Missão com carimbo de Eternidade

O P. José Manuel deixou um enorme testemunho de fé e missão. A herança que nos lega constitui para todos uma grande responsabilidade.

O P. José Sabença, na Missão dos Dembos, na sua visita a Angola, em 2015.

Crescemos juntos, na caminhada de seminário em seminário até á Ordenação. Jogamos na mesma equipa de futebol, representamos as mesmas peças de teatro, organizamos e animamos as mesmas festas, trabalhamos juntos na pastoral de S. Adrião (Braga), Cruz Quebrada (Lisboa) e Clamart (Paris). O seu humor, expresso nas gargalhadas que dava, era contagiante. Quando nos Ordenaram Padres, o Zé Manel foi para a África do Sul e eu para Angola. Quando regressamos, ele foi para formador no Pinheiro Manso (Porto), eu fiquei a estudar e na Animação Missionária e Comunicação Social na Estrela (Lisboa).

Voltamos a viver na mesma Comunidade (Estrela) quando ele foi eleito Provincial em 2003. Fui sempre seu Assistente até ao fim dos seus nove anos de Provincialato.

Vida com Missão

Nascido a 10 de Outubro de 1960 na Penajóia, Lamego, ficou para sempre com o nome familiar de Zelito. Assim o tratam carinhosamente familiares e conterrâneos. A sua vida é um hino á Missão: alegre, feliz, criativo, trabalhador incansável, com uma fé enorme. Foi Capelão Militar e, desta missão, rumou em direcção à África do Sul do Apartheid onde viveu a instabilidade e insegurança dos hostels, aqueles edifícios enormíssimos onde dormiam os trabalhadores negros das grandes cidades brancas da África do Sul. Assistiu ao derrube político do Apartheid e foi dos primeiros brancos a viver em aldeamentos negros, com todos os riscos que tal comportava. Envolveu-se de alma e coração no processo de reconciliação nacional e democracia, liderado por Nelson Mandela.

Quando foi chamado a ser responsável pelo I Ciclo de Teologia Espiritana, no Porto, custou-lhe muita a deixar o povo zulu com quem tinha vivido os primeiros anos da sua vida de Padre e com quem se tinha identificado, a ponto de aprender bem a sua difícil língua. Pude perceber isso quando, em 2012, passei por Durban com ele para a celebração das Bodas de Prata Sacerdotais. Mas a Missão espiritana exige desprendimento e temos que estar sempre prontos a partir. E ele regressou a Portugal.

Foi, no Porto, um formador dedicado, criativo, empenhado. Uma vez eleito Provincial, coube-lhe organizar o acolhimento histórico que os Espiritanos Portugueses fizeram de um Capítulo Geral: foi em 2004, na Torre da Aguilha, em Cascais. Como Provincial, animou as Comunidades, abriu novas fronteiras à Missão (Castro Verde – depois Mértola, em Beja; Nogueira em Braga), fundou grupos da LIAM por Trás-os-Montes e Alto Douro, foi conselheiro espiritual das Equipas de Nossa Senhora, fez uma Peregrinação a pé de Godim-Régua a Fátima, pelas vocações (Pro-Vocação) e acabaria o seu terceiro mandato com a responsabilidade de Director do Centro Padre Alves Correia (CEPAC), uma instituição espiritana que acolhe e apoia imigrantes e refugiados. Também valorizou muito a Missão laical da família Espiritana acompanhando os Jovens sem Fronteiras nas Semanas Missionárias, o Movimento Missionário de Professores nos seus encontros, os Antigos Seminaristas (ASES) nas suas Assembleias. Dedicou-se à fundação e animação das Fraternidades e apoiou os Leigos Associados Espiritanos. A sua obra mais emblemática é o Lar Anima Una que, no Seminário do Fraião (Braga) acolhe, apoia com qualidade todos os Espiritanos que precisam de cuidados mais continuados. Esta IPSS acolhe, igualmente, pessoas leigas que ali se sentem em família e apoiadas na fase final das suas vidas.

Horizontes largos

Tinha um conceito muito alargado de Missão no contexto das Igrejas locais. Foi presidente dos Institutos Missionários Ad Gentes (IMAG), aumentando muito o número de institutos que aderiram a este projecto de reflexão, partilha e animação missionária conjunta em Portugal.

Era um escritor nato. Ler as suas pequenas crónicas ou as grandes reportagens missionárias, levava-nos em espírito aos lugares que ele descrevia e convidava-nos a viver os valores que ele propunha e pelos quais dava a vida.

O Capítulo Geral de 2012aconteceria em terras de África, lá na costa oriental por onde entrou o Evangelho e o esforço da libertação dos escravos: Bagamoyo, na Tanzânia. O Conselho Geral nomeou-o moderador, cargo que exerceu com muito reconhecimento, a ponto de ter sido eleito Conselheiro-Geral.

Assim, desde 2012, o seu quartel-general é em Roma, num trabalho de animação e coordenação da Missão de todos os 3 mil espiritanos espalhados por mais de 60 países, nos cinco continentes. Na Cidade Eterna ou nas visitas, o P. Zé Manel continuou a animar os Espiritanos e os Leigos que connosco partilham espiritualidade e Missão. Simples e ágil, percorreu boa parte do mundo em anúncio do Evangelho e a propor a vivência do Plano de animação traçado pelo Superior Geral e seu Conselho, de que ele é Assistente.

