«Missão sem fronteiras»

Nota Pastoral sobre os Missionários do Espírito Santo nos 150 anos da sua presença em Portugal

Com esta Nota Pastoral, queremos reconhecer e agradecer os 150 anos de presença missionária dos Espiritanos em Portugal, recordando o precioso contributo para a missão da Igreja, especialmente no nosso país e a partir dele.

Cláudio juntou alguns jovens, fez com eles a caminhada de discernimento e, no Pentecostes de 1703, deu origem à Congregação do Espírito Santo. De início dedicava-se à evangelização do imenso mundo rural, completamente abandonado, até pela Igreja, sem operários para tão pobre messe.

As origens

1. A Congregação dos Missionários do Espírito Santo tem a sua origem no contexto social de Paris dos inícios do século XVIII. Paris estava a abarrotar de povo pobre que vinha do interior para agarrar alguma oportunidade de trabalho. Também ali morava a gente mais rica do país, como capital que era. As grandes Universidades atraíam os mais jovens. Ali chegara Cláudio Poullart des Places, jovem bretão, para estudar direito. Ele percebeu o drama dos «limpa-chaminés» e outros pobres e, no contacto com eles, concluiu que alguns gostariam de ser padres, mas não tinham dinheiro para os estudos. Cláudio juntou alguns jovens, fez com eles a caminhada de discernimento e, no Pentecostes de 1703, deu origem à Congregação do Espírito Santo. De início dedicava-se à evangelização do imenso mundo rural, completamente abandonado, até pela Igreja, sem operários para tão pobre messe.

Um século depois, nasceu na Alsácia Francisco Libermann. Filho do rabino de Saverne, recebeu educação esmerada para suceder ao pai, mas acabaria por se converter ao cristianismo e rumar em direção do sacerdócio. A epilepsia que entretanto o atingiu quase o afastou desse objetivo, mas seria ordenado em 1841. Com dois jovens de origem africana, lançou a Obra dos Negros, projeto de evangelização que está na origem da Congregação do Imaculado Coração de Maria. A missão principal era a libertação dos escravos e a evangelização dos povos africanos, vitimados pelo flagelo da escravatura. Em 1848, deu-se a fusão das duas Congregações: a do Espírito Santo e a do Imaculado Coração de Maria. O P. Francisco Libermann foi o primeiro Superior Geral e orientou-a definitivamente para a missão ad gentes.

Importa recordar grandes missionários como o P. Tiago Laval, pai espiritual da Ilha Maurícia, e o P. Daniel Brottier, re-fundador da Obra dos Órfãos Aprendizes de Auteuil em Paris, ambos beatificados por João Paulo II. Entre estadistas e homens de cultura, sobretudo em África, que foram formados pelos Missionários do Espírito Santo, importa referir Leopold Senghor, primeiro presidente do Senegal e um dos pais da negritude, que confessou que Libermann e os Espiritanos marcaram de forma indelével a sua vida de cristão, intelectual e escritor negro-africano.

Depois do aéreo deslumbramento do maciço da Chela e do abissal fascínio da Tundavala, a rasa emoção do cemitério da missão católica da Huíla. Aqui jaz… aqui jaz… aqui jaz… Nomes de homens que vinham ao encontro da morte certa e prematura por conta de Deus e do semelhante. Por conta da fé, da esperança e da caridade

Miguel Torga, Diário XII

De Angola a Portugal

2. Os Espiritanos, presentes na África e Caraíbas, entraram em Angola em 1866, idos do Congo Brazaville. Perante a recusa das autoridades portuguesas em aceitar missionários que não fossem portugueses, chegaram a Lisboa os primeiros Espiritanos, um ano depois a 2 de novembro, para preparar futuros padres e irmãos no Seminário Patriarcal de Santarém.

Aqui começa a história do Espiritanos em Portugal. Após anos difíceis, foi Braga a acolher as primeiras grandes estruturas de formação dos Missionários do Espírito Santo. Até 1910, muitos foram os Missionários que partiram para Angola, onde o clima era adverso, a pobreza generalizada e as doenças desconhecidas e incuráveis. Muitos ali morreram, ainda jovens, como bem narra Miguel Torga no seu Diário XII, após visita ao Cemitério da Huíla, no Lubango: «depois do aéreo deslumbramento do maciço da Chela e do abissal fascínio da Tundavala, a rasa emoção do cemitério da missão católica da Huíla. Aqui jaz… aqui jaz… aqui jaz… E são nomes de todas as nacionalidades, portugueses, belgas, franceses, alemães, inscritos lado a lado em humildes lousas iguais, seguidos de uma inscrição trágica: falecido com 24 anos, com 45, com 51, com 32… Nomes de homens que vinham ao encontro da morte certa e prematura por conta de Deus e do semelhante. Por conta da fé, da esperança e da caridade».

