50 anos de Missão no sul de Angola

P. Gerardo Namolo, Diocesano do Lubango, em entrevista a 'Ação Missionária'

Nasceu na Província do Kunene, em 1935. Sente-se um Diocesano filho de Espiritanos. Foi baptizado com 13 anos na Missão da Omupanda. Entrou no Seminário aos 16, foi Ordenado Padre com 32 na Catedral de Sá da Bandeira, Lubango. Licenciou-se em Teologia na Universidade Gregoriana em Roma, onde foi colega de D. António Marto, D. Anacleto Oliveira, D. Manuel Pelino e D. José Alves, Bispos. Foi Vigário Geral da sua Diocese entre 1975 e 2013, ao serviço de cinco Bispos. É autor de várias obras de Teologia e Cultura.

Celebra as suas Bodas de Ouro Sacerdotais a 30 de Julho.

TN: - Como era a sua Diocese natal quando nasceu e viveu a juventude?

PGN: - Quando nasci, só havia uma Diocese para o sul de Angola: Nova Lisboa, cujo Bispo era o Espiritano D. Daniel Junqueira. Foi ele que me crismou quando eu tinha 13 anos, numa celebração longuíssima com mais de 3 mil crismandos! Os meus pais não eram baptizados. Eu era o filho mais velho da mãe o filho mais novo do pai. Assim, recebi os últimos carinhos do pai e o direito de primogenitura da mãe. Cresci na casa de um tio, irmão da mãe. É por isso que nos documentos só aparecem os nomes ligados à família da mãe: Namolo. Os parentes do pai nunca me tratam assim, mas por Hatwikulipi! O tio materno com quem eu vivia era luterano e queria baptizar-me na sua Igreja. Mas o catequista católico da aldeia, vendo o meu perfil, sugeriu que eu fosse para a Missão católica da Omupanda, o que aconteceria em 1947, aos 12 anos. Fiquei no internato da Missão e só nessa altura comecei a estudar e falar português.

TN: - Dali ao Baptismo e ao Seminário ainda foi um longo passo?

PGN: - Tudo decorreu com normalidade. A vida era dura, mas feliz com jogos, passeios e estudo muito sério e rigoroso. O P. Ferreira, Espiritano, sentiu que eu tinha vocação e perfil para Padre e queria pôr-me no Seminário Espiritano. Um contratempo de transporte não permitiu que fosse para o Seminário-Colégio Espírito Santo em Nova Lisboa (Huambo) e acabei por ir para o Seminário Diocesano do Jau (1951). Dali seguiria para o Seminário Maior Cristo-Rei, no Huambo (1960). A Diocese de Sá da Bandeira foi criada em 1955. A Ordenação Sacerdotal foi a 30 de Julho de 1967.

TN: -Quais foram as suas primeiras responsabilidades como Padre?

PGN: - Fui enviado para Moçâmedes (hoje Namibe) como professor de Moral no Liceu Américo Tomás. Devo ter dado conta do recado e o Bispo mandou-me a Roma para me formar em Teologia. De regresso, fui para o Seminário Maior do Huambo onde fui vice-reitor de D. Viti, nos momentos confusos de 1974-75.Fui professor de numerosos futuros bispos e padres de Angola. Ah…devo dizer que eu fui ‘português’ até aos 40 anos e ‘angolano independente’ nos últimos 42!

TN: - Veio a independência e a guerra civil…

PGN:- Sim, foram tempos terríveis. Tivemos que fugir para o Lubango, evacuando apenas os teólogos finalistas, dispersando os restantes. Era D. Eurico Nogueira o Bispo de Sá da Bandeira e tivemos que improvisar tudo para que funcionasse ali o Seminário. Em 1975, D. Eurico nomeou-me Vigário-Geral. E assim começou uma epopeia que só terminaria, por minha pressão continuada, em 2013! Houve tempos muito difíceis, sobretudo durante a longa e dolorosa guerra civil que vitimou o país todo, mas martirizou particularmente uma parte significativa do interior da nossa Arquidiocese do Lubango.

TN: - Que memórias guarda da guerra civil?

PGN: - As piores possíveis. Sobretudo entre 1975 e 1978, como Vigário-Geral, assisti à tomada compulsiva das Missões e outras estruturas da Igreja, que implicou a saída de muitos Missionários. Estava no Paço Episcopal a gerir estes tempos conturbados. Algumas vezes cheguei a enfrentar os militares ao dizer-lhes: ‘só tomarão o Paço se passarem por cima do meu cadáver’! Foram tempos de muita dor.

TN: - Serviu cinco Bispos como Vigário-Geral. Quer traçar um perfil de cada um deles?

PGN: - É muito difícil, mas vou tentar. D. Eurico era um homem que sonhava com uma igreja autóctone madura, com os seus pastores bem formados. D. Alexandre Nascimento (hoje Cardeal) é um homem de uma cultura impressionante, um patriota, defensor da Igreja local. D. Manuel Franklin da Costa possuía uma excelente cultura geral, tinha uma serenidade e uma bondade enormes. D. Zacarias Kamwenho afirmava a riqueza da diversidade na Igreja, chamou muitas Congregações, sente-se sempre Espiritano porque formado e identificado com esta Congregação Missionária a quem todos tanto devemos. D. Gabriel Mbilingi, o primeiro Religioso (Espiritano), é um arcebispo cultíssimo, perspicaz, corajoso nas palavras e intervenções, homem temido pela frontalidade das suas posições públicas

TN: - Prepara-se para celebrar as Bodas de Ouro de Ordenação…

PGN: - Sim, tenho muito que dar graças a Deus e, como sempre acontece na nossa terra, a festa envolve o povo. Começarei a 30 de Julho na Catedral do Lubango. A 18 de Agosto estarei na Missão da Omupanda onde fui baptizado. Depois quero ir à Missão do Sêndi rezar junto à campa do P. Félix e ao Huambo (cemitério de S. Pedro) prestar homenagem ao P. Ferreira. Foram dois padres que marcaram a minha vida para sempre e eu devo-lhes este sinal de gratidão. Com a guerra civil, boa parte da minha família fugiu para a Namíbia e lá reconstruiu a sua vida. Tenho, claro, que ir até lá para fazer festa com eles.

O resto dos dias que Deus me der ainda serão para, a partir do Lubango, continuar a ajudar a Igreja a cumprir a sua Missão.

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