A anunciação a José

Num tempo em que exigimos explicações para tudo, em que se diviniza a liberdade individual, se contestam todas as imposições e só se obedece quando estamos de acordo, a atitude de obediência pronta de José apresenta-se como uma provocação a todos nós.

4º Domingo do Advento 

Só o evangelista Mateus dá algum relevo ao papel de José no mistério da Incarnação do Verbo de Deus.

Homem simples e trabalhador, mesmo que pertencendo à linhagem de David, preparava-se para constituir família com Maria, quando a indisfarçável gravidez com que esta regressa da casa de Isabel e Zacarias vem pôr tudo em questão. Sendo homem “justo”, sente-se na obrigação de ter de denunciar a sua noiva, o que lhe desagradava imenso, pois era a mulher que amava, era a mulher dos seus sonhos. Não admira, portanto, que tivesse insónias e passasse muitas horas a tentar descobrir uma escapatória plausível, como, por exemplo, uma viagem longa e demorada, para que, durante a sua ausência, as coisas se resolvessem.

É neste contexto que, “em sonhos”, o Anjo lhe fala e tudo se resolve: recebe Maria em sua casa e assume publicamente toda a responsabilidade! Se, para nós, é impensável dar tanta importância aos sonhos, não esqueçamos que não acontece o mesmo em todas as culturas. Basta recordar que o Talmude afirma: “Um sonho que não se interpreta é como uma carta que não se lê”. Neste caso, podemos afirmar que José ‘leu’ bem o sonho.

Num tempo em que exigimos explicações para tudo, em que se diviniza a liberdade individual, se contestam todas as imposições e só se obedece quando estamos de acordo, a atitude de obediência pronta de José apresenta-se como uma provocação a todos nós. Basta reparar em tantas situações de conflito, a quando da mudança de pároco(s) ou, para os religiosos, de superior(a) ou de comunidade!....

Mas foram os caminhos da obediência os que Jesus, desde pequenino, percorreu para realizar a nossa salvação, para nos resgatar da desobediência de Adão e Eva. Também S. Paulo nos fala da “obediência da fé” como caminho para a salvação. E o pecado do primeiro rei de Israel, Saul, foi exatamente um pecado de desobediência, que Deus repreende assim: “O Senhor gostará mais de holocaustos e de sacrifícios do que da obediência à voz do Senhor? Não! A obediência é preferível ao sacrifício e a docilidade à gordura de carneiros” (1Sam. 15,22).

Com razão, a Liturgia canta: “servo fiel, humilde e silencioso, mártir da solidão em longo exílio, S. José nos ensina a caminhar na vida, a edificar na [obediência da] fé a paz dos nossos lares”.

A anunciação ‘a’ S. José torna-se, assim, anunciação ‘de’ S. José para todos nós, a fim de, com ele, aprendermos a ler e a acolher, em atitude de obediência pronta e confiante, a vontade de Deus em todos os acontecimentos da vida. 

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