Missão em contexto de violência extrema

Sudão do Sul: O P. José Vieira, Provincial dos Combonianos, fala sobre a Missão no país mais jovem do mundo, em entrevista a Ação Missionária.

O P. José Vieira, trabalhando na rádio

O P. José Vieira, Comboniano, começou a sua Missão na Etiópia. Depois dirigiu as revistas ‘Além-Mar’ e ‘Audácia’ em Portugal. Enviado para o Sudão do Sul, foi ‘forçado’ a regressar a Portugal como Provincial. É o Presidente da Conferência dos Religiosos de Portugal (CIRP).

 

Antes do Sudão do Sul, a Etiópia. Que mais te marcou nesse país?

É muito difícil resumir oito anos de serviço missionário intenso num instante, mas encontrei ajuda na Constituição sinodal de Lisboa. Diz no n.º 63: «A missão é lugar de crescimento humano e espiritual, quer pelo encontro com realidades humanas marcadas pela fragilidade, quer pela leitura orante da Palavra de Deus que sustenta a vida e dá sentido à missão». A minha experiência de missão foi isto tudo! A Etiópia foi uma surpresa que Deus tinha para mim. Preparava-me para partir para o Sudão, a direcção geral dos combonianos mudou e destinou-me à Abissínia para viver com um povo que não conhecia. Foram oito anos muito intensos de aprendizagem (da língua e da cultura guji, a viver devagar num cenário de sonho, a chamar Deus por novos nomes), uma experiência de fraternidade à volta de Jesus, uma peregrinação. No final, pus por escrito esse tempo sagrado sob o título de Dias felizes – memorial da missão.

 

Qual o teu trabalho ali? Que dificuldades?

Cheguei à Etiópia a 9 de janeiro de 1993 para fazer parte de uma comunidade apostólica que incluía voluntárias leigas, missionárias e missionários combonianos. A primeira tarefa foi aprender a língua. Uma experiência dura, porque voltar a ser criança aos 33 anos não é fácil. Depois, comecei a missão de Haro Wato com um colega espanhol e outro mexicano. O meu trabalho? Fui dona-de-casa enquanto não tivemos cozinheira, «padre-curandeiro» até chegarem as irmãs e abrirem a clínica da missão, director da escola (da 5ª à 8ª classe), ecónomo da comunidade e da missão, co-tradutor e editor dos evangelhos, das leituras dominicais, de livros de oração em língua guji, repórter para algumas publicações, mecânico. Mas, acima de tudo, fui missionário para as pessoas com quem vivi e discípulo com elas. Os etíopes são muito acolhedores e fizeram-me sentir um deles, apesar de ser mais «deslavado» de pele…

 

…Após ligeiro interregno em Portugal, ao serviço da missão através dos media, regressaste a África, ao Sudão do Sul. Como encontraste o país mais jovem do mundo?

O Senhor é um brincalhão… Quando me preparava para regressar aos gujis da Etiópia os superiores convidaram-me para ir para o sul do… Sudão para integrar a equipa instaladora da Rede Católica de Rádios do Sudão. Cheguei lá a 8 de dezembro de 2006, um ano e meio depois do acordo de paz que pôs termo a 22 anos de guerra que deixou a região em ruinas. Era tempo de reconstruir. Havia muito boa vontade: agências da ONU, ONGs, governos e igrejas-irmãs apostaram na reconstrução do Sudão do Sul. As igrejas também receberam ajudas importantes para reconstruirem estruturas e requalificarem os seus quadros ordenados e leigos. Encontrei um povo profundamente marcado pelas duas guerras civis que duraram em conjunto mais de meio século. Perguntava-me ao olhar para aqueles rostos doridos: «O que é que falta aos sul-sudaneses e que os etíopes tinham?». Faltava-lhes o olhar sorridente, tinham os olhos cheios de sofrimento e de ódio… Um povo muito tribal. Encontrei uma igreja muito ecuménica, que passou a guerra a consolar e a manter unido o seu rebanho – sem olhar a confissões ou diferenças… Encontrei um país dividido entre agricultores e pastores com os últimos a fazer grandes pressões sobre os primeiros por causa dos pastos. Um campo de sorgo ou de amendoim era uma pastagem excelente para os guardadores das vacas. Gerava violência e mortes; como o costume de pagar o dote do casamento em cabeças de gado e de roubar o gado para pagar o dote…

 

A independência que portas abriu?

