Angola em reconstrução

Angola celebrou 40 anos de independência. A guerra terminou em 2002, mas os efeitos prolongados ainda se sentem de norte a sul. Há sinais mais e sinais menos a marcar a actualidade deste país lusófono. O Pe. Tony Neves tentou descobri-los e experimentá-los num mês de visita a esta grande Nação.

+ Espiritanos, 150 anos

Os Espiritanos chegaram a Angola há 150 anos. Anunciaram o Evangelho, fundaram Missões, escolas, hospitais, postos de saúde, oficinas. Ensinaram a ler, a escrever, a cultivar, a trabalhar o ferro, a madeira, o barro. Formaram gerações de padres, professores, profissionais de muitas artes e ofícios. 150 anos depois, Angola prestou homenagem às centenas de Missionários Espiritanos que trabalharam e deram a vida por este povo. Foi grande a celebração jubilar final que, num musseque de Luanda (Comunidade do Espírito Santo – S. Pedro do Prenda), juntou milhares de pessoas. Mais de vinte Bispos participaram na Eucaristia presidida por D. Filomeno Vieira Dias, Arcebispo de Luanda e Presidente da Conferência Episcopal. Houve três Ordenações de Diáconos Espiritanos.

– A dimensão dos musseques

São enormes, a perder de vista. Tantas casas minúsculas construídas com tijolo de cimento e cobertas de zinco. Quentes, muito quentes, pobres, muito pobres. A separá-las apenas uns carreiros intransitáveis que, quando chove se tornam regatos. Não há saneamento pelo que os charcos de fossas são muitos e as doenças que ali se geram matam. E, com tanta miséria acumulada, o insucesso escolar, o desemprego, a delinquência, o álcool e todas as outras adições ganham espaço nos musseques.

+ Celebrar com Alegria e Festa

Angola habituou-me a longas e belas celebrações. Dizem por cá que os europeus têm o relógio, os africanos têm o tempo! A verdade é que o ritmo é diferente. Cada celebração de Eucaristia pode durar 3, 4 ou 5 horas, dependendo do evento. Mas a alegria, o canto forte, a dança… estão sempre presentes. Saliento quatro Eucaristias que me marcaram muito: a do Jubileu dos 150 anos, em Luanda (quatro horas); a Missa de Ramos na Tchiva, uma das periferias do Huambo (durou 3h30!); a Missa Crismal na Catedral de Benguela (2h30h); a Eucaristia da Páscoa em S. João do Lobito (3h). Isto já para não falar da Vigília Pascal que teve, no S. João, com 120 batismos de jovens e adultos. O tempo passa a correr porque a celebração é mesmo uma festa que nos apanha por dentro.

A festa uma constante africana, mesmo em tempos de crise. Senti-a a partilhei-a nesta visita que me levou a muitas terras angolanas. Os rostos, regra geral, são sorridentes, abertos ao futuro. Os momentos de festa são efusivos e longos, com muito canto e dança á mistura. Recordo a festa do Jubileu em Luanda, mas também no Huambo e no Lobito. O colorido das roupas sintoniza com sorrisos rasgados, vozes afinadas, ritmo e movimento.

– Crise e Descrédito

Angola viveu e adormeceu à sombra das enormes receitas de petróleos e diamantes, riqueza histórica de Angola. Poucos angolanos beneficiaram desta fortuna. O governo dormiu à sombra das somas fabulosas que entraram nos cofres. Agora que o barril atingiu preços mínimos, Angola entrou em crise profunda e ninguém imagina onde o país vai parar. Viver à sombra das riquezas do subsolo é um alto risco. Angola fez esta opção e está agora a pagar uma grande factura. Ou melhor, os pobres sofrem na pele as más decisões dos líderes. Os preços sobem em flecha, a moeda local desvaloriza cada dia, há um regresso ao mercado negro de câmbio, o governo não tem dinheiro para honrar as suas obrigações, muitas obras públicas pararam, há salários em atraso… o descrédito bancário é enorme porque houve quem depositasse em dólares e agora só receba em kwanzas. Há quem passe horas na fila do banco para levantar o seu salário, sem o conseguir. O pedido de intervenção do FMI não augura nada de bom para o povo mais pobre de Angola.

