Amazónia: uma história com 120 anos

No próximo ano, os espiritanos celebram 120 anos de presença na Amazónia. O P. Firmino Cachada ajuda-nos a percorrer os caminhos desta missão imensa. Ali, os caminhos são os rios, e a casa, muitas vezes, é o barco.

É, sem dúvida, uma missão difícil, mas muito gratificante. E isso sente-se, sobretudo, na alegria com que o missionário é acolhido, logo que o barco da missão - o “Esperança” - se aproxima das comunidades.

Espiritanos na Amazónia, reunidos em Assembleia, na Casa da Missão

Vamos celebrar, no próximo ano, 120 anos de presença espiritana na Amazónia. Uma presença que marcou a história desta região.

Foi a 13 de abril de 1897 que, a pedido do então Bispo de Manaus, Dom Lourenço Aguiar, o Pe. Xavier Libermann, sobrinho do nosso segundo Fundador, tomou o barco em Lisboa para se dirigir à Amazónia, juntamente com mais 3 companheiros franceses: os Padres Friederich e Parissier e o Irmão Donaciano. O objectivo era, segundo o contrato feito pelo bispo com a Congregação, a evangelização dos povos indígenas.

A 20 de maio seguinte, o Pe. Xavier Libermann e os seus companheiros desembarcavam em Manaus. Pelo caminho, tinham-se juntado a eles o Pe. Berthon e o Irmão Tito, vindos da cidade de Belém, onde a Congregação estivera também durante alguns anos. Poucos dias depois, rumavam pelo rio Solimões acima, chegando a Tefé no dia 10 de Junho.

Logo no dia seguinte, foram visitar um terreno que a Prefeitura lhes ofereceu, num belo lugar situado a uns 5 quilómetros a sul da cidade, na confluência dos rios Tefé e Solimões. De imediato, se lançaram à tarefa de construir uma residência para os missionários e uma escola para as crianças indígenas. Poucos meses depois, a escola já estava funcionando. Foi apenas o começo de uma longa história que haveria de marcar não só a Igreja, mas toda a sociedade amazonense.

Este lugar, desde então chamado “Missão”, tornou-se, com efeito, um pólo de desenvolvimento não só religioso como cultural, social e mesmo económico. Enquanto uns ficavam na Missão fazendo funcionar as diversas escolas profissionais entretanto fundadas, outros navegavam, com os meios possíveis, pelos rios Solimões, Japurá, Juruá, Jutaí e outros acima, até ao Peru e à Colômbia, levando a Palavra de Deus e os sacramentos aos grupos indígenas então espalhados ao longo dos numerosos rios e lagos da região.

Para além da componente religiosa, estas viagens tinham também uma componente cultural e etnográfica. Na verdade, quem quiser saber o que era a Amazónia em fins do século XIX e princípios do século XX e quais eram as nações indígenas que a habitavam, tem de ler os relatórios e os estudos feitos pelos primeiros espiritanos que por ali andaram.

O cemitério missionário da Missão é um testemunho vivo da dedicação destes missionários à causa da Igreja e do povo amazonense. Entre os 23 espiritanos que ali repousam, contam-se 4 portugueses: os jovens Irmãos Dionísio Carvalho e Agostinho Caetano, ambos do distrito da Guarda, que aqui faleceram vítimas de uma peste em 1911, poucos meses depois de chegar; o Pe. Manuel Dias, natural de Fiães - Porto, que faleceu em 1933 com 42 anos apenas; e o Irmão Boaventura Azevedo, de Bougado – Porto, que aqui faleceu em 1950.

Para além destes espiritanos portugueses, outros virão, mas só muitos anos mais tarde. Entre eles, os Padres Domingos da Rocha Ferreira e António Farias, chegados em 1986 e que ainda hoje aqui continuam dando o seu melhor, depois de alguns anos de interregno em Portugal, o primeiro como Pároco de Tires e o segundo ao serviço da animação missionária. Actualmente, o Padre António Farias é o pároco da paróquia do Bom Jesus, na cidade de Tefé, cuja residência paroquial acaba de construir e inaugurar, com a ajuda da LIAM. O segundo, depois de bastantes anos como pároco de Jutaí, veio para Tefé para ser o administrador e ecónomo da Prelazia, a pedido do Bispo Dom Fernando.

