"Segue o que sentes"

Mais que simples ‘spot’ publicitário, esta frase - “segue o que sentes” - caracteriza a sociedade dos nossos dias, marcada por uma predominância tal dos sentimentos que se pode falar em autêntico “império dos sentidos”.

26º Domingo do Tempo Comum 

Mais que simples ‘spot’ publicitário, esta frase - “segue o que sentes” - caracteriza a sociedade dos nossos dias, marcada por uma predominância tal dos sentimentos que se pode falar em autêntico “império dos sentidos”. Assim: porque ‘não me apetece’, já não faço; porque ‘já não gosto’, já não amo; etc. É a trágica capitulação da dimensão intelectual e volitiva do ser humano aos caprichos da sua natureza corpórea e sensitiva.

A Palavra do Senhor deste domingo se, por um lado, reconhece implicitamente o desalinhamento destas duas dimensões da pessoa humana, afirma, por outro, que é possível e indispensável que a última palavra pertença à vontade.

Lembra-nos ainda que não somos um ser pre-determinado, mas em construção, sendo, por isso, possível, em qualquer altura, haver inversão de rumo: do errado para o certo, mas também do bem para o mal. Portanto, à partida, ninguém está irremediavelmente salvo ou condenado: as contas fazem-se à chegada. 

O texto de S. Paulo mostra-nos que não basta ter uma vontade forte, férrea até. A dimensão afetiva faz parte da nossa personalidade e é com ela que podemos lubrificar a nossa relação com os outros. Precisamos de cultivar os nossos afetos e sentimentos, pois também eles podem ser trabalhados e orientados para uma sintonia cada vez mais perfeita com a inteligência e a vontade. Daí o seu apelo: “Tende entre vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus”.

Por sua vez, à história que Jesus conta no texto do evangelho parece faltar uma terceira alternativa de resposta à ordem do pai - “filho, vai trabalhar para a vinha” - e que, à partida, até seria a mais normal: dizer: “sim, eu vou” e ir mesmo! Aliás é para esta meta que S. Paulo aponta na segunda leitura, ao apresentar-nos Cristo como o modelo a ser imitado: “Ele, que era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si próprio, assumindo a condição de servo”. Ele, de facto, disse: “sim, eu vou” e foi mesmo, cumprindo integralmente a vontade do Pai.

Só que em nós a harmonia entre a vontade e a sensibilidade é algo que está por realizar e, por isso, nem sempre a inteligência e a vontade assumem o comando das nossas decisões. É por isso que, sendo nós um ser em construção, para Deus não conta tanto o que fomos, mas aquilo que procuramos ser: não estamos irremediavelmente salvos ou condenados à partida, mas as contas serão feitas no fim.

A estranheza revelada em relação a esta maneira do Senhor proceder tem a ver com a nossa preferência por um tipo de determinismo fatalista, que divide o mundo em ‘maus’ e ‘bons’, sem possibilidade de alteração, o que faria com que o destino de cada um estivesse definido à partida, daí resultando uma desresponsabilização e um descompromisso mais cómodos. Aliás, este determinismo fatalista está mais espalhado do que possa parecer - basta reparar nas expressões frequentes: “é o destino”, “já tinha que acontecer”… 

De facto, a verdadeira liberdade e a felicidade autêntica não se encontram no “segue o que sentes”, mas no “segue o deves”! E pode ser que, um dia, até cheguemos ao “sente o que deves”. Então, a nossa resposta ao Senhor será não só firme, mas também alegre e entusiasta, como a de Jesus: “Aqui estou, ó Pai, para fazer a tua vontade” ou a de Maria: “faça-se em mim segundo a vossa palavra

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