O maldito cancro

Foi numa curva da vida que lhe detectaram o cancro no pulmão, já muito metastizado. Em poucos meses, vimos um homem forte e imparável a ficar paralisado no seu leito de dor. Mostrou uma Fé enorme, uma capacidade de sofrimento ímpar, uma consolação inesperada para quantos o foram acompanhando naquela cama articulada de um hospital improvisado no Seminário espiritano do Porto ou nos períodos de internamento no Hospital de S. João.

Há momentos que a história não consegue apagar. Recordo o seu 56º aniversário, naquele dez de outubro. O seu quarto tornou-se catedral para um número pequenino de pessoas: a mãe, a tia, a irmã Fátima, uma sobrinha… alguns Espiritanos e amigos. Deitado, presidiu a uma espécie de ‘Ultima ceia’ em que nos fez uma homilia a apelar á fé, á atenção aos sinais de Deus, sobretudo ao seu convite á conversão. Ficamos todos mudos perante tal testamento espiritual. Nesse dia já estava paraplégico e algaliado, mas nem estes sinais que apontavam para o fim da vida beliscaram em nada a sua convicção de eternidade e missão cumprida. Nesses dias, na nossa regular conversa telefónica, contou-me com enorme serenidade: ‘estou paraplégico. É irreversível. Mas não divulgues porque a minha mãe não sabe!’.

Fé à prova de tudo

A sua fé, quase com capacidade de mudar montanhas, fez dele um orante por todos os sofredores do mundo, implorando milagres aos fundadores dos Espiritanos. Muitos perguntarão: porque é que Deus e os santos ficaram surdos a tantas centenas de pessoas que pediram a cura do P. José Manuel? Eu estou profundamente convencido de que o milagre aconteceu na vida dele. Custa-me a acreditar que tanta serenidade, tanta capacidade de sofrimento, tanta força para enfrentar a doença e a dor…tenham surgido do nada! Não, este foi o grande milagre na vida e Missão do P. José Manuel, que ficará para sempre como uma referência enorme de padre, de missionário, de pessoa feliz e semeadora de justiça, paz, amor e alegria, os valores do reino de Deus, que ele anunciou por palavras e com a vida, até ao fim.

Celebrações exequiais

A doença galopou sem nada nem ninguém ter encontrado forças para a parar. As portas da Eternidade quando se escancaram aos nossos olhos, libertam-nos da dor e da fragilidade e atiram-nos para um face-a-face com o Deus que amamos e a quem, com os nossos limites, tentamos seguir e servir. Até ao fim. Partiu a 14 de Dezembro no Seminário Espiritano do Pinheiro Manso, no Porto. Serenamente.

O funeral teve quatro Eucaristias. O P. Pedro Fernandes presidiu na noite de quarta e na manhã de quinta no Seminário do Pinheiro Manso, no Porto. Presidi, como Provincial, à Eucaristia da vigília de sexta-feira na Igreja da Penajoia, terra natal do P. José Manuel. Evoquei a vida e missão do P. Zelito, como ali é conhecido.

O funeral realizou-se na tarde de sexta-feira, presidido por D. António Couto, Bispo de Lamego. O P. José Fernando, pároco, fez uma introdução para relavar o papel importante do P. Zelito na Penajoia e no mundo. O ofertório, com símbolos,  mostrou a Missão do P. J. Manuel, desde a Penajoia a Roma, passando por França, Portugal e África do Sul. O texto foi lido por membros da Família Espiritana e os símbolos levados pelos nove sobrinhos. Na homilia, D. António Couto, fez uma fantástica ligação entre os textos bíblicos escolhidos (sobretudo a narração dos discípulos de Emaús), a vida do missionário falecido e a experiência de dor cruzada com esperança que todos ali sentiam na Igreja, em dia de frio e chuva. O Cristo que faz viagem connosco lança-nos ‘perguntas’ e faz-nos ‘fintas pedagógicas’ para nos dizer que Ele é que sabe e o que faz está bem feito, porque passa pelo mundo fazendo o bem. Emotivo foi o gesto final de despedida por parte dos sobrinhos e da irmã mais nova, em nome da família.

A Igreja despediu-se a cantar. No presbitério estavam também D. Jacinto Botelho (Bispo Emérito) e numerosos padres diocesanos e religiosos, bem como uma delegação vinda da Casa Geral dos Espiritanos em Roma e de Espanha. Na Assembleia, era numerosa a família, os conterrâneos, Religiosas e Religiosos e membros de todos os movimentos e dinamismos da grande Família Espiritana.

O P. José Manuel deixou um enorme testemunho de fé e missão. A herança que nos lega constitui para todos uma grande responsabilidade.

P. José Manuel Sabença, na África do Sul
Na Missão de Kalandula, em Angola, com o P. Gabriel Cassinda, que viria a falecer num acidente de viação, em finais do ano 2015, e com o P. Manuel Viana

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