Que me importa que morras?

O binómio quero-tenho tornou-nos impacientes e promoveu um estilo que não favorece a reflexão profunda, ou o silêncio que são agora trocados por estímulos imediatos e por sensações cada vez mais passageiras.

No meu dia a dia trabalho com alunos entre os 14 e os 18 anos. Tenho tido a bênção de ter sempre alunos interessados, participativos e, sobretudo, que pensam a vida e o mundo que os rodeia muito para lá do seu iphone ou da sua consola de jogos.

Ultimamente as conversas de início e fim de aula, e quantas vezes de meio (lá se vai a planificação de um professor), vão parar a duas realidades: Política, com o senhor presidente Trump a ganhar nas #hastags dos mais novos, ou, bem recentemente, a questão da eutanásia.

Neste ponto as opiniões dividem-se porque é mais fácil seguir “o rebanho” porque “não sou eu que quero morrer stor”, afirmam muitos.

O ponto de partida não pode ser o homem, isolado e abandonado, mas a comunidade humana que deve tudo fazer para que a condição da pessoa não seja condicionante do próprio desejo de usufruir do bem maior: a vida!

Esta ideia está muito enraizada na Europa mas é património de outras latitudes e culturas. Na África do Sul a filosofia Ubuntu advoga que “eu sou porque tu és”. Isto diz-nos que eu só me compreendo, eu só sou eu porque tu me dás humanidade. Tal e qual como na estória do Tarzan! Só quando a Jane chega é que ele percebe quem é. Até lá, sozinho e no meio da selva, o máximo que consegue é afirmar quem não é!

Não obstante as circunstâncias poderem transformarmos em algo não muito superior a 'um trapo de carne' continuamos a ser nós. De outro modo o que define cada um de nós? O que fazemos ou o que somos? Somos quem somos sem outro? Por acaso algum de nós se autonomeou (alguém se deu a si mesmo o nome no momento do nascimento?)

A visão prática da vida, nascida da revolução cientifico-tecnológica, sobretudo a partir do século XVII, trouxe-nos a ilusão de que temos direito a tudo porque tudo parece ser imediato e prático e do foro do querer. O binómio quero-tenho tornou-nos impacientes e promoveu um estilo que não favorece a reflexão profunda, ou o silêncio que são agora trocados por estímulos imediatos e por sensações cada vez mais passageiras.

Deste modo o argumento de que se ‘já não sirvo para nada deve-me ser permitido morrer’, deve provocar-nos, desde logo, uma inflexão: Para que serve uma criança? Que lucro dá um estudante? Para que serve um deficiente profundo?

Colocar a vida humana como algo da área do direito individual pode, e vai provocar, uma mudança de paradigma sobre o que é a própria identidade do ser humano. Temos o direito de alterar toda a história de construção antropológica que nos conduziu a esta liberdade de escolha? Podemos, claro! Estamos nós conscientes, porque refletimos a fundo a questão, da autêntica caixa de pandora que vamos abrir? Duvido!

 

Ps: esta é a primeira colaboração com a Ação Missionária. Acedi a este pedido sentindo-me pequenino perante tanta história e tanta entrega à missão! Aqui, na família Espiritana, descobri-me como pessoa, e mais, pessoa crente. 

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