Um presépio do avesso

Precisamos de reavivar em nós próprios o Presépio e o Natal, deixarmos de ser a Jerusalém às escuras, sonolenta, resignada e acomodada, sem resposta para as grandes questões dos nossos dias

Adoração dos Magos (Vie de Jésus Mafa)

Festa da Epifania 

Convenhamos que se, ainda hoje, os Reis Magos são elementos indispensáveis em qualquer presépio, isso não evita que eles tenham perdido quase toda a sua força simbólica. De facto, o nosso mundo de hoje já não se sente atraído pelo presépio: a humanidade de hoje ruma em direção a outros centros de interesse, seguindo outras estrelas que, infelizmente, só apontam para miragens!

Mas esta é a realidade e não adianta pretendermos simplesmente ignorá-la ou amaldiçoá-la. Temos é que reconstruir o presépio ao contrário, isto é, levarmos o presépio lá onde se encontram os homens e as mulheres do nosso tempo ou para onde eles rumam à procura da luz.

Mas, para tal, precisamos de reavivar em nós próprios o Presépio e o Natal, deixarmos de ser a Jerusalém às escuras, sonolenta, resignada e acomodada, sem resposta para as grandes questões dos nossos dias. Se, de facto, os nossos celeiros estiverem vazios de paz (jerusalém, significa terra de paz) e de pão (belém, significa terra de trigo) como poderemos despertar o interesse de alguém?

Por isso, o papa Francisco tem insistido em sermos uma igreja ‘em caminhada’, uma igreja ‘em saída’, com os seus depósitos de paz e de pão bem atestados na e pela celebração do Mistério da Encarnação.

De facto, ainda mantêm toda a frescura e atualidade estas palavras por ele escritas no primeiro ano do seu pontificado: “A intimidade da Igreja com Jesus é uma intimidade itinerante, e a comunhão reveste essencialmente a forma de ‘comunhão missionária’. Fiel ao modelo do Mestre, é vital que hoje a Igreja saia para anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demora, sem repugnâncias e sem medo…

A Igreja ‘em saída’ é a comunidade de discípulos missionários que ‘primeireiam’, que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam...

A comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor e, por isso, ela sabe ir à frente, sabe tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos” (A alegria do Evangelho, 23-24).

Na verdade, as situações de falta de paz, de pão e de luz não estão lá longe – encontram-se mesmo ali, ao virar da esquina. Se nos pusermos a caminho, seguramente tropeçaremos nelas!

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