+Belezas naturais 

Angola, na sua diversidade, tem belezas sem igual. Marcaram-me as chanas das Lundas, com horizonte de perder de vista; as Quedas de Kalandula, tão altas e tão fundas, com um eterno arco-íris a dar cor à água que salta; o ‘miradouro da lua’, na estrada que liga Luanda ao Sumbe; a imponência da floresta tropical no Golungo Alto; o Monte Tchimbango, no Chinguar; o vale do Cavaco em Benguela. Também não se pode esquecer em África o nascer e o pôr-do-sol, aquelas grandes bolachas que pintam o céu cor-de-laranja. E, claro, as pessoas… hospitaleiras, simpáticas, alegres.

– Buracos, picadas, ravinas e… tempestades!

As estradas deste país já tiveram melhores dias, quando foram refeitas. Agora, há muitos troços completamente esburacados e há ainda kms por fazer. Mas o pior está reservado para o interior do país e para os bairros periféricos das cidades. São picadas difíceis de percorrer, com pisos irregulares, grandes ravinas e lamas que enterram até os jipes mais fortes. Nos musseques, os caminhos percorrem-se aos saltos e, quando chove, ficam mesmo intransitáveis. Há terras onde as chuvas tropicais abrem ravinas enormes que engolem estradas e casas, ameaçando povoações inteiras. Vi algumas nas Lundas. Também as tempestades geram trovoadas fortíssimas que destroem tudo onde caem os raios. Há mortes, feridos e destruição. Um raio que caiu no Santuário do Monte Tchimbango, no Chinguar, destruiu um pouco da grande cruz, bem como do chão do espaço celebrativo. Felizmente, não se encontrava ninguém no local. Onde chove menos (no litoral), há sempre derrocadas nos morros e inundações nas baixas. Essa tem sido a tragédia do povo que vive no Bairro de S. João do Lobito. 

+ Vocações em alta

É uma imagem de marca desta Igreja angolana: Padres e Religiosas muito jovens. E são muitos os jovens que vivem nos Seminários e Casas de Formação Religiosas. No Huambo, onde visitei os Seminários Maiores de Filosofia e Teologia da Arquidiocese e vivi no Seminário Maior Espiritano, ouvi os reitores a queixar-se da falta de espaço e meios para acolher tantos jovens. Assim se percebe o porquê de uma Igreja tão forte e tão dinâmica. Em Angola respira-se futuro quando se olha para a idade dos seus padres e Irmãs. Em Luanda, no Jubileu Espiritano, e em Benguela, na Missa Crismal, esta imagem invade-nos e toca-nos por dentro…sobretudo quando comparamos com a realidade europeia onde os cabelos são bem mais brancos e as rugas na testa bem mais fundas!

– Cultura da praça popular

Impressiona aos olhos ver a dimensão dos grandes mercados populares, a que o povo chama ‘praças’. São espaços enormes, cheiinhos de bancas apenas cobertas com capim ou chapa. A higiene e a qualidade de conservação são quase nulas, pois não há frigoríficos nem contentores de lixo e, sobretudo quando chove, tudo fica em lama. Ali se vende tudo, mesmo produtos com altas exigências de conservação. Muitas vezes, as comidas estão entregues às moscas. Encontram-se ainda muitas crianças e jovens a vender junto aos semáforos ou nos locais onde o trânsito pára. O governo tem intervindo neste comércio informal, mas os resultados não são ainda muito famosos. Boa parte da população é aqui que vende e compra.

+ Diversificação das fontes de receita

Angola viveu e adormeceu à sombra das enormes receitas de petróleos e diamantes, riqueza histórica de Angola. Poucos angolanos beneficiaram desta fortuna. O governo dormiu à sombra das somas fabulosas que entraram nos cofres. Agora que o barril atingiu preços mínimos, Angola entrou em crise profunda e ninguém imagina onde o país vai parar. Diversificar as fontes de receita da economia é assunto badalado nos meios de comunicação.

Com a crise petrolífera, o país entrou em ruptura financeira. Quase parou. Há salários da função pública em atraso. Disparou o recurso ao mercado negro dos câmbios. A moeda estrangeira torna-se quase inacessível. Os preços dispararam, sem que os salários aumentem. Voltam a ser visíveis os sinais de pobreza e de insegurança provocada por assaltos. Como resposta, há incentivos e apelos a uma diversificação das fontes de receita. Há que apostar mais na agricultura, pecuária, turismo, prestação de serviços. Após tanto tempo de focagem no que o subsolo dá, é difícil esta reconversão da economia e das mentalidades instaladas.

