Muros e Tampões

E assim anda a vida da União Europeia: indignados com os muros de Trump e felizes com os seus tampões

Há coisas curiosas na vida: anda-se indignado com o muro de Trump com o México, mas não se vê a mesma indignação (nem de cobertura mediática) para os tampões que a União Europeia implementa à sua volta. Passo a explicar: faz em Março um ano, a União Europeia, celebrou um acordo com a Turquia que, a troco de uma avultada soma de euros, se prontificou a servir de tampão a refugiados sírios e a receber de volta milhares deles que já se encontravam nas Ilhas Gregas. A Amnistia Internacional, no seu relatório de 14 de fevereiro “Uma rota para o desespero: Impacto nos Direitos Humanos do acordo UE-Turquia”, alerta para as repugnantes condições de alojamento e de insegurança desses refugiados, o retorno ilegal de requerentes de asilo à Turquia e o limbo em que estas pessoas ficam, pois encontram-se retidas nestes campos sem qualquer solução à vista. O acordo com a Turquia partia do pressuposto que esse era um país seguro para os refugiados, o que também não é caso.

Depois deste acordo na frente Este, a Itália, apoiada pela União, fez, em Janeiro último, um acordo tampão semelhante na frente Sul, com a Líbia, por 200 milhões de euros. Para além de todos os problemas já mencionados do acordo com a Turquia, este foi feito com um país que está em guerra civil desde que Khadafi foi deposto e sem governo estável.

Toda a “diplomacia” europeia finge que estes acordos tampão estão a ser um sucesso ou, os de consciência mais pesada, acham que isto é o mal menor. É também curioso que todos os governos sejam contra os traficantes que fazem negócio com as vidas destas pessoas, mas que não vejam problemas quando são eles a “traficar” estas vidas: a União Europeia paga para os refugiados não chegarem ao seu território; a Turquia e a Líbia recebem para os terem fechados em campos de onde não podem sair.

Mas a história não para por aqui… Embalado por este clima, na Hungria, Viktor Orbán, acaba de aproveitar para aprovar uma lei que oficializa o que já é acusado de praticar desde 2015: os emigrantes e refugiados que entrem na Hungria, mesmo os que já tenham pedido asilo, ficam detidos sem poder ir à rua por tempo indeterminado.

E assim anda a vida da União Europeia: indignados com os muros de Trump e felizes com os seus tampões, com tudo isto a acontecer em clara violação do artigo 14º da Declaração Universal dos Direitos Humanos que diz que “Toda a pessoa sujeita a perseguição tem o direito de procurar e de beneficiar de asilo em outros países.”

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