"Água viva"

Domingo de Pentecostes. Num tempo de tanta divisão, de tanta desconfiança, de tanta concorrência desleal e desenfreada, os cristãos são chamados a ser construtores de paz e de comunhão, abrindo-se aos dons do Espírito Santo e invocando-O com muita fé e confiança: Vinde, Espírito Santo, e renovai a terra do nosso coração! Fazei que dele só brotem rios abundantes de água viva, que irrigue e fecunde tantos corações humanos secos e áridos, que. cada vez mais, desertificam a vida humana!

Domingo do Pentecostes

Os termos empregues pelos autores bíblicos para se referirem ao Espírito Santo (vento, sopro, respiração, brisa, entre outros) apontam para uma realidade misteriosa, difícil ou até impossível de definir. O mesmo se pode dizer no que à sua missão diz respeito: ‘Paráclito’, isto é, consolador, advogado, intercessor, espírito da verdade.

Biblistas há que, entre as diversas funções do Espírito Santo, ressaltam a missão de ‘recordar’, que, de acordo com o 4º evangelho, não é sismples lembrança de factos passados, mas leva à sua plena compreensão, só possível após a glorificação do Filho de Deus. ‘Recordar’, à luz do Espírito da Verdade, significa “atar, num só feixe, a promessa da Escritura, o tempo de Jesus e a sua atualização na visa da Igreja”.

Seja como for, estamos perante uma realidade inegável e fundamental para a vida cristã, à qual o quarto evangelista dá um relevo particular, comparando o Espírito Santo à ‘água viva’.

S. Cirilo de Jerusalém, no séc. IV, apresenta-nos uma lindíssima reflexão sobre esta ‘água viva’ que é o Espírito Santo: “Mas porque é que o Senhor dá o nome de ‘água’ à graça do Espírito? Certamente porque tudo tem necessidade de água; ela sustenta as ervas e os animais. A água da chuva cai dos céus; e embora caia sempre do mesmo modo e na mesma forma, produz efeitos muito variados. Não é, de facto, o mesmo, o efeito que produz na palmeira e na vide, e assim em todas as coisas, embora a sua natureza seja sempre a mesma e não possa ser diversa de si própria. Na verdade, a chuva não se modifica a si mesma em qualquer das suas manifestações; mas, ao cair sobre a terra, acomoda-se às estruturas dos seres que a recebem, dando a cada um deles o que necessita.

De maneira semelhante, o Espírito Santo, sendo único, com uma única maneira de ser e indivisível, distribui por cada um a graça como lhe apraz. E assim como a árvore ressequida, ao receber a água, produz novos rebentos, assim também a alma pecadora, ao receber do Espírito Santo o dom do arrependimento, produz frutos de justiça.

O Espírito tem um só e o mesmo modo de ser; mas, por vontade de Deus e pelos méritos de Cristo, produz efeitos diversos. Serve-se da língua de uns para comunicar o dom da sabedoria; ilumina a inteligência de outros com o dom da profecia; a este dá-lhe o poder de expulsar os demónios; àquele concede-lhe o dom de interpretar as divinas Escrituras; a uns fortalece-os na temperança, a outros ensina-lhes a misericórdia; a estes inspira a prática do jejum e os exercícios da vida ascética, e àqueles a sabedoria nas coisas temporais; a outros prepara-os para o martírio. Enfim, manifesta-Se de modo diferente em cada um, mas permanece sempre igual a Si mesmo, como está escrito: a cada um é dada a manifestação do Espírito para o bem comum.

Branda e suave é a sua aproximação; benigna e agradável é a sua presença; levíssimo é o seu jugo. A sua vinda é precedida pelas irradiações resplandecentes da sua luz e da sua ciência. Ele vem como protetor fraterno: vem para salvar, curar, ensinar, aconselhar, fortalecer, consolar, iluminar a alma de quem O recebe, e depois, por meio desse, a alma dos outros”.

Num tempo de tanta divisão, de tanta desconfiança, de tanta concorrência desleal e desenfreada, os cristãos são chamados a ser construtores de paz e de comunhão, abrindo-se aos dons do Espírito Santo e invocando-O com muita fé e confiança: Vinde, Espírito Santo, e renovai a terra do nosso coração! Fazei que dele só brotem rios abundantes de água viva, que irrigue e fecunde tantos corações humanos secos e áridos, que. cada vez mais, desertificam a vida humana! 

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