A independência deu aos sulistas a possibilidade de serem eles próprios, de usarem os bens com que Deus os abençoou – especialmente o petróleo – para proveito próprio. Desde os tempos coloniais que o sul era preterido e explorado pelo Norte. O consórcio anglo-egípcio que governou o Sudão antes da independência formou uma elite árabe para dirigir o país e confiou a educação dos negros aos missionários católicos e protestantes. Depois da independência, em 1956, Cartum por duas vezes impôs o árabe e a lei islâmica aos sulistas que são negros, cristãos ou seguem as religiões tradicionais. As duas guerras civis (1955-1972 e 1983-2005) foram uma resposta à arabização do Sul. Desgraçadamente, a independência de 9 de julho de 2011 desembocou numa terceira guerra civil que começou a 15 de dezembro de 2013 pelo controlo político e económico do país. Três anos depois, mais de 300 mil pessoas foram mortas, um milhão refugiou-se nos países vizinhos, 1,7 milhões foram deslocados, a economia está completamente destruída, a inflação acima dos 450%... E a guerra continua a alastrar apesar das juras de paz do governo. No Ano Novo as tropas atacaram uma missão, torturaram e queimaram dois trabalhadores, roubaram gado e destruíram casas da povoação.

 

Coordenar rádios católicas foi a tua missão. Explica como.

Eu fui para Juba para integrar a equipa instaladora da rede católica de rádios. A ideia da rede ao serviço da paz e da reconciliação nasceu para marcar a canonização de Daniel Comboni a 5 de outubro de 2003. Comecei por trabalhar na Bakhita FM, a estação de Juba, como director de informação. Em 2010, abri a redacção central da cadeia com dois jornalistas locais. Cobríamos o quotidiano político, cultural e social de Juba e fazíamos os noticiários da manhã e da noite para a rede incluindo notícias das estações. Como editor tinha que visitar as oito estações fora de Juba para fazer formação para os jornalistas locais. Deu-me a possibilidade de conhecer melhor o país profundo e de fazer a crónica diária de um país a nascer. Foi uma experiência profissional maior.

 

Que missão faz ali a Igreja católica?

A Igreja católica tem sete dioceses no Sudão do Sul todas com algum clero local ajudados por 46 congregações. Durante a guerra teve um papel influente juntamente com as outras igrejas para consolar e encorajar o povo, advogar a causa do Sudão do Sul nos fóruns internacionais e angariar apoios. Depois da independência as Igrejas perderam protagonismo, porque todas estavam ocupadas na própria reconstrução. A guerra obrigou os líderes religiosos a tomarem posições corajosas para denunciar as atrocidades e mediar uma solução negociada. Continuam a dar assistência aos deslocados –mais de 8000 vivem à volta da catedral católica de Wau – e a manter as escolas, universidades, clínicas e hospitais abertos.

 

Olhando para o futuro, que desafios?

O Sudão do Sul precisa e merece urgentemente uma nova liderança. Os dirigentes chegaram ao poder pela via das armas e só entendem essa opção. Há uma geração de sul-sudaneses formada na diáspora pronta para assumir o poder e instaurar um regime democrático capaz de trazer o desenvolvimento que as pessoas necessitam.

A nível da Igreja, há três dioceses sem bispos, o arcebispo de Juba já dobrou os 75 e os de Wau e de Yei para lá caminham. A Igreja necessita de uma nova liderança que passe da pastoral de emergência para a de evangelização. Acredito que numa sociedade tão tribalizada como o Sudão do Sul a Igreja tem a força para ajudar as pessoas a sentirem-se parte de uma família alargada que é a nação.

O P. José Vieira numa Eucaristia no Sudão do Sul

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