E cacareja a galinha

Se tanto nos damos com galinhas, entristece-me que ninguém as elogie. Não há uma fábula, um provérbio, um conto que lhe enalteça as qualidades ou ao menos a utilidade. Os únicos elogios literários à galinha estão nos livros de culinária. Elogios fúnebres, portanto, à moda de epitáfios.

Também admiro as águias, mas não gosto do desprezo a que são votadas as galinhas. A comparação entre águias e galinhas é frequente nos escritos espirituais, sempre com desprimor para estas e enlevo por aquelas. Desde a conhecida história que conta que uma águia foi criada no meio das galinhas e por isso não acreditava que podia voar, mas que gradualmente se foi libertando e subindo até assumir a vocação das alturas, até à comparação que um texto russo resume assim: “Ao que vive unido com Deus e começa a conhecer as alturas do espírito, torna-se difícil permanecer no mundo. Como a águia, plana no alto do céu e não pode assemelhar-se às galinhas que se sacodem na poeira do caminho.” Já sabemos, a águia é majestosa, a galinha é ridícula.

Sim, elogiamos a majestade e a imponência das águias, mas é das galinhas que nos alimentamos; admiramos o voo livre nas alturas, mas é à galinha no chão que recorremos na hora da canja e da omelete; sonhamos com o voo largo e autónomo da águia, mas é com a galinha rasteira que partilhamos o caminhar. Ora, se tanto nos damos com galinhas, entristece-me que ninguém as elogie. Não há uma fábula, um provérbio, um conto que lhe enalteça as qualidades ou ao menos a utilidade. Os únicos elogios literários à galinha estão nos livros de culinária. Elogios fúnebres, portanto, à moda de epitáfios.

E no entanto, é ela que nos é útil, que está ao nosso serviço, que não nos falha, é com ela que contamos. A galinha é humilde, pouco exige e dá-nos os ovos com desprendimento e generosidade. Ninguém quer ser galinha, mas qualquer um a quer. Qualquer um quer ser águia, mas ninguém se dá ao trabalho de ser ou ter uma. Em resumo, sonhamos as águias enquanto comemos as galinhas.

Quem olha para as galinhas com o respeito que merecem e não se enfada do cacarejar? Só Nosso Senhor, que vê para além da poeira: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis reunir os teus filhos como a galinha reúne os seus pintainhos sob as asas, e tu não quiseste! (Mt 23, 37)

Louvada seja a galinha e o Senhor que a compreendeu.

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