 

Uma missão difícil, mas gratificante

Já fiz referência à imensidão da Amazónia, onde as distâncias não se medem por quilómetros, mas sim por horas e dias de barco.

A paróquia da Missão, por exemplo, consagrada ao Divino Espírito Santo e da qual sou presentemente o pároco, tem nada menos de uns 300 quilómetros de uma ponta à outra, ao longo de rios e lagos e perto de umas 60 comunidades ribeirinhas. As “estradas” são os rios e os lagos e o meio de locomoção, evidentemente, só pode ser o barco ou a canoa. 

O barco da paróquia é, pois, o “hotel” em que eu passo as noites, já que as casas das comunidades são em geral bastante rudimentares e as condições de hospedagem muito limitadas. Para dormir, pois, é na rede. Mas, para comer, é nas casas dos catequistas ou de outras pessoas das comunidades, já que elas fazem questão de que partilhemos com elas as refeições. Estas são também, em geral, bastante básicas, mas oferecidas com muito carinho.

Toda a gente sabe que, pelo facto de ser quente e húmida todo o ano, a Amazónia é uma região onde não é fácil viver. Talvez seja essa a razão pela qual a maioria dos missionários que para aqui vêm não fique muitos anos. A ilustrar esta verdade, refira-se que, do grupo de espiritanos que aqui trabalhavam há 10 anos atrás, apenas restam dois. Um deles é português, o P. Domingos da Rocha Ferreira, de quem já fiz referência acima.

Quando vou a Portugal de férias, o que acontece normalmente cada dois anos, por vezes há gente que me pergunta: - e você não tem medo das cobras e jacarés? É evidente que, na floresta e nos rios da Amazónia há muitas cobras e jacarés e há que ter cuidado. Todavia, não é essa bicharada que incomoda mais, mas sim aquela que mal se vê e da qual é difícil a gente se defender, mesmo usando repelentes e que infesta as margens dos numerosos rios e lagos onde vivem as comunidades ribeirinhas.

Já estou imaginando que algum jovem vocacionado, que algum dia tenha sonhado ir para a Amazónia, esteja pensando: - olá lá, não sou eu que vou ir para lá!... Mas há uma outra verdade, na margem oposta desta acima descrita e que é importante sublinhar. O carinho e a simpatia da gente amazonense, sobretudo das comunidades ribeirinhas e o apreço que ela manifesta pelo missionário. Quantas vezes, ao ver chegar o barco “Esperança” da paróquia da Missão, um grupo de crianças ou mesmo a comunidade inteira vem correndo para a margem, com pandeiro e cartazes de boas vindas, cantando “Viva a nossa bela união…” ou outra canção apropriada. Ali a gente sente logo, naqueles sorrisos lindos e sinceros, a necessidade que eles têm de alguém que compreenda os seus problemas e que se mostre pronto a partilhar as suas vidas.

Visitar uma comunidade, na verdade, para além de poder partilhar a fé cristã, é também uma ocasião para partilhar a vida deste povo, que vive ainda ao nível da sobrevivência, apenas com o mínimo necessário.

Infelizmente, a maioria das comunidades só dá mesmo para visitar uma vez por ano. Talvez que o amanhã nos traga mais operários para esta imensa messe. Um grande esforço está a ser feito no sentido de despertar vocações amazonenses. Mas penso que, durante ainda muito tempo, os Espiritanos serão chamados a continuar a dar o seu contributo para o desenvolvimento espiritual e material desta Igreja e deste povo.

P. Firmino Cachada a desembarcar do "Esperança"
Visita à comunidade de Bom Jesus do Baré

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