para que esta Palavra nos desafia. Saibamos nós acolhê-lo nestes tempos de tanto individualismo, gerador de tantos abandonos e de tantas solidões. Em vez de muros de isolamento e de divisão, nós, cristãos, somos chamados a ser construtores de pontes, que aproximam, que geram comunhão.

Últimas

Sabor a injustiça?

Como é que podemos trocar o sabor a injustiça pelo sabor e cheiro a misericórdia?

O (mais) perfeito dom

Jesus fala-nos do ‘perdão do coração’. Esse é que é o perdão por excelência, o dom perfeito. É na...

Bispo simples e próximo

A Família Espiritana une-se à Diocese do Porto e à família do D. António Santos, que partiu, esta...

Outra vez o jumento?!

"É tempo de férias, estar com a família e descansar, que seja também tempo para louvar e agradecer,...

Vidas alheias?

Passar do alheamento reinante a uma atitude de atenção, de proximidade, de solidariedade e de...