– Lixo… malária… febre amarela

As grandes cidades não conseguem recolher o lixo que produzem. Luanda está um caos a este nível: montes de lixo por todo o lado. As consequências são imediatas: um surto enorme de febre amarela e malária está a vitimar muitos angolanos. O mês de Março registou, só em Luanda, mais de oito mil mortos! Já se falava em estado de calamidade! Também a febre tifóide aparece em quase todas as análises clínicas. Os hospitais e centros de saúde não têm espaço, técnicos, meios e medicamentos para garantir a vitória neste combate. O ministério da Saúde e os gestores hospitalares reconhecem que estão numa luta desigual contra doenças que se tornaram epidemias. Os meios de comunicação lançam alertas frequentes para cuidados para controlar o surto de febre amarela e malária. Há que combater lixos, charcos, fossas a céu aberto. O novo Governador de Luanda pôs o combate ao lixo como prioridade. Já se começam a sentir os efeitos.

+ Palavras dos Bispos

Os Bispos voltaram a falar claro sobre o estado do país. Disseram em voz alta o que o povo diz em surdina, pois tem medo das represálias. O país está na mão de meia dúzia. A maioria do povo vive na miséria. Os caminhos estão esburacados, os salários baixos, os preços altos, a insegurança enorme, a corrupção galopante. Os Bispos lamentam que só quem pertence ao partido do governo tenha vez, voz e acesso a cargos e bens. As propostas são claras: há que tomar a democracia a sério, dar ao povo o que é do povo, assentar no mérito o acesso a cargos, fazer investimentos sociais que combatam a miséria que a crise actual está a espalhar pelo país. É urgente amplificar estas vozes. Pude fazê-lo nas conferências, celebrações, aulas…mas também na Rádio Ecclesia e na Rádio Nacional de Angola, quando participei num debate em directo sobre o papel das Igrejas na construção da Paz.

– Corrupção galopante

Os Bispos católicos fazem uma denúncia grave da corrupção que atinge todos os sectores da vida dos angolanos. Não se chega a nenhum cargo por mérito; não se enriquece com o trabalho; há esquemas até para passar de ano na Escola; muito se compra com práticas corruptas. Num mundo de esquemas, o progresso torna-se quase impossível, pois a competência nem é reconhecida nem respeitada. É o que os Bispos dizem e eles devem ter boas provas para o afirmar tão fortemente.

+ Reconstrução

É uma palavra-chave do pós-guerra. Desde 2002, data do fim dos combates, as estradas, as cidades, as escolas, os hospitais, os caminhos de ferro, os aeroportos… tudo foi sendo mexido e reconstruído. Há áreas e dimensões que foram bem trabalhadas, embora outras deixem a desejar quanto á qualidade do trabalho realizado. Mas, mesmo em crise, há obras em curso e muito que fazer para que a reconstrução seja concluída. Há também a construção de grandes bairros (‘centralidades’) nas periferias das cidades. A ideia é boa, mas a maioria das pessoas não tem acesso á sua compra e os critérios definidos pelo governo não são transparentes na sua execução. 

– Contrastes gritantes

Falta justiça na distribuição das riquezas e tudo é propriedade de meia dúzia de pessoas. Há grande ostentação por parte da elite governante, em contraste gritante com a miséria da maioria absolutíssima do povo. Em Luanda, passear pela marginal e, depois, dar um salto a um museque, traz a sensação de que mudamos de país em poucos minutos. O mesmo se diz quando passeamos na Cidade Alta do Huambo e decidimos ir até à Kamussamba. Ou ficamos fascinados com a Restinga do Lobito e subimos aos Morros de S. João. O parque automóvel também mostra bem este contraste: há jipes topo de gama que não vi em lado nenhum e, depois, carripanas a desfazerem-se de velhas e podres…já para não falar das motas, bicicletas e da maioria do povo que anda a pé… e até alguns descalços

O P. Tony Neves e o P. Casimiro Oliveira com o P. Manuel Viana e o Jovem Espiritano João Paulo Freitas, na Missão de Kalandula

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