Bem-vindos ao Planalto

Ouvi estas palavras há precisamente 20 anos. O planalto é o angolano. Zona fértil, que se eleva a quase 2.000 metros de altitude e de onde nascem os principais rios de Angola. Também palco de grandes batalhas no tempo da guerra civil que viria a terminar em 2002. Na altura, em 1997, havia um “intervalo” na guerra, que viria a eclodir novamente no ano seguinte. As palavras foram proferidas por um major português (o militar na foto).

Diz-se que recordar é viver. Por isso, esta coluna, neste mês, aproxima-se mais de um testemunho do que propriamente de um artigo de opinião.

Começo por recordar, as palavras que ouvi há 20 anos e que dão título a este texto: “bem-vindos ao planalto”. O planalto que falo é o angolano. Zona fértil, que se eleva a quase 2.000 metros de altitude e de onde nascem os principais rios de Angola. Também palco de grandes batalhas no tempo da guerra civil que viria a terminar em 2002. Na altura, em 1997, estávamos num “intervalo” da guerra, que viria a eclodir novamente no ano seguinte. As palavras foram proferidas por um major português, se a memória não me falha, o chefe militar da missão portuguesa que na altura fazia parte da missão mais alargada das Nações Unidas. Éramos 9 voluntários dos Jovens Sem Fronteiras acompanhados por um missionário, que tínhamos acabado de chegar numa avioneta de 15 lugares que fazia a ligação: Luanda-Huambo. Há dias, tropecei na foto que ilustra esse momento. Fez-me sorrir olhar para aqueles rostos e verificar que aquela experiência teve um impacto significativo nas nossas vidas. Para alguns contribuiu com certeza para uma mudança radical. Principalmente em 2 dos 3 rapazes que faziam parte do grupo. Curiosamente os 3, na altura, estudantes de engenharia na mesma universidade. Hoje um deles é padre e professor de Teologia na Universidade Católica, outro é padre missionário e, curiosamente, o meu pároco.

Logo no aeroporto do Huambo percebeu-se a dimensão da tragédia que tinha passado por aquela cidade. No caminho até ao seminário maior do Huambo onde ficámos alojados durante aquele inesquecível mês de agosto, deu a perspetiva que os nossos olhos jamais esquecerão: a destruição provocada pela guerra. Não, não é seguramente essa, a principal imagem que guardo dessa experiência. Mas essa recordação jamais me largou e me confronta sempre que vejo imagens de violência, destruição e morte.

A principal imagem que guardo é mesmo a dimensão do encontro com os outros, com a humanidade e em tudo aquilo que ela tem de melhor: os rostos, os gestos, a partilha, a bondade, o brilho dos olhos e a paz. E daí retirei duas perspetivas daquilo que passou a significar o planalto para mim. A primeira, a perspetiva do alto, que permite contemplar a beleza do que está no horizonte alargado da vida, mas que vai muito mais além das nossas certezas e seguranças. Por isso, também nos impele a rasgar horizontes, a construir pontes para outras margens e conhecer outras paragens. Por outro lado, a perspetiva do plano que significa que estamos ao mesmo nível dos outros onde os olhos se cruzam à mesma altura e onde os nossos pés pisam o mesmo chão. E é isso que nos torna cidadãos do mundo. Foi isso que aprendi naquele inesquecível mês de Agosto.

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