A expulsão das Ordens Religiosas de Portugal em 1910 afetou também a Missão Espiritana. Os missionários foram presos ou dispersos. Regressaram em 1919 para uma refundação que seria coordenada pelo P. Moisés Alves de Pinho, mais tarde Bispo de Angola e Congo e seguidamente Arcebispo de Luanda; entretanto, foram construindo Seminários em vários pontos do nosso país, para a formação de numerosos padres e irmãos que partiram para Angola e outros países, e de milhares de jovens, que muito os têm apoiado na sua atividade missionária.

Os Espiritanos contribuíram para a cultura na sociedade portuguesa, sobretudo com obras publicadas nos âmbitos da história, da etnologia, da linguística, da antropologia, da teologia e da pastoral missionária. Disso são exemplos os padres António Brásio e Adélio Torres Neiva, ambos da Academia Portuguesa da História, e Joaquim Alves Correia, considerado um dos pais da democracia portuguesa, que foi homem de cultura, liberdade e opção pelos mais pobres, tendo morrido exilado nos Estados Unidos. A Igreja em Portugal pôde ainda beneficiar do fogo missionário de homens como D. Agostinho de Moura que, após a fundação da Liga Intensificadora da Ação Missionária (LIAM), seria Bispo de Portalegre-Castelo Branco.

Lançaram diversos movimentos laicais de cariz missionário. São milhares de leigos que partilham a espiritualidade no nosso país e dele partem para outros países.

Atualidade da missão

3. Inseridos na Igreja local, sobretudo pela animação missionária e vocacional, os Espiritanos têm passado pela maioria das paróquias do país, mesmo nos lugares mais interiores e insulares. Hoje, asseguram a animação em diversas dioceses, colaboram em diversos eclesiais, formam grupos de jovens no espírito missionário, investem na comunicação, colaboram em capelanias hospitalares e prisionais, apoiam imigrantes e refugiados.

Para isso lançaram diversos movimentos laicais de cariz missionário: LIAM; Movimento Missionário de Professores (MOMIP); Jovens Sem Fronteiras (JSF); Associação dos Antigos Alunos (ASES); Leigos Associados Espiritanos; Fraternidades; Zeladores; Voluntariado Missionário. São milhares de leigos que partilham a espiritualidade no nosso país e dele partem para outros países.

Enquanto Instituto Missionário Ad Gentes, presentemente não se limitam a enviar missionários para fora, mas acolhem nas suas comunidades missionários de outros países, mostrando a universalidade da Igreja e como a partilha e a diversidade são uma riqueza para as Igrejas locais.

Escolheram para lema deste jubileu as palavras de São Paulo: «Alegres na Esperança» (Rm 12,12). Continuamos, por isso, a contar com a sua entrega, o seu dinamismo, o seu estilo de vida simples e comprometido, o testemunho da vida comunitária e fraterna, a sua criatividade na evangelização.

Com os olhos no futuro

4. A vida dos Espiritanos em Portugal é uma história de missão e comunhão, a alargar horizontes, a pôr o coração a bater ao ritmo das preocupações missionárias da Igreja. E constitui uma ocasião para responderem ao convite do Papa Francisco para o Ano da Vida Consagrada (2015-2016): fazer a memória agradecida do passado, viver o presente com paixão e construir o futuro com esperança, um futuro enraizado no martírio, isto, é, no testemunho do Evangelho, que está nas suas origens.

Foi nesse sentido que escolheram para lema deste jubileu as palavras de São Paulo: «Alegres na Esperança» (Rm 12,12). Continuamos, por isso, a contar com a sua entrega, o seu dinamismo, o seu estilo de vida simples e comprometido, o testemunho da vida comunitária e fraterna, a sua criatividade na evangelização.

Agradecemos ao «Senhor da Messe» por tantos missionários que, por meio desta Congregação, tem enviado para a sua messe. Agradecemos a semente do Evangelho que, por seu intermédio, tem lançado ao longo da sua existência, em tantos lugares do mundo. E desejamos que este Jubileu seja oportuna ocasião para retomarem de modo renovado a força missionária e o entusiasmo do anúncio, concretizando o sonho de chegar a todos. Contamos assim com o seu contributo para concretizar o que propusemos na Carta Pastoral «Como Eu vos fiz, fazei-os vós também» de 2010: que a nossa Igreja em Portugal tenha um rosto missionário, em comunidades abertas, fraternas e sempre a caminho, em missão de coração a coração, seguindo os passos do Bom Pastor.

Fátima, 10 de novembro de 2016