Proximidades

O texto da Carta aos Hebreus, escutado neste domingo, é um convite a tomarmos consciência da diferença que existe entre ‘estar perto’ e ‘estar próximo’. Se, no primeiro, a distância física é o critério determinante, em ‘estar próximo’ prevalece o tipo de relação que se estabelece.

22º Domingo do Tempo Comum

O texto da Carta aos Hebreus, escutado neste domingo, é um convite a tomarmos consciência da diferença que existe entre ‘estar perto’ e ‘estar próximo’. Se, no primeiro, a distância física é o critério determinante, em ‘estar próximo’ prevalece o tipo de relação que se estabelece. Convenhamos também que a correlação entre ambos não é indispensável. Com efeito, hoje os meios de comunicação (telefone, internet, skype…) permitem tornamo-nos bem próximos de pessoas distantes, enquanto que, por outro lado, podemos estar bem perto, fisicamente, a ponto de nos acotovelarmos e atropelarmos, e, apesar disso, estarmos bem distantes!

Com efeito, a proximidade de Deus experienciada pelos Judeus no monte Sinai (fogo ardente, nuvem escura, trevas densas, tempestade, som da trombeta, voz retumbante) não gerou aproximação, confiança, intimidade e correspondência, mas medo e tremor.

Bem diferente é aproximação que nós experienciamos em cada Eucaristia dominical, após Deus ter realizado a maior aproximação possível da Humanidade no seu Filho Jesus, a ponto de, desde a linguagem veterotestamentária, ela ser expressa pela experiência máxima da intimidade que é a experiência esponsal: “aproximastes-vos do monte Sião, da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste, de muitos milhares de Anjos em reunião festiva, de Deus, juiz do universo, e de Jesus, mediador da nova aliança”. Mas esta evolução, mais que cronológica, é uma transição que tem de acontecer na vida de cada um de nós: passarmos do Deus todo-poderoso e terrível, para o Deus ‘Abba’= Papá!

E esta transição inspira o nosso tipo de aproximação aos outros, pois a humildade é condição indispensável para uma autêntica proximidade. Neste tempo em que tanta gente está disposta a tudo sacrificar por um momento de glória, e em que o êxito, por qualquer preço, é o objetivo de tantas pessoas, o texto de S. Lucas ensina-nos que a humildade está associada à gratuidade: aquilo que sou, aquilo que tenho, foi-me dado: é tudo dom de Deus para ser gerido em atitude de serviço, de complementaridade e não para me sobrepor aos outros. Na verdade, só pela humildade posso aceitar os outros como companheiros, com os quais partilho o meu ‘pão’, em vez de neles ver adversários e concorrentes. Bem ao contrário, a “árvore da soberba cria raízes” fundas no coração do orgulhoso e impede uma proximidade autêntica. 

Maria, tão celebrada neste mês de Agosto, percebeu isto muito bem a ponto de, no seu ‘Magnificat’, proclamar Deus como aquele que “derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes”.

Aprendamos com Ela, a “humilde serva do Senhor”, e com seu filho Jesus, que “se humilhou a si próprio, assumindo a condição de servo” e bebamos nestas fontes a verdadeira humildade, na certeza de que a riqueza e a glória nos virão do nosso Deus, que “prepara uma casa para o pobre”, para o humilde!

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