Outro fogo

22º Domingo Comum. "Havia no meu coração um fogo ardente, comprimido dentro dos meus ossos. Procurava contê-lo, mas não podia." (Jer. 20, 9)

22º Domingo do Tempo Comum 

Com tantos relatos trágicos e tantas imagens dantescas do fogo devastador que, ano após ano, vem assolando o nosso País de lés a lés, - mas, este ano, com uma intensidade mais avassaladora ainda -, nem nos apetece ouvir falar deste outro fogo, que o profeta Jeremias reconhece existir dentro dos seus ossos e que, ele também, não consegue controlar. Todavia, é para esse outro fogo que a Palavra de Deus deste domingo nos remete. Aliás, trata-se de um fogo que precisa de estar bem aceso em cada um de nós!

Só com ele, com efeito, poderemos, como Jeremias, resistir às tentações do desânimo, do voltar as costas a Deus, do ‘deixar correr’, do ‘não vale a pena’. Só ele poderá reduzir a cinzas as nossas tendências para o poder e o mandar, e levar-nos a retomar a condição de discípulos, de seguidores dos passos de Jesus, sem nos conformarmos com este mundo. Só por ele poderemos transformar o nosso ser e a nossa existência em oferta agradável a Deus. 

Só por ele poderemos ir encurtando a distância entre as nossas belas e solernes profissões de fé e a sua concretização na nossa vida do dia a dia. O profeta Jeremias é bem exemplo dessa dificuldade: tendo experimentado o fascínio do Senhor e a ele aderido entusiasticamente, não deixa, no entanto, de experimentar a tentação do desalento e do voltar as costas a Deus, pois a fidelidade lhe acarreta um peso insuportável: “toda a gente se ri de mim”. Mas é o Senhor que acaba por triunfar na sua vida, pois não conseguiu conter o fogo que não apenas ardia em seu coração, mas até os ossos lhe comprimia.

O mesmo sucedeu com Pedro: ao Pedro de Cesareia de Filipe, feito por Cristo doutor ‘honoris causa’ em matéria de fé, ainda lhe faltava percorrer essa distância, cujo caminho Cristo acaba de apresentar como caminhos de sofrimento, de aniquilamento e de morte. Daí que Cristo aponte a todos a mesma receita, amarga, mas eficaz: “quem quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me...”

De facto, nunca foi, não é, nem será, fácil e agradável seguir Jesus. As dúvidas e incertezas baterão à nossa porta, sobretudo nas horas sombrias e escuras do sofrimento, provocado pela doença, pela incompreensão e solidão, pela injustiça, pela morte. Nesses momentos, é grande a tentação de tudo abandonar. Por outro lado, a nossa inclinação natural continua a ser para o prazer, para o conforto e o comodismo.

Mas é o mesmo Pedro que, noutra circunstância, nos dá a receita: “a quem iremos nós, Senhor? Só Tu tens palavras de vida eterna!”. E tenhamos a certeza de que, como a Jeremias ou a Pedro, o Senhor não faltará com o seu conforto e apoio: “Se me envolve a noite escura, e caminho sobre abismos de amargura, nada temo, porque Vós estais comigo”! 

Este é o verdadeiro culto, a oferta verdadeiramente agradável a Deus, que S. Paulo aponta a todos nós: “peço-vos que vos ofereçais a vós mesmos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus”. Para isso, invoquemos muitas vezes: Vinde, Espírito Santo, e renovai em nós o fogo do Vosso amor!

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