Transfiguração e desfigurações

Antes de descermos ao vale das desfigurações, precisamos de subir à montanha da Transfiguração, para, daí, abarcarmos toda a dimensão do sofrimento humano e partirmos ao seu encontro com o coração cheio da compaixão e da misericórdia do nosso Deus.

Transfiguração (Vie de Jésus Mafa)

A Transfiguração do Senhor

O calendário do presente ano dá-nos a oportunidade de refletirmos e aprofundarmos este mistério da vida de Cristo - a sua transfiguração - que S. João Paulo II incluiu nos Mistérios Luminosos do santo Rosário. E bem necessária é a sua luz sobre tantas desfigurações da pessoa humana que continuam a prolongar-se ao longo dos tempos (guerras, migrações, desemprego, fome, violência) e outras a que o papa Francisco se referiu no passado domingo com estas palavras: “anualmente, milhares de homens, mulheres e crianças são vítimas inocentes da exploração laboral e sexual e do tráfico de órgãos”, e contra as quais o Sumo Pontífice afirmou: “parece que estamos tão acostumados, a ponto de considerá-las uma coisa normal. Isso é ruim, é cruel, é criminoso! Desejo recordar o compromisso de todos para que essa chaga aberrante, forma de escravidão moderna, seja adequadamente combatida”.

De facto, a visão do profeta Daniel situa-se no período sombrio do exílio, quando as esperanças do povo eleito já se tinham esfumado face à realidade bem dura da sua vida quotidiana, espezinhados como estavam e reduzidos à condição de escravos. É sobretudo então que Deus pretende reacender no coração do seu povo a chama da esperança, mostrando-lhes que existe um “filho do homem”, a quem foi entregue “o poder, a honra e a realeza” e é a Ele que todos os povos e nações servirão.

Também alguns evangelistas tiveram a preocupação de colocar a transfiguração de Jesus no começo da sua caminhada em direção ao Calvário isto é, à mais completa desfiguração. Ela é presenciada pelo núcleo central dos Apóstolos, para que os beneficiados fossem capazes de ajudar os seus companheiros a enfrentar a desfiguração a que o seu Mestre ia ser sujeito.

Se há que reconhecer o fracasso de tal intenção – só João ‘aguentou’ – também temos que aceitar o seu efeito a longo prazo. De facto, é o mesmo Pedro que, na sua carta, coloca esta experiência como a garantia da solidez da fé cristã na divindade de Cristo. Ela não se baseia em fábulas e fantasias, “mas por termos visto a sua majestade com os nossos próprios olhos … quando estávamos com Ele no monte santo”.

Vivendo mergulhados em desfigurações, ao perto e ao longe, também nós precisamos de contemplar o Cristo transfigurado para mantermos o rumo da nossa viagem, para não naufragarmos no oceano do sofrimento, da desorientação e do relativismo reinantes. E é com essa certeza que nos podemos manter firmes, empenhando-nos em combater tudo aquilo que desfigura a pessoa humana, sem desânimo e sem resignação a qualquer espécie de fatalismo, porque a transfiguração de Cristo é a garantia de que esse é o destino oferecido por Deus a todos os seus filhos.

Para isso, antes de descermos ao vale das desfigurações, precisamos de subir à montanha da Transfiguração, para, daí, abarcarmos toda a dimensão do sofrimento humano e partirmos ao seu encontro com o coração cheio da compaixão e da misericórdia do nosso Deus.

 

Últimas

O pão da esperança

29º Domingo do Tempo Comum. O Dia Mundial das Missões que hoje celebramos é ocasião propícia para...

Nossa Senhora do Caminho

Foi pelas pantufas da Irmã Lúcia que cheguei às chuteiras do Nuno Gomes. Mas o que é que uma coisa...

Educar na fé

20. A história do Beato Daniel Brottier, contada pelo P. Agostinho Tavares.

O banquete

O nosso jeito de celebrar os acontecimentos mais importantes da nossa vida pessoal, familiar e...

Outubro missionário

A mensagem do Santo Padre para o Dia Mundial das Missões tem como tema “A Missão no coração da fé...

Com Maria, Missão de Paz

Este Guião Missionário vai pôr o nosso coração a bater ao ritmo do coração da Deus e da Igreja que o...