O nosso tesouro

Precisamos da palavra que fortaleça a nossa esperança, para encararmos os sofrimentos, contrariedades e tribulações da vida como “dores de parto”, donde nascerá “a liberdade e a glória dos filhos de Deus”, como nos disse S. Paulo.

O Semeador (Vie de Jésus Mafa)

15º Domingo do Tempo Comum

A versão longa do texto evangélico deste domingo, já contém em si a explicação da parábola do semeador, feita pelo próprio Jesus a pedido dos seus discípulos. Por isso, não há que procurar outra explicação, porque melhor não é possível. E o Senhor garante-nos a qualidade e a abundância da sua semente, pois a palavra de Deus “é viva e eficaz, mais penetrante que uma espada de dois gumes” e “não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter realizado a sua missão”. Além disso, a sementeira do Senhor é tão generosa que até no caminho e nas bordas do campo a sua semente cai!

Só que não basta a qualidade da semente para estar garantida uma sementeira que redunde em colheita abundante - é preciso que ela seja caia em terreno devidamente preparado! E é aqui que entra o nosso contributo, tão indispensável quanto a qualidade da semente.

É que, também no nosso coração, se encontram as diversas qualidades de terreno mencionadas por Jesus. Se é verdade que já temos parcelas de terreno boas e férteis, outras há - a nível dos hábitos, dos sentimentos, da afetividade, dos critérios e valores por que pautamos a nossa vida - onde não faltam escolhos de toda a espécie e feitio, havendo, por isso, muito ainda por fazer para que a palavra de Deus possa também aí germinar e produzir abundante fruto.

Desde o Concílio Vaticano II que a Palavra de Deus vem recuperando, embora muito lentamente, a centralidade e importância que ela tem na vida cristã. E o papa Francisco, no seu texto programático ‘A Alegria do Evangelho’ (174-175), afirma que “a Palavra de Deus ouvida e celebrada, sobretudo na Eucaristia, alimenta e reforça interiormente os cristãos e torna-os capazes de um autêntico testemunho evangélico na vida diária”. [Por isso,] “é fundamental que a Palavra revelada fecunde radicalmente a catequese e todos os esforços para transmitir a fé. A evangelização requer a familiaridade com a Palavra de Deus, e isto exige que as dioceses, paróquias e todos os grupos católicos proponham um estudo sério e perseverante da Bíblia e promovam igualmente a sua leitura orante pessoal e comunitária”. Com efeito, nós não procuramos Deus tacteando, nem precisamos de estar à espera que Ele nos dirija a palavra, porque realmente “Deus falou: já não é o grande desconhecido, mas mostrou-se a si mesmo”.

Como seria bom que as nossas famílias cristãs encontrassem, de forma regular, espaço para a escuta e meditação da Palavra de Deus! Então, poderíamos exclamar como Jeremias: “Quando apareciam as vossas palavras, eu tomava-as como alimento: a vossa palavra era o encanto e a alegria do meu coração” (Jer.15,16). Com efeito, “nos livros sagrados, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro de seus filhos e conversa com eles; e é tanta a força e a virtude que radica na Palavra de Deus, que é, na verdade, apoio e vigor da Igreja, fortaleza da fé para os filhos da Igreja, alimento da alma, fonte pura e perene da vida espiritual” (Dei Verbum, 21).

É verdade que o tempo nos escasseia, mas é-o igualmente que ainda não temos a Palavra de Deus no devido apreço! E, entretanto, no terreno do nosso coração outras sementes vão caindo, das quais só brotarão “mato e espinhos” (Is. 5,6), quando, na verdade, precisamos da palavra que fortaleça a nossa esperança, para encararmos os sofrimentos, contrariedades e tribulações da vida como “dores de parto”, donde nascerá “a liberdade e a glória dos filhos de Deus”, como nos disse S. Paulo.

Daí o grito do Papa: “Acolhamos o tesouro sublime da Palavra revelada!”

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