O mistério do mal

Que o Espírito nos ajude a encarar o mistério do sofrimento e do mal com os olhos do próprio Deus e que nos leve a aceitar nas nossas vidas os caminhos e desígnios amorosos, mesmo que misteriosos, do nosso Deus!

(Desenho de Patxi Fano)

16º Domingo do Tempo Comum

Temos muita dificuldade em enfrentar o mistério do mal, cuja realidade se torna cada vez mais avassaladora. Perante o mal, ou pretendemos a sua eliminação total e imediata - “cortar o mal pela raiz” - e, por isso, tantas vezes nos revoltamos com Deus por causa  do seu distanciamento face aos triunfos do mal; ou nos resignamos à sua presença e à sua força, aceitando a sua inevitabilidade, embora apontando sempre os outros como os seus causadores.

Bem diferente é a visão que Deus nos propõe nos textos de hoje. Pela parábola do trigo e do joio, Deus mostra-se paciente, sem pressa para antecipar o momento da separação definitiva entre bons e maus, até porque o bem e o mal são transversais a todos nós. Neste aspeto, somos todos ‘trigo’ e ‘joio’. Com efeito, no coração de cada um de nós há sementes de trigo e de joio e que, ao longo da vida, as pessoas vão-se diferenciando pela aposta que fazem em desenvolver um ou outro. De facto, não estando marcados por um destino fatalista, compete-nos, escolha após escolha, ir traçando o rumo da nossa vida.

Mas, se a clemência e a compaixão do nosso Deus se manifestam em favor da nossa fragilidade, Deus nunca poderá pactuar com a mentira ou com as pretensões de alterar a natureza das coisas. O verdadeiro ‘humanismo’, para o qual nos aponta a primeira leitura, reconduz-nos, antes de mais, à verdade sobre as pessoas e as coisas, verdade que nos compete aceitar, admirar e agradecer. Também por aqui passa a distinção entre o trigo e o joio.

Esta mensagem é completada pelas parábolas da mostarda e do fermento. Deus confia na força irresistível do bem, que, apesar das aparências em contrário, é dotado de um dinamismo intrínseco que, na ressurreição de Cristo, manifestou já que a vitória final é ao Bem que pertence e não ao Mal.

Pelo texto do livro da Sabedoria, também nós somos convidados a colocarmo-nos do lado do Bem, do lado de Deus, aceitando a sua estratégia para enfrentar o mal. Este vence-se com a paciência, com a brandura, com a indulgência - “o justo deve ser humano” -, pois combater a violência do mal com violência, acaba sempre por trazer ainda mais violência.

Compreendemos assim que S. Paulo nos diga que “não sabemos que pedir nas nossas orações”, pois muitas vezes não pedimos “em conformidade com Deus”, mas pretendemos que Deus se conforme com os nossos critérios. O que nos vale é que “o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza”!

Que o Espírito nos ajude a encarar o mistério do sofrimento e do mal com os olhos do próprio Deus e que nos leve a aceitar nas nossas vidas os caminhos e desígnios amorosos, mesmo que misteriosos, do nosso Deus!

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