Jesus, o verdadeiro comunicador

Em 1966, o então papa Paulo VI escolheu a Solenidade da Ascensão do Senhor Jesus ao Céu para Dia Mundial das Comunicações Sociais, não só para reconhecer e sensibilizar para a importância dos meios de comunicação social, mas também para apresentar Jesus Cristo como o verdadeiro comunicador

Desenho de Patxi Fano

Em 1966, o então papa Paulo VI escolheu a Solenidade da Ascensão do Senhor Jesus ao Céu para Dia Mundial das Comunicações Sociais. Foi a forma encontrada não só para reconhecer e sensibilizar para a importância, sempre crescente, dos meios de comunicação social, mas também para apresentar Jesus Cristo como o verdadeiro comunicador, Aquele que não só comunicou a ‘boa notícia’ - “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” - mas também soube comunicá-la bem, pois a sua mensagem era compreensível para todos. 

Com efeito, “para introduzir os seus discípulos e as multidões nesta mentalidade evangélica e entregar-lhes os ‘óculos’ adequados para se aproximar da lógica do amor que morre e ressuscita, Jesus recorria às parábolas, nas quais muitas vezes se compara o Reino de Deus com a semente, cuja força vital irrompe precisamente quando morre na terra (cf. Mc 4, 1-34). O recurso a imagens e metáforas para comunicar a força humilde do Reino não é um modo de reduzir a sua importância e urgência, mas a forma misericordiosa que deixa, ao ouvinte, o ‘espaço’ de liberdade para a acolher e aplicar também a si mesmo. Além disso, é o caminho privilegiado para expressar a dignidade imensa do mistério pascal, deixando que sejam as imagens - mais do que os conceitos - a comunicar a beleza paradoxal da vida nova em Cristo, onde as hostilidades e a cruz não anulam, mas realizam a salvação de Deus, onde a fraqueza é mais forte do que qualquer poder humano, onde o falimento pode ser o prelúdio da maior realização de tudo no amor. Na verdade, é precisamente assim que amadurece e se entranha a esperança do Reino de Deus, ou seja, “como um homem que lançou a semente à terra. Quer esteja a dormir, quer se levante, de noite e de dia, a semente germina e cresce” (Mc 4, 26-27).

Assim se exprime o papa Francisco na sua mensagem para este Dia. E a própria mensagem desta Solenidade é ocasião e desafio para esta missão. “Aparentemente o Senhor afasta-Se de nós, quando na realidade são os horizontes da esperança que se alargam. Pois em Cristo, que eleva a nossa humanidade até ao Céu, cada homem e cada mulher consegue ter “plena liberdade para a entrada no santuário por meio do sangue de Jesus. Ele abriu para nós um caminho novo e vivo através do véu, isto é, da sua humanidade” (Heb 10, 19-20). Através “da força do Espírito Santo”, podemos ser ‘testemunhas’ e comunicadores, “até aos confins da terra” (cf. At 1,7-8) de uma humanidade nova, redimida”.

“A todos - continua o Santo Padre - quero exortar a uma comunicação construtiva, que, rejeitando os preconceitos contra o outro, promova uma cultura do encontro por meio da qual se possa aprender a olhar, com convicta confiança, a realidade.

Creio que há necessidade de romper o círculo vicioso da angústia e deter a espiral do medo, resultante do hábito de se fixar a atenção nas ‘notícias más’ (guerras, terrorismo, escândalos e todo o tipo de falimento nas vicissitudes humanas). Não se trata, naturalmente, de promover desinformação onde seja ignorado o drama do sofrimento, nem de cair num otimismo ingénuo que não se deixe tocar pelo escândalo do mal. Antes, pelo contrário, queria que todos procurássemos ultrapassar aquele sentimento de mau-humor e resignação que muitas vezes se apodera de nós, lançando-nos na apatia, gerando medos ou a impressão de não ser possível pôr limites ao mal. Aliás, num sistema comunicador onde vigora a lógica de que uma ‘notícia boa’ não desperta a atenção, e por conseguinte não é uma notícia, e onde o drama do sofrimento e o mistério do mal facilmente são elevados a espetáculo, podemos ser tentados a anestesiar a consciência ou cair no desespero”.

Para isso, o Papa a todos convida “a oferecer aos homens e mulheres do nosso tempo relatos permeados pela lógica da ‘boa notícia’. Com efeito, “a vida do homem não se reduz a uma crónica assética de eventos, mas é história, e uma história à espera de ser contada através da escolha duma chave interpretativa capaz de selecionar e reunir os dados mais importantes. Em si mesma, a realidade não tem um significado unívoco. Tudo depende do olhar com que a enxergamos, dos ‘óculos’ que decidimos pôr para a ver: mudando as lentes, também a realidade aparece diversa. Então, qual poderia ser o ponto de partida bom para ler a realidade com os ‘óculos’ certos? Para nós, cristãos, os ‘óculos’ adequados para decifrar a realidade só podem ser os da ‘boa notícia’: partir da Boa Notícia por excelência, ou seja, o ’Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus’”.

E conclui: “A confiança na semente do Reino de Deus e na lógica da Páscoa não pode deixar de moldar também o nosso modo de comunicar. É essa confiança que nos torna capazes de atuar - nas mais variadas formas em que acontece hoje a comunicação - com a persuasão de que é possível enxergar e iluminar a ‘boa notícia’ presente na realidade de cada história e no rosto de cada pessoa”.

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