A medida alta

Porquê contentarmo-nos com os horizontes tão reduzidos de quem se limita a rastejar na vida?

6º Domingo do Tempo Comum

Com toda a certeza, os ouvintes de Cristo ficaram boquiabertos não só pelo estilo empregue - “ouvistes o que foi dito aos antigos…. Eu, porém, digo-vos” -, mas, sobretudo pela fasquia bem elevada que Jesus lhes apresenta!

E, hoje, o espanto não é menor, dado que vivemos na cultura do mais fácil, do mais cómodo, do mais agradável, do ‘já e sem esforço’. Diríamos que vivemos num tempo em que toda a gente se contenta com os mínimos. Para além do curso de Medicina, talvez o desporto, sobretudo o olímpico, seja a exceção à regra, mas, mesmo aqui, cada vez mais se descobre o recurso a substâncias dopantes, que falsificam as marcas conseguidas…Na verdade, da educação à escola, do emprego à família, EXIGÊNCIA é conceito banido da nossa cultura. As próprias ideologias foram desaparecendo, umas após outras, e nem o Cristianismo escapa aos seus efeitos.

A verdade é que Cristo não se conforma com mínimos! Não foi essa a medida que Ele usou na sua doação e entrega por nós, nem se contenta com uma resposta minimalista da nossa parte. Basta recordar a advertência do Apocalipse: “Não és frio, nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio e nem quente, vou vomitar-te” (Apoc. 3, 15-16).

Já o texto da primeira leitura nos firmava: “Diante do homem, estão a vida e a morte: o que ele escolher, isso lhe será dado”, indicando assim não só a nossa capacidade de escolha - a liberdade -, mas também a necessidade e obrigação de fazermos escolhas acertadas, isto é, com a sabedoria de que S. Paulo fala na segunda leitura e que “nenhum dos príncipes deste mundo conheceu”. É por ela que procuramos iluminar e pautar a nossa vida.

Não podemos, pois, contentar-nos com um cristianismo minimalista, feito à medida das nossas conveniências, das circunstâncias ou das nossas disposições de momento: hoje apetece-me - vou; não me apetece - não vou! O nosso cristianismo deve corresponder à certeza de que os olhos do nosso Deus “estão sobre aqueles que O temem” e que o seu olhar providente e paterno vela sobre nós e merece de nós uma entrega filial e confiante, traduzida num empenho constante de “melhor e mais”, para, nas pistas da vida, Lhe correspondermos com marcas cada vez mais elevadas. Como afirma o papa Francisco na mensagem para a próxima Quaresma, “o cristão é chamado a voltar para Deus ‘de todo o coração’, não se contentando com uma vida medíocre”.

Imitemos S. Paulo, que afirmava: “prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para a frente, persigo o alvo, rumo ao prémio celeste, ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo… Seja qual for o grau a que chegamos, o que importa é prosseguir decididamente” (Filp. 3,13-16). Como pais e educadores, convençamo-nos de que não é facilitando tudo e sempre que preparamos os nossos educandos para as inevitáveis lutas e os duros desafios que na vida vão ter de enfrentar!

Todos sabemos que o esforço para escalar uma montanha é depois compensado pelos horizontes que, lá do cimo, o nosso olhar abarca e pela beleza extasiante que aí nos inunda, mas esta experiência está reservada só para quem até lá acima subiu! Porquê, então, contentarmo-nos com os horizontes tão reduzidos de quem se limita a rastejar na vida?

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